Linha 204, km 10, em Rolim de Moura, Rondônia. Um lugar que memora uma época simples, mas cheia de felicidade. É aqui que se encontra a cachoeira de memórias, onde, há décadas, lavava roupas, tomava banho e me divertia dentro da mata. Um refúgio que me transporta de volta à década de 1980, quando morava no sítio onde lecionava.
De 1982 a 1987 vivi uma vida simples, sem luxos, mas cheia de significado, e apaixonada junto do meu bem. Meu marido e eu éramos professores, morávamos numa construção modesta, sem água encanada, eletricidade e tudo que uma cidade nos proporciona. Mas isso não era impedimento para nossa felicidade. Tomávamos banho, lavávamos roupa e pratos no rio. E a cachoeira era nosso refúgio.
Lembro-me das tardes de verão empoeirado, varria a casa pela manhã e à tarde retirava mais um litro de poeira, confesso que irritava, mas depois que via o sol se pondo atrás das árvores, ao som do canto dos pássaros e o assobio do vento que parecia música aos nossos ouvidos, lá estava eu no paraíso. Nossas noites eram iluminadas pela lua, regadas pelas histórias de vida dos migrantes, nossos vizinhos, das bravuras, das aventuras e até assombrações. Era um momento de união. Voltávamos para casa, às vezes, na penumbra, com o medo como companhia e o arrepio na pele.
FOTO: Mirian e os filhos Mina e Ícaro, 1987 / Reprodução de acervo pessoal
Já em 1987, foi ano de crescimento, amor e trabalho. A escola, onde lecionamos, estava localizada no sítio, da linha 204, km 10. Era um lugar não só de aprendizado multisseriado, mas também de crescimento profissional e pessoal. Nessa época, minha filha Mina Dânae estava com um ano e meu filho Ícaro três anos. As crianças da escola eram como nossos filhos e os pais eram como amigos. Dávamos aulas diversas, fazíamos até a merenda. A escola era cheia de amor e cuidado.
Na hora do almoço, era comum me encontrar brincando e rindo com as crianças, Ícaro e Mina corriam pelo quintal, um momento de pureza e inocência. E eu, como mãe, sentia-me realizada, sabendo que estava construindo uma base sólida para seus futuros. Não havia preocupações com tecnologia, redes sociais e todas as notícias ruins que circulam atualmente. Havia uma sensação de plenitude, de que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo.
Consegui estabelecer minha carreira na Prefeitura de Rolim de Moura, como assessora de imprensa, estava em plena atividade, conciliava o trabalho com a vida de mãe e esposa. Meu momento de crescimento aconteceu, mudei de profissão, agora estava em um lugar onde eu podia fazer a diferença. Era um tempo de mudanças e eu estava ansiosa para contribuir para o crescimento da cidade.
Hoje, refletindo sobre esses anos, percebo que a felicidade não está no dinheiro, luxo, bens e poder, mas nas coisas simples da vida, que muitas vezes deixamos de aproveitar: a natureza, a família, a comunidade. É isso que nos faz felizes.
A cachoeira da memória continua a fluir límpida e fresca e eu continuo a lembrar daquela época. É um refúgio que me transporta de volta à felicidade.
Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos da jornalista Mirian Penha Franco, de 67 anos, em entrevistas concedidas em abril de 2025.
Amelia Neves é aluna do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.