MENOS RUIM: A rua é terra de ninguém e se manter vivo é um desafio diário

Quem ainda preserva um pouco de lucidez evita falar sobre vida pessoal

MENOS RUIM: A rua é terra de ninguém e se manter vivo é um desafio diário

Foto: Cicero Moura/Rondoniaovivo | Moradores de rua desamparados

Diferenças
 
Eles dormem amontoados e em qualquer lugar, mas existe uma divisão entre os habitantes das ruas. Em um lado fica o grupo dos usuários de drogas, os alcóolatras e aqueles que já tem antecedentes criminais. No outro, estão pessoas simples, de bem, sem problemas com a Justiça, mas perturbadas com algo ocorrido na família, no casamento, no decorrer de suas vidas.
 
Qualquer lugar serve de cama para quem vive na rua. O morador de rua escolheu o banco em frente à Rodoviária de Porto Velho
 
Se colocam em situação de estorvo e veem no isolamento a melhor maneira de seguir vivendo, mesmo sabendo que morando na rua não vão chegar a lugar nenhum. Pouco se importam com auto estima e dignidade.
 
Aliás, não incomodam ninguém e também não ligam sobre o que as pessoas vão pensar deles ao observar as condições em que vivem. “ Eu tenho vergonha do jeito que tô vivendo, mas eu acho que o povo não se importa muito. Vou contar uma coisa pro senhor. Teve um dia que eu tava na esquina, a moça parou o carro e eu percebi que ela me olhava de canto de olho, acho que tava pensando que eu ia pedir dinheiro. Eles não querem nem olhar pra nós porque acha que vamo pedi algo, então eu sei que não fazemo diferença mesmo” explica o paranaense José.
 
De pouca conversa, só me disse que veio de Londrina para Porto Velho, há 5 anos, e não voltou mais. Falou que tem família por lá, mas não entrou em detalhes.   
 
Tentação
 
Na reportagem especial desta semana, nosso personagem é o Francisco Geraldo. Encontrei com ele “abraçado” a uma sacola onde carrega só um edredom em um saco plástico. Tinha outras coisas. Sapato, calças e camisas boas, mas “negociou” tudo para arrumar dinheiro e comprar cachaça.
 
O edredom já tentaram comprar várias vezes dele, ficou agoniado com a possibilidade de conseguir dinheiro pra bebida,  mas não vendeu. Diz que conseguiu resistir porque é muito ruim passar frio.
 
Francisco vive de esmola, mas quando está sóbrio arruma trabalho e dinheiro com muita facilidade. Tem um excelente currículo como motorista e quem o conhece quase sempre tem serviço para lhe oferecer.
 
A pergunta é: então qual a razão de levar uma vida desse jeito ? Um pouco constrangido, magoado, desanimado e sem muita perspectiva para o futuro, Francisco abre o coração. Os olhos marejados revelam um fio de esperança, mas infelizmente em uma história que já é página virada.
 
Agressão
 
O caminhoneiro Francisco Gilberto de Andrade, 66 anos, chegou em casa, em Rio Branco, no Acre, após uma viagem de 5 dias, e encontrou a esposa sendo surrada pelo filho que era usuário de drogas. Francisco tentou defender a companheira e também foi agredido pelo enteado.
 
Quando a situação acalmou, ele conta que conversou com a mulher e disse que não conseguiria mais sair para trabalhar imaginado que a esposa poderia sofrer mais violência e até se ferir com a agressividade do rapaz. A mulher teria ficado aborrecida e dito para Francisco ir embora de casa, alegando que filho é para a vida toda e marido não.
 
Francisco explica que naquele momento ficou sem reação, sem saber o que dizer ou fazer. Para deixar a situação ainda pior, ela contou que havia conhecido outra pessoa e queria separar.
 
Paralisado
 
Eu não sei dizer quanto tempo fiquei imóvel, parecia que as pernas e a boca tinha “travado”. Olhava para minha mulher e não sabia o que dizer”, explica ele com o olhar perdido, deixando a plena convicção de que o assunto interfere em seu emocional.
 
