ADOLESCÊNCIA: Minissérie da Netflix devastadora sobre pais, filhos e consequências - Por Marcos Souza

Produção tem sido amplamente discutida por veículos de imprensa e telespectadores

ADOLESCÊNCIA: Minissérie da Netflix devastadora sobre pais, filhos e consequências - Por Marcos Souza

Foto: Netflix

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A minissérie Adolescência (Adolescence/2025), disponível no catálogo da Netflix, explodiu nas últimas semanas entre os títulos mais assistidos no mundo, tornando-se um sucesso absoluto. A produção tem sido amplamente discutida por veículos de imprensa, portais, canais no YouTube, críticos, psicólogos, analistas e formadores de opinião, que analisam seu conteúdo e as questões abordadas, inclusive sob uma perspectiva semântica.
 
A trama gira em torno do drama de uma família de classe média que vive na periferia de uma pequena cidade inglesa. A história se desenrola a partir da prisão de um garoto de 13 anos, acusado de assassinar sua colega de escola, Katie, da mesma idade. Ao longo de quatro episódios, acompanhamos o desenrolar do crime e o mistério que a polícia precisa resolver: como um menino tão jovem teria coragem de cometer um ato tão brutal? Mesmo diante das evidências, ele nega a autoria.



 
Os quatro episódios, com pouco mais de 50 minutos cada, foram filmados em plano-sequência, ou seja, em um único take e sem cortes. Cada episódio corresponde a uma cena contínua que se desenrola a partir das ações dos personagens, um diferencial impactante que reforça a imersão na história.
 
A minissérie é uma criação do roteirista Jack Thorne e do ator Stephen Graham (que também assina o roteiro e interpreta o pai do garoto acusado). A direção fica a cargo de Philip Barantini.
 
Vale destacar o jovem ator Owen Cooper, que interpreta Jamie Miller – o personagem central, o garoto acusado. Ele possui uma história de bastidores incrível na realização da minissérie. Stephen Graham e Christine Tremarco dão vida aos pais do protagonista, Eddie e Manda Miller. Outra atuação de destaque é a de Ashley Walters, que interpreta o detetive Luke Bascombe, responsável pela investigação do caso. E, claro, há também a atriz Erin Doherty, que assume o papel da psicóloga Briony Ariston, encarregada de compreender as motivações que levaram Jamie a cometer o assassinato. No terceiro episódio, Doherty e Cooper protagonizam um embate intenso que representa um dos momentos mais marcantes da série, com atuações impressionantes.
 
Mas não se engane pelo primeiro episódio, que retrata a prisão de Jamie em sua casa, sua condução até a delegacia e os trâmites do interrogatório policial, com a presença da família e de um advogado, além da revelação dos detalhes do crime. Essa não é uma trama de true crime – ou seja, a minissérie não se preocupa em mostrar minuciosamente a investigação do caso, a formalização da acusação ou o julgamento.
 
Adolescência vai além, focando no desenvolvimento dos personagens em meio à ação. Isso fica evidente na relação do inspetor Luke com a investigação conduzida no segundo episódio. Dentro da escola onde Jamie estuda – que, coincidentemente, também é a mesma de seu próprio filho –, Luke interroga colegas de classe, conversa com professores e percebe a presença do bullying entre os adolescentes.
 
Nesse segundo episódio, somos imersos na dinâmica contínua entre os jovens e sua relação com a internet – principalmente pelo uso do celular – e como isso influencia os conflitos escolares, as interações entre colegas e, possivelmente, a principal motivação que levou Jamie a cometer o crime. Um dos pontos centrais abordados é a subcultura online dos incels (involuntary celibates – celibatários involuntários, em tradução literal).
 
Mas como isso afeta os jovens? Trata-se de um fenômeno que ganhou força nas redes sociais e tem impactado cada vez mais adolescentes, especialmente meninos. O termo incel se tornou um rótulo pejorativo para garotos que se sentem rejeitados pelas meninas de quem gostam, que são ignorados ou têm grande dificuldade em estabelecer vínculos e manter relacionamentos. Essa frustração, quando não processada adequadamente, pode moldar a personalidade desses jovens, levando-os a desenvolver desprezo por meninas e mulheres, manifestado em atitudes hostis e misóginas.
 
