Suas refinarias, que chegaram a operar quase à metade da capacidade na primeira quinzena de abril, estão retomando as operações para produzir mais combustível. No dia 26, segundo o Ministério de Minas e Energia, estavam em pouco mais de 60%. A mudança de rumos deslanchou um esforço para evitar estrangulamento da capacidade de armazenamento de outros derivados. Uma das estratégias é a busca por tanques de outras empresas para colocar produtos que saem das refinarias com o combustível marítimo.
Em outra frente, a empresa acelerou a realização de leilões de gasolina e diesel com descontos para atrair distribuidoras que ainda tenham tanques disponíveis e queiram aproveitar para guardar produto mais barato. Apenas na semana retrasada, foram realizadas duas ofertas. Não há dados públicos sobre o uso da capacidade de armazenagem de combustíveis no país, mas o setor vê gargalos diante da queda da demanda, percepção reforçada pela estratégia que a estatal vem colocando em prática.
Para especialistas, a situação pode piorar caso o governo aprove a elevação de tributos sobre a gasolina para melhorar a competitividade do etanol. Por algumas ocasiões neste mês, a Petrobras já alertou para os impactos da medida, que é defendida pelos usineiros, sobre suas operações. Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), refinarias, terminais e distribuidoras no país podem guardar até 137 milhões de barris de combustível, o equivalente a 77 dias de produção de derivados em 2019.
Em nota à reportagem, a Petrobras confirma que consultou clientes sobre a disponibilidade de tanques para estocar temporariamente seus produtos. Já a infraestrutura para armazenar petróleo tem "folga razoável", diz a companhia. A falta de espaço para guardar o óleo nos EUA levou a cotação do petróleo tipo WTI (West Texas Intermediate), referência no mercado americano, a operar, em 20 de abril, em terreno negativo pela primeira vez na história.
A crise colocou no noticiário internacional a pequena Cushing, cidade de 7.800 habitantes em Oklahoma, um dos principais centros de armazenagem de petróleo nos EUA. Na sexta-feira anterior ao colapso do WTI, 76% da capacidade de armazenagem em Cushing estava ocupada. Na sexta seguinte, já eram 81%. Com medo de não ter onde guardar petróleo, investidores preferiram pagar para não receber os barris.
O problema é mais acentuado nos EUA, mas há gargalos em outros países. O setor vem recorrendo a navios como alternativa de tancagem, o que fez as ações de empresas de transporte marítimo de petróleo dispararem.
No Brasil, boa parte da produção é guardada nos tanques das próprias plataformas –devido à dificuldade para construir dutos ligando os poços em alto-mar ao litoral, a Petrobras é a petroleira que mais usa os chamados navios-plataforma.
Segundo a ANP, os navios-plataforma em operação em águas brasileiras podem guardar 87 milhões de barris de petróleo. Em terminais e tanques de refinaria, há espaço para outros 76 milhões de barris. Essa infraestrutura garantiria 57 dias da produção média de 2019."Mesmo com a redução da demanda por derivados de petróleo, a capacidade de armazenamento de petróleo continua bastante robusta no país."
"Armazenagem não é um problema para o Brasil. A Petrobras pode cortar produção se não tiver mais como armazenar. E, por mais que você armazene e venda depois, o alto nível do estoque leva o preço a cair, o que não é vantajoso para a Petrobras", afirma Luiz Carvalho, analista do banco suíço UBS. Além disso, por ser altamente inflamável, o custo de armazenamento e transporte do petróleo é alto.
"O petróleo pode conter gases que, em contato com o oxigênio, podem explodir. É necessário um sistema de ventilação adequado ou tanques sem oxigênio. Se tivesse espaço e o custo de estocagem não fosse tão alto, valeria a pena comprar", afirma Ricardo Cabral de Azevedo, professor do curso de engenharia do petróleo da USP.
POSTOS MANDAM CARTA A BOLSONARO CONTRA AUMENTO EM TRIBUTO
Entidades que representam donos de postos de gasolina enviaram carta ao presidente Jair Bolsonaro se posicionando contra a proposta de aumento de impostos sobre a gasolina, que vem sendo negociada pelos produtores de etanol. Na sexta (1º), o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que integra a Frente Parlamentar da Agropecuária, afirmou que o governo já tomou a decisão de elevar em R$ 0,20 por litro a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que hoje é de R$ 0,10, e instituir imposto de importação sobre a gasolina.
O Ministério da Economia afirmara que nenhuma decisão havia sido tomada. "Esse aumento viria em um momento completamente inoportuno para a revenda de combustíveis, que também está em crise, com queda vertiginosa nas vendas", dizem os donos de postos na carta, que é assinada pela Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes) e por 34 sindicatos.
Os donos de postos sugerem que, em vez de ampliar o imposto sobre a gasolina, o governo zere a alíquota de PIS/Cofins sobre o etanol, que também é um dos pleitos dos usineiros. Os produtores de etanol pedem ainda crédito para financiar os estoques que estão empacados por falta de demanda.