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MOMENTO LÍTERO CULTURAL

COLUNA

05 de Julho de 2019 às 08:38

ALBERTO BRESCIANI

Nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de “Incompleto movimento, 2011 e de Sem passagens para Barcelona, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura – Poesia de 2015. Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos. É membro da Galeria dos Poetas do Momento Lítero Cultural.

 

Poesias extraídas do livro “FUNDAMENTOS DE VENTILAÇÃO E APNEIA”, Editora Patuá, São Paulo, SP, 2019.

(gentilmente enviado pelo autor)

 

SILÊNCIO

 

Às vezes é melhor não dizer nada, ou quase

O que se diz ganha corpo, membros,

senta-se à mesa e se esgarça

toda a chance de esquecer

E esse corpo assume espaços, crava o ferrão

em um único lugar na respiração, na linfa,

corpo estranho que nenhum glóbulo branco desfaz

E talvez seja esta a forma de desistir ao contrário,

para sobreviver à dor generalizada,

sem anestesia, antidepressivos, alucinógenos

É este silêncio liso, longo e coagulado

de bicho-preguiça, imóvel, crédulo, na arvore,

enquanto espera

E não sabe, não vai saber

do sobrevoo da harpia.

 

SALMO

 

Sustentam que os sons seguem

caminho sem fim, sinto que sim,

é o destino das palavras sem volta

que o tempo curto de uma vida

de inseto não deixa que calem

 

Talvez ainda possamos ouvir

Talvez ainda nos salvem

as emissões delirantes de certos

pássaros, a lírica simétrica

e sonora dos golfinhos

 

Ainda teremos cama

no inverno.

 

EPIFANIA PARA TERÇA-FEIRA

 

O nosso voo nesta manhã,

o sol de agosto purificando o ar

 

O nosso voo daqui a pouco

não será nada e, no entanto,

 

entre os galhos retorcidos,

não temos mais nenhum segredo.

 

MEMÓRIA

 

Antes que fibrilações

e rugidos destruíssem

muralhas, o último vinil

antes do afogamento

das arraias em pleno mar

antes que o copo secasse,

éramos livres e invisíveis,

a carne desarmada,

como arquipélagos sem depois.

 

CORVOS

 

Não via os corvos,

mas eram corvos,

prendendo o tempo

E eu criava pombos

 

Quando você saiu,

as sombras

tinham penas negras

e ficaram pela casa,

pela garganta,

as suas penas

 

Ontem entendi

e acendi a luz.

Direito ao esquecimento

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