LANÇAMENTO: Livro faz a defesa da história contra fake news e negacionismos

Lançado pela Editora Contexto, “Novos Combates Pela História” traz ensaios em favor da verdade histórica

LANÇAMENTO: Livro faz a defesa da história contra fake news e negacionismos

Foto: Divulgação

Governos autoritários, que odeiam a verdade, distorcem a história para que ela pareça dizer o que lhes convém. Militantes organizados, das mais diferentes ideologias, se acham no direito de dar a sua versão dos fatos. Usuários das mídias sociais difundem mensagens sem nenhuma base científica. Até mesmo acadêmicos relativistas chegam a dizer que não há história, mas narrativas. Ao mesmo tempo, negacionistas se recusam a admitir fatos indiscutíveis, como o massacre de armênios pelos turcos e o Holocausto, a matança de 6 milhões de judeus pelo regime nazista alemão. Por todos os lados e de diferentes formas a verdade histórica é violada.
 
 
Justamente para denunciar os usos abusivos da história, enfatizar a necessidade do conhecimento histórico cientificamente reconhecido e mostrar a importância do trabalho dos historiadores e dos professores de história – responsáveis pela difusão desse conhecimento -, a Editora Contexto acaba de lançar o livro Novos Combates Pela História – Desafios, Ensino, organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky. “Ser infiel à verdade dos fatos é algo que governantes e políticos praticam há muitos séculos”, escrevem Jaime e Carla Pinsky no capítulo de abertura da obra – intitulado A História Contra-Ataca -, citando como exemplo o faraó Ramsés II, do século 13 antes de Cristo, que mandava apagar dos monumentos egípcios os nomes dos seus construtores e colocava neles o seu próprio nome, para receber o crédito pelas obras. “Mas nunca se mentiu em escala e profundidade como nos dias de hoje, com uma tecnologia sofisticada, que permite o envio simultâneo de milhares de mensagens a receptores do mundo inteiro.”
 
 
 
Com 256 páginas, o livro traz nove ensaios de diferentes autores. Um deles é Negacionismo e Revisionismo Histórico no Século XXI, de autoria do professor Marcos Napolitano, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Napolitano busca, em seu ensaio, “apontar caminhos” para os professores de história diante da disseminação de ideias negacionistas e da visão de que o conhecimento histórico é mera questão de opinião. Lembrando que historiadores e professores têm sido acusados de “não neutros” e “emissores de opinião travestida de pesquisa científica” – não com a intenção de aprimorar o debate, mas para cercear o trabalho desses profissionais -, ele destaca que o historiador se diferencia do autor estritamente panfletário porque não se desvia do método histórico, baseado no trato crítico das fontes, não silencia diante das evidências de fatos e processos verificáveis através das fontes e se mantém na argumentação fundada em conceitos e categorias de análise. “Essa é a sua ética de trabalho”, escreve o professor. “Esse desafio também inclui o professor de história do ensino básico, que não é um mero repetidor da historiografia acadêmica, mas que precisa manter com ela um diálogo fecundo, acessível aos alunos, que devem desenvolver um pensamento histórico e conhecer as bases da produção do conhecimento sobre o passado.”
 
 
Edição francesa de Os Protocolos dos Sábios de Sião, livro apócrifo surgido provavelmente na Rússia e traduzido para vários idiomas: mentiras contra o povo judeu – Foto: Reprodução
O ensino de história na educação básica é tema de outro ensaio publicado no livro, Defesa do Ensino de História nas Escolas, assinado pela professora Maria Ligia Prado, também do Departamento de História da FFLCH. Segundo ela, esse ensino é necessário porque a história fornece elementos para que os alunos se transformem em cidadãos conscientes e democráticos.
 
 
Ela cita como exemplo um fato histórico que, ignorando a historiografia, tem sido reinterpretado e negado por grupos políticos conservadores – o golpe militar de 1964 no Brasil. Analisando os conceitos de “democracia”, “golpe de Estado” e “ditadura”, Maria Ligia faz a crítica dessa reinterpretação e conclui que o “movimento de 1964” não restaurou a democracia no Brasil, como dizem os negacionistas, mas promoveu o contrário – uma longa ditadura que suprimiu a Constituição vigente e, com o uso dos órgãos de repressão do Estado, se manteve no poder por 21 anos. “A história é disciplina essencial para a formação dos estudantes na instituição escolar”, defende Maria Ligia. “E o professor de história continua a ser figura central, não só para ensinar-lhes os conteúdos da matéria, mas também para fazê-los refletir sobre as questões do presente e do passado e ajudá-los a desenvolver o pensamento crítico.”
 
