No Iata é assim... - Por Simon Oliveira

Quem conhece o distrito do Iata? Quem não o conhece, recomendo que se apresse e vá até lá, de preferência ao entardecer dos finais de semana e se puder, vá pedalando, assim como costumeiramente faço há vários anos. O local é propício para não sentir-se a passagem do tempo, as coisas lá demoram e quando acontecem é de uma lentidão contemplativa.
 
 
Neste final de semana estive lá. Fui beber um pouco daquela calmaria relaxante como água de cachoeira. Tenho a impressão que o semblante, os gestos e as falas das pessoas têm uma serenidade que não existe nos demais lugares da região. A sensação que as casas, algumas quase centenárias, as mangueiras e a altaneira igreja de Nossa Senhora das Graças estão envoltos em uma aura mística, o que nos faz querer ficar por lá indefinidamente.
 
 
Observe entre o povoado e o rio Mamoré, as ruínas da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, impregnadas de sonhos e indelevelmente alheias à passagem do tempo. O rio, com suas águas claras de outubro, desliza suavemente ao encontro das águas turbulentas do Beni, em Vila Murtinho. Em sua passagem pelo IATA, o Mamoré beija demoradamente o aterro da histórica ferrovia e acena furtivamente para os moradores, sentados na singela praça da igreja.
 
 
Pedalar pelas linhas da Colônia Agrícola do IATA (1ª e 2ª Linhas) é sentir nas pernas o prolongamento dessa calmaria inebriante que envolve os moradores, árvores, casas e objetos que compõem o cenário perfeito do mosteiro chamado IATA. Pelo caminho, contempla-se as ainda resistentes e outrora produtivas casas de farinha e as ruínas de antigos casarões habitados por lembranças e afetos.
 
 
No IATA é assim. Lá o tempo ganha outra dimensão. Os frutos, diferentemente dos demais lugares, não caem, apodrecem, secam nos galhos e dissipam-se no ar. Lá as pessoas e as coisas não envelhecem e nem morrem, transmutam-se, passam do estado sólido para mais sólido ainda. É possível ver velhos, sábios alquimistas caminhando pelas vias do lugar, ostentando a grandeza das pessoas simples de coração.
 
 
Conclamo aos moradores de Guajará-Mirim, Nova Mamoré e visitantes para sentirem um pouco do efeito rejuvenescedor que uma simples visita ao povoado do IATA nos provoca. 
 
 
Vá lá e beba água de coco! Sente-se demoradamente no gramado em frente à Igreja Nossa Senhora das Graças. Feche os olhos e fique ouvindo a Maria Fumaça passar. Converse um pouco com as pessoas e tente captar nas entrelinhas o que as torna imunes à passagem do tempo.
 
 
É preciso voltar e enaltecer, sem ser piegas, às nossas origens. O IATS é a matriz fundadora da história dos guajaramirenses e novamamorenses, “os amazônidas, filhos da ferrovia”, que cresceram ouvindo com encanto o som forte e imponente do apito da locomotiva e que ecoa até hoje, vivo, em nossos corações. 
 
 
Lá no IATA o “choro” do apito ainda provoca arrepios e espalha saudades na eterna lentidão das horas. 
 
 
Lá no IATA é assim..
 
 
Autor: Simon O. dos Santos – Esta crônica compõe o livro “ Causos e Crônicas do Berço do Madeira”, publicado em 2022.
 
 
 
 
Simon Oliveira dos Santos é natural de Nova Mamoré, Rondônia. Nasceu em 27 de abril de 1970. Formado em Pedagogia pela Universidade Federal de Rondônia ( UNIR), especializou-se em Metodologia do Ensino Superior e é mestre em Ciências da Linguagem.
 
 
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