FORTALECIMENTO GASTRONÔMICO: Cafeteria Laranja Lima aposta em produção artesanal e sabores locais

Há 13 anos em atividade, estabelecimento aposta em confeitaria, pães de fermentação lenta e ingredientes de produtores da região

FORTALECIMENTO GASTRONÔMICO: Cafeteria Laranja Lima aposta em produção artesanal e sabores locais

Foto: Divulgação

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Em Vilhena, o tradicional hábito de tomar um café no fim da tarde ganhou novos significados ao longo dos últimos anos. Entre uma fatia de bolo, um pão de fermentação lenta, um sanduíche artesanal e uma bebida preparada na própria cozinha, a Cafeteria Laranja Lima construiu uma trajetória de 13 anos e se tornou um dos espaços conhecidos da cidade quando o assunto é café e confeitaria.
 
À frente do estabelecimento está a empresária Roberta, cuja ligação com a cafeteria se tornou tão forte que ela brinca dizendo que “Roberta Laranja Lima” já virou quase seu nome artístico, numa referência à identidade construída ao longo dos anos à frente do negócio.
 
A história da Laranja Lima começou de maneira natural. Roberta já trabalhava na cozinha e com café da manhã quando percebeu, com a abertura de uma galeria, que havia espaço para um estabelecimento especializado em café.
 
“Eu já trabalhava na cozinha, já trabalhava com café da manhã. Quando abrimos a galeria, vimos a necessidade de um café e foi aí que surgiu a ideia de abrirmos a cafeteria”, conta.
 
A proposta era aproveitar a experiência que ela já tinha, mas criar algo diferente do trabalho desenvolvido anteriormente no segmento hoteleiro.
 
A aposta encontrou um público receptivo. Para Roberta, a própria formação de Vilhena ajudou na adaptação do hábito de frequentar cafeterias. A cidade recebeu moradores de diferentes regiões do país, especialmente do Sul, onde o café da tarde e a ida a cafeterias fazem parte da cultura gastronômica.
 
“Na região Sul a cafeteria é um lugar muito frequentado. Eles vão para comer um pedaço de bolo, para tomar um café com leite. Então foi muito bem aceito”, explica.
 
Um espaço que acompanha o crescimento da cidade
 
Com o passar dos anos, o café deixou de ser apenas uma opção para quem queria comer ou beber alguma coisa e passou também a funcionar como espaço de convivência.
 
Roberta percebe uma mudança no perfil dos frequentadores. Há clientes que vão eventualmente, pessoas que utilizam o ambiente para reuniões de negócios e outras que simplesmente encontram amigos para conversar.
 
“Tem desde aquela pessoa que vai uma vez por mês porque não pode estar ali o tempo todo e junta o dinheirinho dela para estar ali provando algo diferente, até aquela pessoa que vai fazer um negócio, fechar um negócio, conversar com o cliente, um amigo que vai tomar um café e falar sobre literatura, poesia”, relata.
 
Segundo ela, existe ainda uma relação entre gerações construída ao longo dos 13 anos de funcionamento.
 
“As mães que antes vinham com os bebezinhos na barriga já vêm com essas crianças para tomar o café. Dessa forma, a gente percebe que há uma mudança e um aumento nesse público consumidor”, afirma.
 
Confeitaria é um dos carros-chefes
 
Entre os produtos oferecidos pela Laranja Lima, a confeitaria ocupa um lugar especial.
 
Roberta considera que esse é um dos principais pontos fortes da cafeteria, mas aponta outro diferencial: a produção própria de grande parte dos alimentos e componentes utilizados nos pratos.
 
Os sanduíches são preparados com pães de fermentação lenta produzidos na própria cafeteria. Molhos e xaropes utilizados nas bebidas também são feitos internamente.
 
“Eu acho que esse cuidado com o preparo da matéria-prima que a gente utiliza é o que faz com que a gente tenha diferencial no mercado”, explica.
 
Ingredientes da região entram no cardápio
 
A valorização dos produtos locais também faz parte da rotina da Laranja Lima.
 
Roberta explica que procura acompanhar a sazonalidade dos ingredientes e comprar diretamente de produtores da região sempre que possível.
 
Um exemplo é a mexerica. Durante a época da fruta, ela é adquirida em feiras e transformada em xarope, que posteriormente passa a fazer parte dos produtos oferecidos na cafeteria.
 
“Essa preocupação com os produtos sazonais faz com que a gente tenha sempre essa preocupação em comprar dos produtores locais para poder revender no café”, explica.
 
A lógica também se aplica a outros ingredientes utilizados na cozinha. Verduras, leite e ovos são adquiridos de produtores rurais da região.
 
“É uma preocupação com toda a cadeia de produção, desde o produtor até o resultado final”, resume.
 
O cliente passou a buscar uma experiência
 
Para Roberta, uma das principais mudanças percebidas nos últimos anos foi a evolução do consumidor.
 
