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MOMENTO LÍTERO CULTURAL

COLUNA

03 de Julho de 2019 às 17:41

Foto:

 

GALERIA  DE POETAS

 

OLGA  SAVARY - RIO DE JANEIRO / RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 22 / 10 / 1993.

 

VIDA

 

Eu era menor que meu amor.

Volta à cidade o nome antigo

( São Petersburgo ), vela e nau,

porto e naufrágio, místico ateu,

lobo e cordeiro, nave que parte

e ancora.

Como reger o tempo

se logo se faz noite

e já não é dia

sob esta verdade :

quando falo de um lugar

pelo menos no lembrar

o lugar já não existe,

quando falo de alguém

este alguém já está morto ?

Então que amor é este amor

e vida ? Uma ilha,

solidão e matilha ?

 

FERNANDO  PY - PETRÓPOLIS / RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 08 / 06 / 1996.

 

FUI EU

 

Fui eu esse menino que me espia

-melancólico olhar, sereno rosto,

postura fixa e o todo bem composto-

no retrato que o tempo desafia.

 

Fui eu na minha infância fugidia

de prazeres ingênuos, e o desgosto

de sentir tão efêmera a alegria

bem depressa trocada em seu oposto.

 

Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa

e tudo altera nem sequer deixou

um grão de infância feito esmola escassa.

 

Fui eu : e na figura só ficou

o olhar desenganado, na fumaça

em que a criança inteira se mudou.

 

CARLOS  NEJAR - GUARAPARI, ES.

1ª participação no Lítero Cultural : 25 / 04 / 1997.

 

OS MORTOS – EU OS VI – NA PRIMAVERA

 

Os mortos – eu os vi – na primavera.

Ressurgiam dos corpos. Eu os vi.

A primavera começava neles

e terminava onde a alma estava.

 

Os mortos – eu os vi – iam descalços

na primavera, iam libertados.

Nada tolhia, nada separava

os pés das coisas vivas.

 

Os mortos – eu os vi – não tinham rosto

nem nome. Eram muitos.

Num só se acrescentavam.

Eram muitos e vivos. Perguntei-lhes

por onde a primavera se alongava.

 

Os mortos – eu os vi – na primavera.

O sol dobrava neles os seus frutos.

 

O sol entrava neles. Eram larvas.

 

ALICE  SPÍNDOLA - GOIÂNIA, GO.

1ª participação no Lítero Cultural : 06 / 03 / 1998.

 

IMORTALIDADE

 

A palavra anda de carona

nas asas da borboleta,

salta para o tapume,

depois para o topo da escada.

 

Na carona da palavra,

transcendo a luta

contra a vida e a morte

num sopro de eternidade.

 

NEIDE  ARCHANJO - RIO DE JANEIRO, RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 18 / 06 / 1999.

 

O TEMPO

 

Chamo Rilke ou Pessoa

posto que estou derivando

à toa.

 

Ninguém me acode

nestes versos

onde uma paixão

me amaldiçoa.

 

Dela resta uma coisa dura

que o tempo perpetua.

 

TOBIAS  PINHEIRO - RIO DE JANEIRO, RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 29 / 10 / 1999.

 

ORAÇÃO DOS INJUSTIÇADOS

 

Senhor, afasta do meu caminho

os juízes que não têm toga

e não permitas, ó Pai,

que as togas sejam usadas

pelos que não sabem julgar.

 

REYNALDO  VALINHO  ALVAREZ - RIO DE JANEIRO, RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 14 / 04 / 2000.

 

O APOCALIPSE

 

Mataram-se por ódio ou ambição

esses que agora juncam o teu chão.

 

Breve o sol e os abutres lhes darão

o odor e a forma em que se plasma o caos.

 

Saíste a passear e agora tens

o retrato do horror diante de ti.

 

Ó e fumo de tantas explosões

ainda toldam o céu sobre as cidades.

 

Catas no lixo o resto de teus dias,

vividos junto aos teus e à tua mesa.

 

A catástrofe monta o apocalipse

e contas teus segundos em silêncio.

 

TANUSSI  CARDOSO - RIO DE JANEIRO, RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 21 / 07 / 2000.

 

O NOME NO ESPELHO

 

Que nome sou eu ?

A quem habito no rosto diário ?

A quem respondo quando me pergunto ?

Que olhos me adentram ?

Que corpo é esta pele

E que ossos esta árvore doce e raivosa ?

Quem a mim me lê antes de mim ?

 

Coisa da coisa que não é – eis meu nome.

 

Dilúvio seco

Filtro sem ar

Fantasma abandonado

Susto

Medo

 

Que nome sou eu, senão fragmentos ?

 

ALCIDES  BUSS - FLORIANÓPOLIS, SC.

1ª participação no Lítero Cultural : 22 / 09 / 2000.

 

POEMA

 

Ponha um X no ar

e quatro gotas de sangue

no mar. Mande o corpo

sonhar.

 

Ou deixe tudo

como está.

menos este gosto de aurora

nas unhas da língua.

 

WALDIR  RIBEIRO  DO  VAL - RIO DE JANEIRO, RJ.

1ª participação no Lítero Cultural : 29 / 10 / 2004.

 

MEU CANTO

 

Meu canto atravessará a noite

e se perderá na ausência :

nem a estrela ouvirá a súplica

nem serão testemunhas os pássaros.

 

Meu canto atravessará a noite,

satélite perdido.

Ainda que ninguém o pressinta,

ele estará ali, em marcha,

buscando o infinito.

 

Quem um dia saberá de sua existência ?

 

Apesar de tudo, canto :

como quem se dessedenta,

um cão faminto sobre as migalhas.

 

 

 

Direito ao esquecimento

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