Um desafio aos nossos políticos - Por Estevão Fernandes

 

 

 

Errados, é isso o que vocês são. Independente do cargo que buscam – Governo, Senado, Câmara Federal ou Assembleia Estadual, seguem-se persistindo nos antigos erros. Entendam este texto como um desabafo de um velho professor mas, também, um desafio a cada uma e a cada um de vocês que, neste momento, se acham dignos de representar nossa população.

Independente de espectro ideológico, partido, ou sobrenome, fato é que haverá um desafio enorme a quem quer que seja eleito em algumas semanas: temos um país rico, repleto de pobres. Historicamente somos um dos países mais desiguais do mundo, com uma massa de famintos e desempregados. Infelizmente, a maioria de vocês não tem apresentado propostas concretas para enfrentar isso. Temos frases de efeito, programas bem produzidos – uns, nem tanto... – e várias, várias promessas... nada diferente do que reza o roteiro que nós, cidadãos e cidadãs, bem conhecemos. O programa eleitoral com vocês aparecendo se chamando pelo primeiro nome, comendo pastel e café na feira para, em seguida, desaparecerem ou fazerem questão de serem chamados de excelências.

Pois bem, desafio vocês a pensarem um projeto viável para a Educação (incluindo Cultura, Ciência e Tecnologia), em Rondônia. Não falo de políticas de Governo, pensadas a curto prazo; nem de estatísticas relacionadas a taxas de sucesso ou compra de carteiras. Mas a pensarem a educação de forma ampliada, como a única chave possível para o futuro não apenas de nossas crianças, mas de todo o rondoniense de cada canto deste estado.

A pandemia escancarou o que nós, educadoras e educadores já sabíamos: que não estamos preparando nossos jovens para um futuro conectado. Não há acesso à educação digital, algo diferente de doar tablets ou chips para nossos alunos. Falo em transformar nossos jovens em cidadãos críticos e criativos, com acesso a museus, centros culturais, mas também a mídias e linguagem de programação. Isso requer uma política voltada para nosso patrimônio histórico, material e imaterial – algo que vai muito além da reforma da EFMM ou da pintura de Centros Culturais. Me refiro a fazer com que nossos jovens tenham orgulho de nosso passado, entendam o legado de nossos pioneiros e, ainda assim, saibam dominar linguagens tecnológicas e tenham capacidade de serem cidadãos e cidadãs do mundo.

Aqui cabem duas observações:

  1. Nosso desafio é pensar o mundo que estes jovens habitarão em 50, 60 anos... Pensem na distância que estamos dos anos 1960 e 1970 do ponto de vista tecnológico e digital: o homem mal tinha pisado na Lua e, quando o fez, foi em um satélite com menos capacidade de processamento que um celular atual. Temos que preparar nossos jovens pensando em 2050, 2060... a pergunta é: quão perto disso nós estamos? Pensar isso inclui pensar propostas concretas a longo prazo para preservação de nosso patrimônio e de nossa sociodiversidade. Parte do futuro de nossa economia está em nosso passado, tanto quanto em nossa Floresta; e
  2. O melhor programa de transferência de renda é a educação, e vários países já perceberam isso. Temos plenas condições de fazermos de Rondônia um verdadeiro parque científico e tecnológico, com empregabilidade e maior qualidade de vida para nossa população. Estamos no centro da América do Sul, o que nos possibilita sermos um polo exportador de bens tecnológicos. Fato é que, da mesma forma que uma aposta em nosso patrimônio histórico repercute em nossa indústria e bens e serviços (afinal, turismo é uma indústria sustentável e viável em nossa região), a criação de um parte tecnológico é uma alternativa às suscetibilidades do mercado internacional de commodities. Dito de forma bruta e simples: do que adianta sermos um polo exportador de grãos e gado, se os recursos advindos disso não são redistribuídos de forma sustentável, voltando-se a criação de empregos, pesquisas, etc.? O agro não deve financiar apenas pesquisas ligadas diretamente ao agro, uma vez que o progresso e desenvolvimento de toda a população do nosso estado repercute na economia, como um todo – não apenas no consumo, mas na ampliação de recursos logísticos, aparato tecnológico, controle social do uso de recursos públicos, etc.

Faltam propostas, caros candidatos e candidatas. Falta comprometimento e sobram, como disse, fotos com pastel de feira e com vocês, acenando para “o povo” (ou seja, nós!). A pandemia nos ensinou muita coisa, uma delas foi a importância de se investir em uma educação de qualidade ligada estreitamente a políticas de fomento a cultura, ciência e tecnologia. Isso gera emprego, combate desigualdade, mata fome e aumenta a autoestima de um povo.

Hora de pensar em Rondônia daqui a 50, 60 anos... Que propostas de vocês, efetivamente, contemplam esse futuro – que nós precisamos e que nossos filhos merecem, e podem ter?

Fica o desafio.

Professor Estevão R. Fernandes

Antropólogo

Universidade Federal de Rondônia

 

O autor é professor do Departamento de Ciências Sociais da UNIR (campus Porto Velho). Tem Doutorado pela Universidade de Brasília com período sanduíche na Duke University (EUA) com Pós-Doutorado pela Brown University (EUA).

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