Hoje, segundo ela, o cliente não procura somente um café ou uma fatia de bolo, mas quer entender e experimentar aquilo que está sendo servido.
 
Ela atribui parte dessa transformação à popularização dos programas e realities de gastronomia, que ajudaram a aproximar o público das técnicas utilizadas na cozinha.
 
“Depois que houve esses programas de reality show, a gente percebe que a população andou meio treinada para entender quando algum prato tem mais processos”, observa.
 
Na prática, isso significa que os consumidores passaram a perceber detalhes que antes poderiam passar despercebidos.
 
“Eles percebem essa técnica que já viram em algum lugar e que tem ali no café e falam: ‘Olha que legal, a gente tem isso aqui em Vilhena’”, relata.
 
Uma gastronomia ainda em construção
 
Apesar do crescimento do setor, Roberta acredita que Vilhena ainda está construindo sua própria identidade gastronômica.
 
A empresária considera que, por ser um município relativamente jovem, a cidade incorporou hábitos culinários trazidos pelas famílias que chegaram de outras regiões.
 
“Vilhena é um município muito novo, então nós ainda não temos aqui uma gastronomia própria da cidade. A gente tem uma gastronomia que vem junto com os colonizadores daqui da cidade, e a maioria foi da região Sul”, avalia.
 
Para ela, a identidade gastronômica local ainda está em processo de formação e acompanha o crescimento econômico e populacional do município.
 
Gastronomia pode ajudar no turismo, mas não sozinha
 
Roberta acredita que a gastronomia pode contribuir para o turismo, mas considera que um restaurante ou uma cafeteria, isoladamente, não tem força suficiente para transformar uma cidade em destino turístico.
 
“Eu acho que toda gastronomia, de um modo geral, pode se tornar uma atração turística. As pessoas vão em restaurante para comer quando estão passeando no local. Só que eu acredito que é um conjunto de fatores que faz com que o turismo aconteça”, afirma.
 
Na avaliação dela, Vilhena tem características mais ligadas ao trabalho, à produção agrícola e à condição de cidade de passagem.
 
Já na região próxima ao município, ela enxerga potencial em áreas naturais, rios e atividades relacionadas à pesca.
 
Festivais ajudam a fortalecer a gastronomia
 
Para Roberta, eventos gastronômicos e festivais são importantes para o desenvolvimento do setor porque permitem que profissionais troquem experiências e conheçam melhor a cadeia de produção.
 
Ela destaca o trabalho desenvolvido pelo Sicoob Sabor, que, segundo ela, tem investido na área e contribuído para aproximar os empreendedores.
 
“Eu acho de suma importância para o desenvolvimento da nossa gastronomia e da nossa identidade cultural, porque é por meio desses festivais que a gente acaba conversando com os nossos colegas e entendendo toda a cadeia de produção até o resultado final”, afirma.
 
Mão de obra é um dos principais desafios
 
Empreender na gastronomia em uma cidade do interior também apresenta dificuldades. Para Roberta, uma das principais é encontrar mão de obra especializada.
 
“Você não tem uma mão de obra especializada para cada coisa que você precisa”, explica.
 
A solução encontrada foi buscar conhecimento, especializar-se e desenvolver dentro da própria cozinha os profissionais necessários para manter o padrão dos produtos.
 
Novas técnicas e sabores
 
Mesmo depois de 13 anos, Roberta afirma que a Laranja Lima continua em processo de evolução.
 
O planejamento do negócio envolve a busca por novas técnicas, desenvolvimento de receitas e criação de sabores e produtos diferentes.
 
“Você está sempre em movimento, não pode estagnar. Aquele cliente que está ali no café percebe que o tempo todo eu estou investindo na cafeteria, sempre trazendo pratos novos, sempre inovando com o desenvolvimento de novos sabores e novos ingredientes”, afirma.
 
Essa busca constante por novidades, sem abandonar a produção artesanal e a relação com os fornecedores locais, é apontada por ela como um dos caminhos para manter a cafeteria relevante.
 
Capacitação é conselho para novos empreendedores
 
Para quem pretende começar um negócio no setor de alimentação, Roberta deixa uma recomendação direta: capacitação.
 
“Eu acho que a coisa mais importante é se capacitar, independente daquilo que você quer fazer”, afirma.
 
Segundo ela, mesmo um pequeno negócio precisa conhecer seus processos, entender o mercado e encontrar uma forma de oferecer algo que seja reconhecido como diferencial.
 
A história da Laranja Lima, portanto, se mistura à própria trajetória de Roberta. Depois de mais de uma década trabalhando com café, confeitaria e gastronomia, o nome do estabelecimento acabou ultrapassando a fachada e entrando na identidade da empresária.
 
“Roberta Laranja Lima já virou quase meu nome artístico”, brinca.
 
Em uma cidade que ainda busca construir sua própria identidade gastronômica, a cafeteria segue apostando na combinação entre café, confeitaria, produção artesanal, ingredientes locais, inovação e convivência.

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