Foto: Divulgação
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Em meu sonho frequente nada falo, e o andarilho só me olha e prossegue... Eu vislumbro o alcance das minhas passadas nos asfaltos e lamas que me separam dos destinos, um de cada vez, sendo o próximo como se fosse o único. Ou então, sentindo fome diante do nada, bastaria querer e estar em novo lugar, outras passadas. Com a nova fome, novo traço.
Que nos caminhos inexistem maiores perturbações. Senão a lama, que fustiga, castra a formulação de pontos de vista, nubla as perspectivas e me empurra à estrada para seguir só, caminhando.
Mas, a lama? O feito ou o porvir? O fétido desencanto a cerrar-me as portas, ou a passagem vestibular... A entrada? Ou ainda e apenas o que aí está?
Enlameados estão os homens, a um tempo apreensivos e estóicos, sempre e sempre evitando o espelho; e contra ele não poderem fazer nada.
Pois que ao dia noite sucede, e à noite, dia. Não virá o herói,
nem o trovão a arrebatar os homens. O mal não virá da Mongólia, nem trajará a suástica. Pas de nouveau.

Ou talvez remoce a história? Quiçá se anacronize o tempo, se anarquizem os alfarrábios, renasçam as barbas dos antigos mestres, se restabeleçam as oportunidades, se enforquem os niilistas e aos jacobinos se lhes afaste a guilhotina; se descolonizem os quintais, se refaçam os códigos no retrocesso conducente à era dos instintos, se reiniciem dos primitivos grunhidos as línguas dos povos, se recomece de onde por primeiro se fez o erro... E se resgatem por fim os valores mais nobres, a aspirada e utópica humanidade, como manifestação coletiva de convívio pacífico e harmonioso, com fins à evolução, ao invés de mera condição de respirar sobre a Terra.
O Milagre não virá, continua o peregrino, levando à boca o meio copo de água. Será da noite a noite e do dia será o dia.
O que buscar? Do que fugir? Do que sentir náusea e por quem chorar? Por que chorar? Tem-se o homem menino, com ares de amputado e à espera, pela eterna fé, de uma terceira perna, comprometido o equilíbrio. O homem que exala enfermidade, incapaz de aspirar a opulenta saúde ao seu redor, como que inapto ao convívio entre seus iguais. Sentimo-nos oprimidos pela premente necessidade de oprimir; o vício primitivo do jugo e da supremacia diante do outro nos traz a fobia ao abraço e ao aperto de mão, assim presas fáceis para nosso verdugo natural, o tempo.
O que fazer então, sendo de piedade a visão do enfermo, do menino aleijado e de alívio a do condenado? De quem sentir náusea diante da final inocência no condenado e assassínio no menino, sendo o enfermo que àquele exigira a condenação: do condenado, do menino, do carrasco ou do condenador?
Por qual caminho trilhar, se o norte há muito se insulou do alcance daqueles que o buscam, das verdades dos que o conceituam, anuviado em meio aos medos e efervescências humanas, entre músicas, consumos, guerras e televisão; entre credos, projetos, tristezas, dinheiros e pessoas; sempre e sempre pessoas, que todas as horas apontam para diferentes sentidos, chamando-os de... norte?
Exterminem bichos, árvores, homens e crenças, águas e ventos; entretanto não se condena o tempo. Aos dias dias sucedem. E noites. E estradas.
Caminho, pois.
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