Poucos lugares sintetizam com tanta força a origem de Porto Velho quanto o Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Para além do conjunto de estruturas históricas, o espaço carrega marcas profundas de um ciclo econômico, de fluxos migratórios e de histórias de vida que ajudaram a moldar a identidade da região Norte do país. Neste 30 de abril, Dia do Ferroviário, essas memórias ganham voz por meio de quem viveu, na prática, a rotina dos trilhos.
Lord Jesus Brown é um desses personagens. Filho de ferroviário, ele construiu sua trajetória dentro da ferrovia e se tornou, ao longo das décadas, uma espécie de guardião informal de sua história. Sua relação com o local atravessa gerações e se mistura com a própria formação social da cidade. "Meu pai chegou aqui para trabalhar na construção da ferrovia. A nossa história está toda ligada a esse lugar. Eu tenho muito orgulho disso e sempre lutei para que essa memória não se perdesse", afirma.
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída entre 1907 e 1912, foi um empreendimento marcado por desafios extremos e pela presença de trabalhadores de diversas nacionalidades. A obra, considerada estratégica à época, consolidou rotas comerciais, impulsionou o ciclo da borracha e contribuiu diretamente para o surgimento de Porto Velho e de outras localidades ao longo dos rios Madeira e Mamoré.
A vida nos trilhos
Décadas depois, já em funcionamento regular, a ferrovia seguia como eixo logístico e econômico da região. Brown relembra uma rotina intensa, marcada por disciplina e esforço físico. "A gente acordava de madrugada para preparar a locomotiva. Era preciso deixar tudo pronto cedo, organizar os vagões e seguir viagem. O trajeto até Guajará-Mirim era longo, com muitas paradas. Levávamos borracha, castanha, gado e outras mercadorias. Era um trabalho pesado, mas era o que movimentava tudo aqui", relata.
As viagens podiam durar mais de um dia, atravessando comunidades, áreas de mata e pontos de apoio ao longo do percurso. Mais do que transportar cargas, a ferrovia conectava pessoas, histórias e culturas em um fluxo contínuo pela região.
Abandono e resistência
Com o encerramento das atividades ferroviárias, em 1992, o complexo entrou em um período de abandono. Estruturas foram deterioradas pela ação do tempo e pela falta de manutenção. "Isso aqui ficou jogado. Não tinha iluminação, não tinha cuidado. Eu vi esse lugar se acabar aos poucos. Achei que essa história ia morrer", relembra.
Mesmo diante desse cenário, Brown permaneceu ligado ao espaço, movido por um sentimento de pertencimento. "Minha vida sempre foi aqui. Eu não podia simplesmente deixar isso para trás", diz.
Nos últimos anos, o processo de revitalização trouxe um novo momento para o Complexo Madeira-Mamoré, que passou a receber eventos, atividades culturais e visitantes.
Brown destaca a importância da gestão atual e faz um reconhecimento direto ao trabalho realizado. "Eu quero agradecer o grupo Amazon Fort que pegou isso aqui. Hoje tá um brinco. Não é fácil manter um lugar desse tamanho, mas o pessoal vem fazendo esse trabalho e isso faz toda a diferença", afirma.
A permanência dessa história, no entanto, não depende apenas dos trilhos preservados ou das estruturas restauradas. Ela se sustenta, sobretudo, no reconhecimento coletivo de seu valor. É quando a população se apropria desse passado, visita, respeita, compartilha e se reconhece nele, que o legado da Madeira-Mamoré e dos ferroviários deixa de ser apenas memória e passa a ser identidade viva.
Ao refletir sobre o Dia do Ferroviário, Brown reforça a importância da preservação como responsabilidade coletiva. "Porto Velho começou aqui. Isso é patrimônio histórico. As pessoas precisam vir, conhecer e valorizar. Essa história não pode parar", conclui.