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RIO GUAPORÉ: Eclosão de tartarugas ocorre em dezembro; fiscalização atua na região

O fenômeno de reprodução do maior quelônio de água doce da América do Sul é considerado um dos maiores do mundo e acontecerá nas praias Alta, Ilha e Suja

ASSESSORIA

08 de Outubro de 2020 às 14:36

Foto: Divulgação | Tartarugas põem ovos em ninhos na Praia Alta, no rio Guaporé; filhotes nascerão em dezembro próximo

Dentro dos próximos 60 dias nascerão milhões de filhotes de tartarugas (Podocnemis expansa) nas margens do rio Guaporé, na fronteira brasileira com a Bolívia, em Rondônia. O fenômeno de reprodução do maior quelônio de água doce da América do Sul é considerado um dos maiores do mundo e acontecerá nas praias Alta, Ilha e Suja.
 
Ao amanhecer de quarta-feira (7), em Praia Alta, Costa Marques, o secretário estadual do Desenvolvimento Ambiental (Sedam), Marcílio Leite Lopes, e a chefe do escritório regional da Sedam, Jéssica Torezani, ouviram monitores da Associação Comunitária Quilombola e Ecológica do Vale do Guaporé (Ecovale), que zelam pela reprodução. Eles relataram a ação de traficantes na região.
 
O rio Guaporé tem mais de 50 quilômetros de praia. Lopes previu a ampliação da Área de Preservação Permanente (APP) para Área de Preservação Integral, o que possibilitaria a inclusão das praias dentro da extensão do Parque Estadual Serra dos Reis, que tem o apoio do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa)*.
 
A vegetação fechada da Área de Preservação Permanente (APP) ao longo das praias expõe um cenário exuberante, quase intocável. No entanto, a reprodução das tartarugas continua ameaçada pela ação de predadores animais e do ser humano.
 
“Pretendemos conservar mais, melhorando a fiscalização nas estações de desova e eclosão, e diminuindo a vulnerabilidade do quelônio”, anuncia o secretário da Sedam. Marcílio Lopes prevê para breve o desenvolvimento de estudos técnicos de fauna e o monitoramento de ecossistemas.
 
A desova acontece de madrugada entre os meses de setembro e outubro, geralmente no mesmo lugar onde elas nasceram, explica a chefe do escritório regional da Sedam em Costa Marques, engenheira ambiental Jéssica. Tracajás (Podocnemis unifilis) também reproduziram nesse período. De madrugada, a areia está menos quente, facilitando o fenômeno regido biologicamente pela temperatura.
 
Uma tartaruga adulta pode alcançar um metro de comprimento, pesando até 90 quilos. A cerca de 700 quilômetros de Porto Velho, a reserva é também monitorada pelo Ibama.
 
Mesmo com a barriga carregada de ovos, a tartaruga é alvo de traficantes de animais. Como testemunha a engenheira ambiental, aconteceram alguns furtos. “Levaram as coitadas com ovos e tudo”, lamenta Jéssica.
 
Alvo tão fácil quanta a tartaruga, o tracajá também se alimenta do plâncton fluvial, porém, põe menos ovos – de 15 a 30 ovos a cada reprodução. Da mesma forma que a tartaruga, a fêmea dessa espécie esburaca a margem do rio para camuflar o ninho com lama e folhas. A incubação leva de 90 a 220 dias. Os filhotes têm como característica manchas amarelas na região da cabeça.
 
O tracajá é uma espécie de cágado muito comum na Amazônia, vivendo entre 60 e 90 anos em habitat natural. A tartaruga pode alcançar cem anos. Quando adulto, chega a ter 45 cm de comprimento, com cerca de oito quilos de peso. Alvo fácil, o tracajá geralmente é caçado durante a desova, quando está em terra firme, época em que seus movimentos são mais lentos.
 
“Desde o século XIX, a fauna de quelônios diminui na região, e na década passada as tartarugas quase foram extintas”, informa Jéssica.
 
Secretário Marcílio Lopes conversa com monitores da Ecovale, que diariamente percorrem as praias da região
 
Cada tartaruga põe aproximadamente cem ovos, porém, apenas 10% dos ovos sobrevivem ao ataque de gaivotas, urubus, jacarés, peixes, além de outros pássaros e aves.
 
É um verdadeiro sacrifício essa procriação. A fêmea demora 25 anos para desovar. Na eclosão, os filhotes que sobrevivem aos predadores caminham sozinhos até as águas do rio.
 
Os filhotes habitarão também os afluentes do rio Guaporé numa extensão de 1.400 quilômetros. As comunidades Santo Antônio e Santa Fé são praticamente o paraíso da rica biodiversidade que inclui os quelônios.
 
Em 2020, choveu pouco no atual período, e as fêmeas colocaram seus ovos em buracos de quase um metro escavados pelas próprias patas na areia leve das praias do Guaporé.
 
Segundo Jéssica, de sábado para domingo (4) 1,5 mil tartarugas desovaram na região protegida pela Ecovale. Na manhã desta quarta-feira, cerca de 40 animais camuflavam os ovos na Praia Alta. “A Ecovale acompanha muito bem o ciclo reprodutivo”, assinala a engenheira ambiental.
 
Animais amparados por leis continuam sendo capturados para virar carne. O desafio de enfrentar traficantes de animais caçados na região fronteiriça Brasil-Bolívia revela a realidade que a Sedam pretende mudar em parceria com o Parque Estadual Serra dos Reis. A Sedam deve pedir o apoio do Batalhão de Polícia Ambiental da PM.
 
Versalles, comunidade boliviana, também é parceira na preservação
 
AÇÕES CLANDESTINAS
 
“Caçadores entram clandestinamente na praia, retiram a tartaruga e a deixam de ponta cabeça escondida no mato para depois levá-la embora, às vezes, depois de dois a três dias, exausta, o que configura um horrível flagelo animal que deve ser punido”, diz Jéssica.
 
Duas semanas atrás, 13 fêmeas foram apreendidas por um efetivo da PM em mãos de caçadores do município de Costa Marques. Eles foram multados em R$ 500 cada um e indiciados em inquérito criminal. O tráfico animal na região fronteiriça é feito desde o século passado, atendendo ao paladar de diversas classes sociais. Pescadores que usam redes também ameaçam a fauna.
 
Para este ano, estima-se pelo menos 40 mil desovas, informa o presidente da Ecovale, Zeca Lula. Ao contrário do ano passado, as águas do rio este ano baixaram, formando-se bancos de areia. É comum pilotos e passageiros descerem das lanchas para regular o motor e puxarem as embarcações por cordas.
 
No mês passado, Zeca Lula lembrou que em 2019 foram soltos quatro milhões de quelônios. O número de soltura no ano passado só não foi maior porque o rio subiu muito rápido e não deu tempo de retirar em torno de dois milhões de filhotes, que morreram dentro das covas, lembrou.
Direito ao esquecimento

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