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CRISE: Reabertura de cinemas no país enfrenta roteiro de dificuldades

Funcionamento restrito de salas e desorganização do calendário de lançamentos fazem com que a volta dê a passos lentos e com pouco público

Uai

22 de Outubro de 2020 às 10:59

Foto: Divulgação

O parque exibidor brasileiro conta com aproximadamente 3,5 mil salas. Nem 10% desse total foi reaberto no período de flexibilização da quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus, iniciado em agosto. Dos lançamentos que chegaram às salas nesse período, o mais assistido é a animação Scooby! O filme, que entrou em cartaz em setembro (público acumulado de 89 mil pessoas).

 

Se observarmos o ranking dos 10 filmes mais vistos no país na última semana, Scooby estará em primeiro lugar, mas outras produções têm um público superior. A maldição do espelho já foi visto por quase 100 mil pessoas e Harry Potter e a pedra filosofal amealhou uma plateia de 3,69 milhões de espectadores.

 

Mas parte do público que assistiu ao terror russo foi aos cinemas antes do fechamento das salas em decorrência da pandemia do novo coronavírus – A maldição do espelho estreou em 12 de março, uma semana antes de as salas interromperem suas atividades. E Harry Potter e a pedra filosofal, o primeiro longa da franquia do bruxinho, tem 19 anos e foi relançado agora em 4k. Resumindo: o calendário está uma bagunça, e ela deve continuar.

 

“Esta abertura, lenta e gradual, é a única possível. Quem está abrindo os cinemas não são os distribuidores ou exibidores, é a COVID-19. Os países que administraram a doença de uma maneira racional, como China, Coreia e Japão, já estão com praticamente todas as salas abertas”, comenta Paulo Sérgio Almeida, da Filme B, empresa especializada em análise e números do mercado cinematográfico no Brasil.

 

Dominó

 

É como um jogo de dominó, em que uma coisa puxa a outra. Não há grandes lançamentos porque não há muitas salas abertas e ninguém vai investir agora. “Cinema é mais complicado de abrir do que bar e restaurante, pois depende de Hollywood. E os EUA estão numa situação  muito ruim (da pandemia). Além disso, houve a explosão do streaming e os filmes ficam entre ir para o cinema ou o streaming. Vários distribuidores, pela necessidade de dinheiro para fazer capital de giro, acabaram optando pelo streaming”, diz Almeida.

 

E no Brasil, ele conta, a abertura das salas é relativa. Não é porque um complexo tenha 10 salas que todas elas estão abertas. “Abre-se uma, no máximo três salas, porque não tem um produto forte para lançar.”

No país, o primeiro lançamento da flexibilização foi o argentino O roubo do século, que estreou no fim de agosto (antes da pandemia, seu lançamento estava previsto para o fim de março). A narrativa, baseada em fatos reais, recupera um dos mais famosos e inteligentes assaltos a banco da história da Argentina.

 

Esse longa e também Scooby (previsto originalmente para maio) e o nacional Três verões (que entraria em cartaz em março) são os únicos títulos do início da reabertura já vistos na Grande Belo Horizonte. Todos os três foram exibidos em drive in em Nova Lima, única maneira de se assistir a um filme em tela grande durante a pandemia, já que as salas da capital permanecem fechadas.

 

Permanece inédito na cidade o terror sul-coreano As faces do demônio, que tenta surfar na onda de Parasita. Outros lançamentos das últimas semanas são a produção cristã antiaborto 40 dias: O milagre da vida e Magnatas do crime, novo longa de Guy Ritchie, estrelado por Matthew McConaughey. Na seara dos independentes, há também Apocalypse now – Final Cut, versão restaurada do filme de Francis Ford Coppola de 1979, e o nacional Sem seu sangue, de Alice Furtado (que em breve será lançado pela Netflix).

 

Relançamentos

 

O que também vem ocorrendo nas cidades com cinemas já abertos é o relançamento de filmes que chegaram às salas às vésperas da pandemia e tiveram suas carreiras interrompidas. Entre eles está A ilha da fantasia, remake da série homônima oitentista (o filme recebeu críticas pra lá de negativas).

