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COVID-19: Com baixa de voos superior a 90%, aéreas preveem reação demorada

'Queima de caixa' foi brutal para as empresas depois do coronavírus e a expectativa é de que os voos no Brasil e ao exterior comecem a retomar a partir de junho

EM.COM.BR

28 de Maio de 2020 às 10:40

Foto: Divulgação

 

EM.COM.BR - Com quedas operacionais que superam os 90%, baixa receita e custos mantidos, o setor de aviação espera uma retomada lenta da crise provocada pela pandemia de coronavírus. O pedido de recuperação judicial apresentado pelo grupo Latam Airlines nos Estados Unidos, embora, segundo a companhia, sem efeitos no Brasil, acendeu alerta no setor e no governo brasileiro, que negociou a oferta de suporte financeiro à indústria da aviação.

Representantes do segmento apontam que a recuperação vai depender das outras áreas da economia e de apoio da União. Sem previsão para o fim das medidas de isolamento social, muitos aviões estão parados, enquanto as empresas operam poucas linhas domésticas e internacionais, e reforçam cada vez mais as medidas sanitárias nos voos.
 
A demanda doméstica por viagens caiu 93,1% em abril, na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Em março, o mesmo índice havia registrado queda de 32,9%. Ainda de acordo com a Anac, 399.558 passageiros voaram no mês passado, o que representa queda de 94,6% na comparação com abril de 2019. Para os destinos internacionais, em abril a procura caiu 96,1% em comparação com o mesmo mês do ano passado.
 
Desde 28 de março, as companhias aéreas operam número restrito de destinos, a chamada malha essencial. Com o objetivo de manter o país conectado durante a pandemia, a malha inclui 46 destinos: as 26 capitais, o Distrito Federal e mais 19 cidades. A média de voos é de 177 por dia, segundo a Anac. O planejamento do setor aéreo no começo de março previa 2.563 voos diários entre 146 aeroportos, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). A associação representa as empresas Gol, Latam e Voepass.
 
O presidente da Abear, Eduardo Sanovicz, classifica a crise provocada pelo coronavírus como “um cenário como nós nunca vimos na história”. Sanovicz analisa que as três maiores companhias aéreas brasileiras – Gol, Latam e Azul – começaram na crise um pouco mais fortalecidas do que empresas de outros setores, por causa da falência da concorrente Avianca. “Mas a queima de caixa é brutal”, afirma.
 
Sanovicz espera uma recuperação “lenta e leve” do setor. Sanovicz acredita que o número de passageiros não será o mesmo de antes da pandemia quando o vírus começar a ser controlado. Na avaliação do dirigente, a recuperação da aviação depende da recuperação de outras áreas da economia. “A gente não cria demanda, mas atende. Para as viagens de lazer, se as pessoas não tiverem dinheiro não vão viajar. As viagens de negócios dependem da retomada de eventos, congressos, feiras. E não há cenário de retorno desse setor no curto prazo”, argumenta.
 
O presidente da Abear afirma que a retomada do setor aéreo também vai depender das políticas do governo federal para a recuperação econômica. As empresas aéreas negociaram com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um pacote de ajuda em forma de empréstimos, no total de R$ 6 bilhões – R$ 2 bilhões para cada uma das três maiores companhias.
 
O BNDES vai oferecer parte do pacote, e o restante será fornecido por bancos privados. Segundo o jornal O Globo, 75% da quantia será em forma de títulos de dívida, e 25% poderá ser convertido em ações. “Vamos atravessar essa crise. Mas como vamos atravessar, vai depender das políticas, especialmente da linha de crédito do BNDES”, analisa Eduardo Sanovicz.
 
Operação 'salvamento'
 
Uma das medidas do governo federal voltada para o setor foi a Medida Provisória 925. De acordo com o texto, as empresas aéreas têm até 12 meses para reembolsar os clientes que cancelaram viagens compradas até 31 de dezembro de 2020 por causa da pandemia de coronavírus. Os valores serão repostos com crédito, que pode ser utilizado em até 12 meses a partir da compra inicial. A MP também estabelece que os consumidores não sofram penalidades previstas em contrato.
 