Diante da hostilidade da esposa e da história dela de um possível romance com outro homem, Francisco sentiu o mundo desabar.
 
Dedicado ao trabalho e à família, ele jamais imaginou que aquele tipo de situação poderia lhe ocorrer. Mas não dava para ficar em casa diante da humilhação que havia sofrido.
 
Transtornado, embarcou em um ônibus e saiu sem rumo, vindo parar em Porto Velho. Sem trabalho, dinheiro e nenhum conhecido, Francisco virou alcóolatra e passou a viver na rua. Ele diz que foi a alternativa encontrada para esquecer a esposa que amava e superar à separação.
 
Francisco se recuperando após uma noite cansativa
 
Trabalho
 
Com carteira de motorista, categoria D, desde 1977, Francisco afirma que quando passa por momentos de lucidez sempre consegue arrumar alguma viagem para fazer. Ao contar que já viajou por todo o Brasil e parte da Guiana transportando tudo quanto é produto, as pessoas costumam lhe dar trabalho.
 
O problema, segundo ele, é sempre após as viagens quando recebe o pagamento pelo frete. Não resiste à cachaça, compra para todos que estão com ele na rua e bebe até terminar o dinheiro.
 
Eu nem considero isso um vício, bebo para esquecer tudo que aconteceu comigo, o problema é que depois que passa o efeito do álcool a realidade está de volta”, diz ele com a cabeça baixa. Nitidamente a realidade que Francisco fala, na verdade é o passado que lhe atormenta.
 
Lúcido
 
Quando fica sóbrio, com fome e sem absolutamente nada que lhe garanta a sobrevivência, Francisco bate na porta de pessoas que conhece e que podem estar precisando de motorista para viajar. Há dois meses, conseguiu uma viagem de trabalho para Rio Branco, ficou eufórico, não pelo serviço, mas pela oportunidade de tentar uma reconciliação.
 
Na capital do Acre, a ex-mulher não quis recebê-lo nem para conversar. Voltou para Porto Velho ainda mais desolado. Entregou o caminhão para quem o contratou e retornou para sarjeta de onde parece não ter mais nenhuma vontade de sair. Francisco perambula por vários lugares, é visto com frequência em frente à panificadora Buenos Aires, no bairro Embratel.
 
Ele e mais dois ou três moradores de rua costumam ganhar pão e café no local. Como não importunam os clientes pedindo coisas, o proprietário da padaria, Gustavo Araújo, também ajuda com comida quando percebe que ninguém deu nada para os indigentes.  
 
Panificadora e clientes costumam doar café e pão
 
Religiosidade
 
Embora desnorteado por conta dos problemas afetivos e da bebida, Francisco tem a religião como um suporte que ainda lhe traz um fio de esperança para à vida. Quando conversou comigo, na manhã de uma segunda-feira, o falante caminhoneiro ainda exalava odor da bebedeira do dia anterior. Me disse que nunca estudou, mas já leu quase toda a bíblia e carrega consigo alguns salmos que sabe de cabeça. Falou de João 32, “conhecereis a verdade a verdade vós libertará”.
 
Citou também: O senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.Refrigera a minha alma, guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
 
Quando terminou o salmo 23:4,  Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam, percebeu que já haviam liberado a entrega de marmita para os moradores de rua, na igreja Sagrada Família.
 
Me pediu licença, alegando que estava com muita fome, e foi saborear seu almoço, que hoje tinha suco de limão e laranja como sobremesa.
 
 
Francisco de banho tomado e com roupas novas
 
Fila se forma cedo em busca de um prato de comida
 
Voluntário entregando comida
 
Na semana que vem, tem a última reportagem da série sobre fome e pandemia. Vamos mostrar o trabalho voluntário, social e da administração municipal voltado para o atendimento dos que estão vivendo na rua.
Direito ao esquecimento

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