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CARESTIA: Alimentos pressionam alta da inflação e preocupa consumidores

“O aumento do dólar encarece as commodities e aumenta as exportações brasileiras"

CORREIO BRAZILIENSE

07 de Novembro de 2020 às 09:19

Foto: Divulgação

 

CORREIO BRAZILIENSE - A técnica em enfermagem Kananda Damacena, de 21 anos, se viu forçada a fazer escolhas nas últimas idas ao mercado. Ela reclama que os preços subiram demais e que já não dá para comprar tudo que comprava antes. E não é a única a sentir no bolso o preço da carestia. É que a inflação segue em alta, influenciada pelo aumento dos alimentos, e parece que não vai dar trégua até, pelo menos, o fim do ano.

 
 
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação oficial brasileira acelerou de 0,64%, em setembro, para 0,86% em outubro. A taxa é a mais alta para o mês nos últimos 18 anos, e foi ainda maior para a população mais pobre, que é mais afetada pelo preço da cesta básica: 0,89%. Por isso, puxou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 3,92% no acumulado nos últimos 12 meses, deixando o indicador bem perto da meta de inflação, que é de 4% em 2020. O Banco Central (BC), diz que está tranquilo, pois acredita que esse choque inflacionário é temporário.
 
Em outubro, o vilão do aumento de preços, mais uma vez, foi a alimentação. De acordo com o IBGE, a inflação desse grupo subiu 1,93% no mês, influenciada pela alta de 2,57% dos alimentos para consumo no domicílio. A elevação é fruto da disparada de preços de produtos essenciais para a mesa dos brasileiros, como arroz (13,36%), óleo de soja (17,44%), tomate (18,69%), batata-inglesa (17,01%) e carnes (4,25%), que vêm sendo pressionados já há algum tempo pela alta do dólar.
 
O aumento do dólar encarece as commodities e aumenta as exportações brasileiras, o que eleva o preço e reduz o abastecimento do mercado interno”, explicou o coordenador dos índices de preço da Fundação Getulio Vargas, André Braz. Ele diz ainda que, como o dólar continua acima dos R$ 5,30, esses preços não devem ceder nos próximos meses. A perspectiva é de que haja uma trégua só no início do próximo ano, quando começar a safra brasileira, mesmo depois de o governo ter zerado a tarifa de importação do arroz, da soja e do milho, já que essa medida vem mais para evitar que os preços continuem subindo do que para baixá-los.
 
Tudo indica, portanto, que a inflação dos alimentos vai chegar a dois dígitos neste ano, pois eles já ficaram 9,37% mais caros neste ano, segundo o IBGE. Kananda diz que vai continuar deixando algumas coisas no mercado. “Os preços estão nas alturas, tudo aumentou bastante. Eu gastava R$ 300 por mês com alimentação. Hoje, são R$ 500”, lamenta.
 
 
Para o IPCA como um todo, o mercado projeta um resultado entre 3% e 3,5% neste ano, já que os outros grupos de produtos desaceleraram na pandemia. Os analistas, contudo, estão cada vez mais preocupados com esse choque inflacionário. É que, além de estar se mostrando persistente, o aumento de preços está cada vez mais espalhado. O IPCA de outubro, por exemplo, revelou mais uma alta dos alimentos, mas também avanços expressivos nos preços de transportes (1,19%), artigos de residência (1,53%) e vestuário (1,11%), que subiram devido ao dólar e por conta da volta da demanda. Só as passagens aéreas dispararam 39,83% diante da retomada do movimento nos aeroportos.
 
Com isso, a difusão da inflação, que era de 55,44% no início do ano, chegou a 68,17%, maior leitura desde março de 2016, segundo os analistas. Por isso, o mercado já teme que esse choque inflacionário seja mais longo e mais difundido do que o projetado inicialmente. “Há um receio em relação à volta desse choque, pois quanto mais demora, menor é a volta. Ou seja, se demorar muito, a inflação não vai voltar toda, e vai ficar num patamar acima do anterior ao choque”, explicou o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez.
 
O diretor de Política Econômica do BC, Fábio Kanczuk, admitiu ontem que, se a projeção de inflação de 2021 subir para perto da meta, que é de 3,75% no próximo ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) pode abandonar o compromisso de manter a taxa básica de juros (Selic) na mínima histórica de 2% ao ano. E as revisões já começaram. A XP, por exemplo, elevou de 2,6% para 3,6% a sua projeção para o IPCA de 2021. Ainda assim, o mercado acredita que possíveis ajustes dos juros só virão em 2021.
 