Porém, o governo não pensa em parar por aí. Na última semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou em uma reunião com empresários que o governo pode se tornar acionista das companhias aéreas para salvar o setor. “Vamos botar um dinheiro lá, vamos comprar um pedaço da empresa. E lá na frente, quando a empresa estiver recuperada, vamos ver que ganhamos dinheiro para preservar as companhias aéreas”, disse o ministro.
 
O diretor de Alianças e Relações Institucionais da Azul, Marcelo Bento, afirma que a receita da companhia “secou da noite pro dia” com a queda de demanda. Além disso, o executivo aponta que na aviação diminuir custos rapidamente é difícil, por causa da especialização da mão de obra. Segundo Bento, essa situação comprometeu as contas da Azul, o que faz necessário conseguir capital de giro e medidas “que estimulem as viagens numa retomada em médio prazo”.
 
De acordo com o diretor da Azul, a empresa está aos poucos ampliando a malha de voos, mas a velocidade da retomada depende das decisões dos governos sobre o isolamento social. “Nós sabemos que o mundo não será o mesmo depois da pandemia. A companhia acredita numa recuperação e sabe que ela será gradual. As pessoas precisam se deslocar, se conectar, fechar negócios, visitar parentes, viajar para descansar”, afirma Marcelo Bento. Uma das apostas da Azul para a retomada é estimular compras futuras, vendendo pacotes que não têm datas definidas no momento da compra.
 
Em nota, a Latam informa que reduziu em 95% as operações que estavam programadas para abril e maio. A companhia afirma que mantém operações domésticas reduzidas no Brasil e no Chile. E apenas duas rotas internacionais partindo do Brasil: São Paulo-Miami e São Paulo-Frankfurt. No comunicado, a Latam afirma que é cedo para fazer previsões sobre a retomada do setor aéreo depois do coronavírus. “Neste momento, o Grupo Latam avalia de forma contínua a sua operação e os efeitos das restrições de viagem nos diferentes países e na queda da demanda de passageiros provocadas pela pandemia”, escreve a empresa.
 
Sinais
 
 
A falta de voos obrigou as companhias aéreas a deixar os aviões no solo. No Aeroporto Internacional de Confins, 45 aviões estão estacionados no pátio, que foi reorganizado para ter capacidade para 70 aeronaves. Segundo a BH Airport, concessionária que administra o aeroporto, a queda nos voos supera os 90%. A previsão era que 1 milhão de passageiros passassem pelo terminal em abril, com 350 voos diários.
 
Porém, o mês registrou 35 mil passageiros, com uma média de 30 voos por dia. O aeroporto criou um grupo de trabalho, que envolve a diretoria, gestores e colaboradores do terminal, para discutir projetos sobre a volta à atividade. Até o final de maio, um plano para a retomada deve ser definido.
 
O gestor de comunicação e marketing do Aeroporto de Confins, Nicolau Maranini, afirma que as empresas aéreas sinalizam que em junho o número de voos domésticos deve começar a subir e os internacionais devem voltar. “Fomos informados que existe a possibilidade de dois voos por semana para a Europa, a partir da segunda quinzena de julho. Mas para os EUA e Argentina não há previsão. Agora, para voltar ao nível anterior à pandemia, só em maio do ano que vem”, diz Maranini.
 
Ele acredita que o comércio do aeroporto tem condições de se recuperar rapidamente com a volta dos voos, pela facilidade de contratação de mão de obra. Porém, há dúvida sobre a capacidade dos lojistas conseguirem passar pela crise para reabrir. A BH Airport calcula que 99% das 139 lojas do terminal estão fechadas.
 
As maiores empresas aéreas brasileiras anunciaram que estão aplicando medidas sanitárias e de gestão para enfrentar a pandemia. Entre elas, a obrigação do uso de máscaras nos voos, reforço na higienização das aeronaves e instalações, suspensão ou adaptação do serviço de bordo e distanciamento no embarque e desembarque. As companhias também estão transportando profissionais da saúde gratuitamente e transferiram os funcionários dos setores administrativos para trabalho remoto. Segundo o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz, essas e novas medidas devem ser reforçadas e ampliadas nas próximas semanas.
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