 
Formas de combater na escola as mentiras e os negacionismos são dadas pelo professor Bruno Leal, do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), autor do ensaio Fake News: do Passado ao Presente, também publicado em Novos Embates Pela História. Uma dessas formas se refere à “formação cidadã” dos alunos, que deve ser o objetivo de todo educador. “Em contraposição à ‘educação bancária’, que segundo Paulo Freire é aquela educação meramente baseada na ideia de transmissão do conhecimento (como uma transação bancária), a ‘educação cidadã’ pensa o ensino a partir da lógica da construção social do cidadão futuro, homens e mulheres que são formados a partir de valores humanistas, solidários e democráticos. O reconhecimento da verdade é um ponto fundamental desse tipo de formação”, escreve o professor.
 
 
Uma das sugestões que Leal faz às escolas é discutir com os estudantes o que pode ser chamado de “história da mentira”, dando historicidade à mentira e às suas múltiplas manifestações na sociedade ao longo do tempo. “Essa abordagem pode ser enriquecida se o professor conseguir relacionar exemplos de fake news do passado com fake news do presente, mapeando semelhanças e diferenças.”
 
 
Exemplos de fake news ao longo da história não faltam, como Leal mostra no seu ensaio. No século 6, o escritor bizantino Procópio de Cesareia escreveu o livro Anékdota – publicado postumamente -, repleto de histórias duvidosas, em que difama o imperador Justiniano (483-565). Nele, o escritor sugere que o imperador e a imperatriz Teodora levavam vida dissoluta, com vícios de toda espécie. “Justiniano e Teodora seriam na realidade demônios que teriam ascendido ao trono imperial exclusivamente para disseminar o mal.” Às vésperas da eleição do papa Adriano VI, em 1522, o poeta Pietro Aretino (1492-1556) espalhou por Roma folhetos com mentiras sobre os cardeais mais cotados para o cargo de pontífice. No início do século 20, surgiu o livro Os Protocolos dos Sábios de Sião, provavelmente produzido na Rússia e logo traduzido para vários idiomas, que se apresenta como a cópia das atas de reuniões secretas de lideranças judaicas, em que estas teriam planejado a dominação do mundo.
 
 
À esquerda, o escritor do século 6 Procópio de Cesareia, que espalhou mentiras sobre o imperador bizantino Justiniano; à direita, o faraó Ramsés II, que apagava dos monumentos os nomes dos seus construtores e colocava o seu próprio nome, para receber o crédito pela obra – Fotos: Wikipédia
 
 
Assim como Leal, o historiador Icles Rodrigues também faz sugestões para os professores de história no ensaio Usos Pedagógicos para Youtube e Podcasts. Depois de dar noções básicas sobre a plataforma Youtube e sobre podcasts e de discorrer sobre o “fazer histórico”, ele dá dicas práticas para uso dessas ferramentas. Para isso, utiliza sua própria experiência como criador do canal Leitura Obrigahistória, no Youtube, e produtor de podcasts sobre temas relacionados à história. “No mundo conectado em que vivemos, onde a internet se torna continuamente mais acessível, é imprescindível que educadores conheçam as diferentes mídias nas quais se divulga conhecimento histórico para além das tradicionais, como livros, revistas, jornais, programas de televisão e rádio”, escreve Rodrigues. “Não podemos agir como se entender essas mídias não fosse importante. Pelo contrário, é preciso observar como elas atuam, quais são seus perigos e suas potencialidades. Mais do que apontar o que elas podem trazer de nocivo, temos que tentar usá-las em nosso benefício como profissionais da área de educação.”
 
 
 
Já o professor Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alerta que o anacronismo é outra maneira de manipular a história e a realidade. No ensaio Anacronismos e Apropriações, presente no recém-lançado livro da Editora Contexto, ele destaca que o anacronismo ocorre quando passado, presente e futuro são misturados, tomando tempos diferentes como iguais. “Um anacronismo evidente é a ideia de que os seres humanos vivem e sempre viveram para minimizar os custos e maximizar os lucros”, destaca. “Esse princípio do capitalismo, compreensível para os dias de hoje, seria algo universal, fora do tempo, da história e da cultura. Ora, na pré-história, na Antiguidade ou entre os indígenas (ainda hoje), os seres humanos preocupavam-se com viver bem ou ser admirados, mas não com acumular bens e riquezas.”
 
 
Outros ensaios publicados em Novos Combates Pela História são Quem Escreve a História: a Qualificação do Historiador, de Carlos Fico, Visibilidade Histórica para Mulheres, Negros e Indígenas, de Luanna Jales, e A Grande Ásia e o Ensino de História, de Alex Degan.
 
 
Novos Combates Pela História – Desafios, Ensino, de Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky (organizadores), Editora Contexto, 256 páginas, R$ 49,00.
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