A BR-317 foi bloqueada logo na entrada de Rio Branco por cerca de 200 produtores rurais dos projetos de assentamento Moreno Maia e Benfica. Eles exigiram o cumprimento de uma promessa de campanha política que se arrasta há 12 anos: o asfaltamento do Ramal do Benfica, que, além dos projetos dá acesso ao túmulo do líder militar Plácido de Castro.
O protesto começou às 8 horas e durou uma hora e meia. Tempo suficiente para chamar a atenção do governo do Estado, que enviou representantes do Departamento de Estradas e Rodagens (Deracre), do Instituto de Terras do Acre (Iteracre) e da Secretaria de Articulação Política. A reunião aconteceu na escola municipal Benfica, onde os produtores deram prazos ao governo.
- Não vamos ficar esperando eternamente, precisamos desse ramal. Ou o governo cumpre a sua promessa de campanha ou fechamos a BR de novo! - brada um produtor.
- Essas coisas não são assim, manda asfaltar e asfalta. Precisa ter dinheiro liberado e é isso que estamos esperando. Já temos contrato assinado para asfaltar 2,98 quilômetros e só falta a liberação do dinheiro do Programa Calha Norte! – responde um dos assessores.
- Mas o ramal tem 8 quilômetros, não são só 3!
- Então, para asfaltar esses cinco, temos que entrar em negociação. Mas para isso temos que ceder, negociar é isso. Senão não tem negociação, tem imposição!
Irritação geral. Os produtores não gostam da nova regra. Caras fechadas, mãos estendidas e vozes alteradas se alternam na mesa. Até que uma voz jovem, ao mesmo tempo decidida e sofrida, se faz ouvir.
- Não vamos negociar nada. Já esperamos 12 anos e queremos agora asfalto até a beira do rio. Ou vocês chamam os políticos e resolvem essa questão agora ou vamos voltar e fechar a rodovia até o governo arranjar o dinheiro e cumprir a promessa. Nossas crianças estão ficando doentes!
Nova balbúrdia. Assessores se entreolham. Um segurança aparece.
- Pessoal, como dissemos a vocês, temos o contrato fechado com a empresa para asfaltar os 2,98 quilômetros. Mas estamos esperando o dinheiro, porque é um convênio. Não há alguém tão interessado nisso quanto o do governo do Estado e esse dinheiro pode sair hoje ou amanhã. Já em relação aos outros cinco quilômetros, o que podemos fazer é discutir com ‘o pessoal’ e depois voltamos a nos reunir aqui ou em outro lugar.
A manobra funciona. O governo ganha tempo e a segunda reunião, um prazo: até a próxima sexta, dia 10. Insatisfação. Nada é certo, a não ser resmungos e desabafos: “É só um jogo de datas”. E fica por isso mesmo. (Josafá Batista)
Ameaça de novo bloqueio
Apesar do “acordo”, os produtores prometem um novo bloqueio na BR-317. A manifestação só tem uma condição: que, de novo, a promessa não seja cumprida. Ou seja, no dizer dos próprios produtores, “que não haja posição definida sobre o asfaltamento”.
“Eles pediram um prazo para estudar a questão e, na sexta-feira, vão ligar para dar uma resposta. Mas a gente ficou meio assim, meio cabreiro. A única coisa certa é que se não tivermos uma posição definida e eles não fizerem o prometido vamos fechar a rodovia de novo. E nesse dia vamos fazer com força”, disse Marcos Oliveira dos Santos, produtor do Moreno Maia.
A irritação dos produtores aumentou depois que constataram que, no lugar de uma decisão prática sobre o asfalto, os representantes do Estado, na reunião, sugeriram decisões teóricas sobre novas reuniões.
A manobra tática teve efeito contrário e, em uma onda de mau-humor, os homens que lidam com a terra decidiram: vão manter em sigilo o dia do novo protesto.
“O nosso movimento será rápido, não vamos estragar a surpresa. Queremos que resolva o problema, não queremos criar transtorno para ninguém. Só estamos lutando pelo nosso direito de sobreviver também, de levar os nossos alimentos para que os filhos dos que moram na cidade possam se alimentar. E isso só é possível com o asfalto, que é prometido para nós há 12 anos nas campanhas eleitorais”, esclarece outro agricultor.
Ramais sem assistência
A falta de tráfego decente nos ramais, que impede o transporte da produção rural acreana, não é problema isolado do Benfica. Em evento público na esplanada da Assembléia Legislativa, em julho, a Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Acre (Fetacre) denunciou o problema como uma das principais dificuldades da agricultura acreana.
No começo do mês, foi a vez do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) se manifestar. Na imprensa, o protesto contra as péssimas condições dos ramais foi confundido com a greve dos servidores da Embrapa, Incra e Ibama, mas, na verdade, os produtores vêm denunciando o abandono dos ramais desde o começo do ano.
O mesmo problema vem sendo enfrentado também pelos produtores do Ramal da Judia, que liga as últimas ruas dos bairros Seis de Agosto às do Mauri Sérgio, no Segundo Distrito de Rio Branco. Também em julho, os agricultores bloquearam a Via Chico Mendes, perto da antiga Estrada do Amapá.