Em 1961, o cineasta Robert Aldrich, ambicionando ser respeitado e reconhecido como um diretor talentoso e capaz de realizar um filme fora dos gêneros habituais como o divertido "Os doze condenados" e resolveu reunir duas das maiores atrizes de Hollywood. Bette Davis e Joan Crawford.
O filme "O terá acontecido a Baby Jane", um misto de drama e terror psicológico protagonizado pelas duas divas, que à época estavam com as respectivas carreiras distantes dos tempos áureos em que atuavam sob a égide dos grandes estúdios hollywoodianos. Só podia dar em brigas de egos, confusão e dores de cabeça para o cineasta e a equipe de filmagem.
As irmãs Blanche (Crawford) e "Baby Jane" Hudson (Davis) são antigas estrelas do cinema que vivem juntas numa mansão decadente da família, onde Blanche, que anos antes sofreu um estranho acidente de carro, passa a viver presa a uma cadeira de rodas e fica cada vez mais à mercê da irmã, que na consegue mais discernir passado do presente.
É possível traçar um paralelo entre as personagens Jane Hudson e Normand Desmond, vivida por Glória Swanson no clássico "Crepúsculo dos Deuses", de Billy Wilder. Ambas viveram dias de fama e glória, mas o tempo passou, ainda achando que podem recuperar o reconhecimento do passado, enlouquecem e chegam até a matar quando são contrariadas em seus planos delirantes de retorno à ribalta.
Os bastidores do longa e a rivalidade entre Bette e Joan inspirou o roteirista, produtor e diretor Ryan Murphy a realizar a excelente minissérie "Feud Bette e Joan", estrelada por duas estrelas não menos talentosas que as duas divas. Jéssica Lange e Susan Sarandon, respectivamente Joan Crawford e Bette Davis, ambas brilham nas extraordinárias performances. As atrizes não apenas estudaram os trejeitos, mas mergulharam na amargura e vulnerabilidade de Davis e Crawford, explorando o sexismo de Hollywood da época.
A minissérie Feud traz uma rica reconstituição de época e faz o espectador mergulhar nos bastidores dos maiores conflitos da história de Hollywood, focando intensamente na estética e na psicologia das personagens e nos detalhes de produção, sem esquecer a excelente direção e os diálogos afiados, venenosos e irônicos, principalmente entre Davis e Crawford.
A produção focou em detalhes minuciosos para recriar a Hollywood dos anos 60, incluindo a reconstrução dos sets do filme Baby Jane e cenários baseados nas casas reais das atrizes. Mas mostra também os dilemas e percalços de Aldrich ao longo da produção. Incluindo as humilhações perpetradas pelo poderoso chefão do estúdio Jack Warner interpretado com maestria habitual pelo ator Stanley Tucci e a língua e a escrita implacável da colunista de fofocas de Hollywood, Hedda Hooper vivida pela atriz Judy Davis.
Na minissérie, o diretor Robert Aldrich vivido por Alfred Molina, vive um verdadeiro inferno ao tentar, além de comandar as filmagens, controlar os gênios fortes e egos de suas duas estrelas. Sobraram estilhaços para todos os lados.
"O que terá acontecido a Baby Jane", chocou o público e os fãs. Claro que a reunião das duas feras chamou a atenção e o filme alcançou sucesso expressivo de bilheteria. Quanto à minissérie "Feud", quem teve a sorte de assistir, sem dúvida, também ficou impressionado, não apenas com a história, mas com as inesquecíveis atuações de Lange e Saradon. Impecáveis.
A série se baseou no livro "Bette and Joan: The Divine Feud" de Shaun Considine, explorando como a rivalidade foi alimentada pela rejeição da indústria a atrizes mais velhas.