O ator e roteirista Stephen Graham revelou que a ideia da minissérie surgiu após a leitura de reportagens sobre o aumento da violência entre adolescentes, especialmente casos em que garotos agridem e até matam meninas em atos de puro machismo e misoginia. Muitos desses crimes, segundo os estudos, são cometidos por jovens influenciados por comunidades incels na internet, onde essa subcultura destrutiva é fomentada e amplificada.
 
 
No episódio ambientado na escola, o detetive responsável pelo caso se depara com o impacto dessa cultura nos estudantes. A descoberta ocorre por meio de seu próprio filho, que o alerta sobre como esse comportamento está se disseminando entre os adolescentes e ganhando força nos grupos das redes sociais. O que mais o atinge, no entanto, é perceber que, apesar de não compreender completamente a situação, há algo no olhar de seu filho – e na forma como ele descreve o problema – que soa como um pedido silencioso de ajuda. Ou talvez não. Para o detetive, o choque maior vem ao perceber que o sistema educacional, especialmente pela postura passiva dos professores, falha em lidar com essa questão, tornando-se cúmplice, ainda que involuntariamente, da propagação desse ambiente tóxico entre os jovens.
 
No terceiro episódio, Jamie, agora preso, é ouvido, interpelado e analisado pela psicóloga Briony – uma profissional jovem, compreensiva, racional e empática –, que recebe a difícil missão de entender as motivações do garoto para assassinar Katie e como sua estrutura emocional se encaixa em um perfil que, segundo sua família, não condiz com tais atitudes.
 
Ao longo do diálogo, começamos a compreender quem é Jamie por meio de suas reações, especialmente quando seu humor oscila conforme é confrontado pela psicóloga. É nesse momento que se torna evidente como sua personalidade foi moldada pelo contato com a misoginia, influenciado tanto por seus colegas quanto pelo universo digital da cultura red pill – um movimento de homens heterossexuais que pregam a superioridade masculina e a submissão feminina.
 
Um detalhe notável é que, devido à abordagem técnica da minissérie – gravada inteiramente em plano-sequência –, Owen Cooper enfrentou um grande desafio ao interpretar Jamie. Sua primeira grande cena foi justamente esse intenso embate com Erin Doherty. Após cinco ensaios, a gravação foi finalizada apenas no décimo take, surpreendendo o diretor, roteiristas e produtores, que reconheceram em Owen um talento nato.
 
No quarto e último episódio, vemos a família de Jamie – seu pai, Eddie, sua mãe, Manda, e sua irmã – lidando com as consequências de sua prisão, meses após o crime. No dia do aniversário de Eddie, ele se depara com um duro choque emocional ao perceber que sua van de trabalho foi pichada com a palavra “Tarado” – em referência ao filho. Apesar disso, ele tenta manter a rotina e leva a família a uma loja de departamentos. No entanto, é apenas ao retornar para casa e conversar com a esposa no quarto que Eddie começa a refletir sobre sua relação com Jamie. O casal rememora a infância do garoto, seu talento para o desenho e como, aos poucos, foram se distanciando dele – especialmente depois que ele ganhou um computador.
 
E então vem a sequência final, ininterrupta, quando Eddie entra no quarto do filho – impecavelmente arrumado – e encara a dura realidade: Jamie não voltará. Ali, ele compreende que a vida, o trabalho, a distância natural e até mesmo aquele inevitável “e se...” poderiam ter levado a um destino diferente.
"Adolescência"é devastador ao expor como as relações familiares são fundamentais e como a ausência e a passividade dos pais influenciam profundamente a formação psicológica dos jovens. Não importa se, materialmente, um adolescente tem tudo ao seu alcance; o que realmente molda sua identidade é a forma como se relaciona com o mundo – especialmente na internet, onde a falta de filtros pode ser fatal para uma personalidade em construção. A série escancara como essa exposição descontrolada pode levar a extremos, a ponto de um garoto acreditar que matar é justificável – especialmente quando influenciado pela misoginia após ser rejeitado por uma garota.
 

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