Cesta sobe em 15 capitais
 
Os dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos (tomada especial devido à pandemia do novo coronavírus) indicam que, em outubro, os preços do conjunto de alimentos básicos, necessários para as refeições de uma pessoa adulta durante um mês, aumentaram em 15 das 17 capitais pesquisadas. Em Salvador (-1,05%) e Curitiba (-0,60%), o custo da cesta básica diminuiu. Em São Paulo, capital onde a coleta foi presencial, custou R$ 595,87, com alta de 5,77% na comparação com setembro. No ano, o preço do conjunto de alimentos subiu 17,64% e, em 12 meses, 25,82%.
 
Com base na cesta mais cara que, em outubro, foi a de São Paulo, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) estima que o salário-mínimo necessário para as despesas deveria ser equivalente a R$ 5.005,91, o que corresponde a 4,79 vezes o mínimo vigente, de R$ 1.045. O cálculo é feito levando em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças.
 
O tempo médio necessário para adquirir os produtos da cesta, em outubro, foi de 108 horas e 02 minutos, maior do que em setembro, quando ficou em 104 horas e 14 minutos. Quando se compara o custo da cesta com o salário-mínimo líquido, ou seja, após o desconto referente à Previdência Social (alterado para 7,5% a partir de março de 2020, com a Reforma da Previdência), verifica-se que o trabalhador remunerado pelo piso nacional comprometeu, em outubro, na média, 53,09% do salário líquido para comprar os alimentos. Em setembro, o percentual foi de 51,22%.
 
Principais variações
 
O valor do óleo de soja apresentou aumento nas 17 capitais, com destaque para Brasília (47,82%), João Pessoa (21,45%), Campo Grande (20,75%) e Porto Alegre (20,22%). O alto volume de exportação, a baixa oferta interna devido à entressafra e a elevação do preço do grão no mercado internacional explicam o contínuo aumento nas prateleiras dos mercados, informa o Dieese.
 
O preço médio do arroz agulhinha registrou alta em todas as capitais, com variações entre 0,39%, em Aracaju, e 37,05%, em Brasília. O aumento do preço do grão se deve à maior demanda por parte das indústrias dos estados do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e São Paulo, ao aumento das cotações no mercado internacional e às exportações do grão. Mesmo que haja maior oferta, propiciada pelas importações, o câmbio desvalorizado deve manter elevado o valor do arroz comercializado.
 
Em 16 capitais, o preço médio da carne bovina de primeira registrou alta: variou de 0,50%, em Curitiba, a 11,50%, em Brasília. A queda foi registrada em Florianópolis (-10,84%). A baixa disponibilidade de animais para abate no campo e a demanda externa elevada resultaram em aumentos de preço.
 
A inflação veio acima do esperado, mas ainda não deve afetar a condução da política monetária e a taxa básica de juros (Selic). Isso porque o Banco Central (BC) acredita que esse choque inflacionário é temporário. Para a autoridade monetária, o aspecto fiscal é o maior fator de risco para a inflação e os juros. O recado foi dado ontem pelo diretor de Política Econômica do BC, Fábio Kanczuk.
 
Kanczuk falou acerca da percepção da autoridade monetária durante o evento Itaú Macrovision 2020. “O choque é grande, mas tudo indica que é temporário. Estamos de olho. É nosso trabalho ver em que sentido isso se manifesta no resto dos preços. Mas, por enquanto, tudo tranquilo”, disse.
 
O diretor admitiu que a alta dos alimentos era esperada pelo Banco Central porque a valorização do dólar tem pressionado o preço das commodities. Mas o aumento inflacionário veio acima do esperado. Kanczuk afirmou que a dispersão cada vez maior da inflação, percebida pela alta de outros produtos, como os eletrodomésticos, também acende um alerta. Porém, avaliou que essa capilaridade parece estar relacionada aos efeitos da pandemia da Covid-19.
 
Ele alegou que, além de pressionar o dólar, a pandemia reduziu a oferta e aumentou a demanda por esses produtos, sobretudo entre a classe mais baixa, que está recebendo o auxílio emergencial. Por isso, avaliou que essa pressão de preços deve ceder nos próximos meses, quando o auxílio chegar ao fim. “Vemos como algo temporário, algo ligado ao estímulo emergencial. Com a retração dos auxílios, a coisa volta à situação normal. É o que esperamos que vai acontecer no horizonte relevante”, afirmou Kanczuk.
 
O diretor admitiu que o brasileiro ainda deve conviver com inflação alta nos próximos meses. Mas ponderou que ela segue abaixo da meta no horizonte relevante para o BC. No atual cenário, a autoridade monetária já não considera mais a inflação de 2020, mas a de 2021, já que medidas corretivas levam um tempo para surtir efeito na economia real. “Nesse horizonte, não se constitui um problema”, afirmou.
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