 

Nesta quinta-feira (15), a Warner lança o Festival Nolan, na verdade, o relançamento de quatro títulos do cineasta Christopher Nolan: Batman – O cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010), Interestelar (2014) e Dunkirk (2017). A exibição nada mais é do que um “esquenta” para a chegada de Tenet, previsto para estrear no país no próximo dia 29. Tanto por isto, nas sessões dos quatro filmes serão apresentados 10 minutos de bastidores da nova produção.

 

Tenet, que foi lançado primeiramente na Coreia, no último 21 de agosto, fez até agora US$ 323,5 milhões de bilheteria mundo afora (dados do Mojo Box Office). Trata-se de um drama de espionagem de ficção científica estrelado por John David Washington e Robert Pattinson. Mais do que uma nova (e milionária, pois custou US$ 200 milhões) narrativa de um dos diretores mais inventivos (e donos de grandes bilheterias) da indústria, Tenet vem sendo apontado, desde o primeiro semestre, como a salvação do cinema em 2020.

 

Ele está indo bem ao redor do mundo, mas não nos EUA, o principal mercado. As bilheterias americanas estão tímidas – por lá, o longa arrecadou, até o momento, US$ 48 milhões. Mas contabilizando o maior número mundial de infecções e mortes pelo novo coronavírus, os Estados Unidos permanecem com seus seus principais centros urbanos (Nova York, São Francisco e Los Angeles) de cinemas fechados.

 

Quarenta e oito por cento das salas americanas estão abertas. Isso não impediu que no último fim de semana uma comédia rasteira com Robert De Niro, Guerra com o vovô, ultrapassasse Tenet nas bilheterias.

Outro lançamento que pode fazer as pessoas irem aos cinemas em meio à flexibilização é Os novos mutantes, mais um título da Marvel para o universo de X-Men, com Maisie Williams (a Arya Stark de Game of thrones) como uma das protagonistas, e a brasileira Alice Braga no elenco. O filme está sendo distribuído pela Disney e deve chegar ao Brasil na semana que vem.

 

Ridículo

 

Para Paulo Sérgio Almeida, tanto Tenet quanto Os novos mutantes são paliativos para um ano perdido. Analisando o cenário brasileiro, ele diz: “Estamos com uma ocupação ridícula das salas. Depois de 10 anos de crescimento, chegamos a um ano de perda quase total, pois só tivemos os três primeiros meses. Sofre todo mundo: exibidor, distribuidor, produtor, a infraestrutura. É uma terra arrasada.”

 

Para ele, só com blockbusters mundiais o setor poderá começar a se recuperar. E como tudo na pandemia, os maiores filmes do período vêm sofrendo com constantes adiamentos. Mulher-Maravilha 1984, que deveria ter estreado no Brasil em agosto, agora deve ser lançado somente em 24 de dezembro. Se o parque exibidor nacional estiver aberto devidamente daqui a dois meses, um resultado positivo poderá vir do lançamento da Warner. Mas os louros só serão colhidos em 2021.

 

Fracassado e líder

 

Trezentas pessoas compraram ingressos nos Estados Unidos para ver a estreia por lá do “novo” filme de Woody Allen. Novo para eles, velho para quase todo o resto do mundo, Um dia de chuva em New York estreou em seu próprio país de realização no último fim de semana. O filme é a comédia romântica de 2018 que ficou engavetada diante de acusações de assédio sexual de 25 anos atrás contra o diretor e que voltaram à tona no contexto do movimento #MeToo.

 

No Brasil, o filme estrelado por Timothée Chalamet, Selena Gomez, Elle Fanning, Jude Law, Rebecca Hall, Liev Schreiber e Diego Luna estreou há quase um ano. Sem nenhum alarde, Um dia de chuva foi lançado em seis cinemas americanos. Somente a sala de exibição de Chicago arrecadou mais de US$ 1 mil com a bilheteria do filme de Allen. Apesar do resultado ruim, o filme foi o de maior bilheteria em quatro dos seis cinemas exibidos.

 

Vale lembrar que os principais mercados americanos permanecem com as salas fechadas. O longa, que fez US$ 22 milhões de bilheteria no resto do mundo, será lançado em streaming nos EUA em 10 de novembro. Em setembro, Rifkin’s Festival, esse realmente o novo longa de Allen, foi lançado no mês passado no Festival de Cinema de San Sebastian, na Espanha.

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