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Médica negra morre de Covid-19 após denunciar atendimento racista

Susan Moore, de 52 anos, relatou sistematicamente irregularidades em rede social; caso reacende discussão sobre tratamento enviesado por médicos brancos

O GLOBO

26 de Dezembro de 2020 às 08:50

Atualizada em : 26 de Dezembro de 2020 às 11:46

Foto: Divulgação

A morte de uma médica negra por complicações da Covid-19 nos Estados Unidos repercutiu nas redes sociais na última semana e trouxe à tona o debate sobre o impacto do racismo praticcado por profissionais de saúde no país. Dias antes de falecer na cidade de Indianápolis, Susan Moore, de 52 anos, relatou no Facebook que seu médico, um homem branco, desmereceu seus relatos de fortes dores e se negou a seguir protocolos que ela própria, por ofício da profissão, conhecia e sugerira.
 
Na rede social, Moore afirmou que o médico se recusou a administrar remédios contra as dores e sugeriu que ela estava prestes a receber alta, o que não parecia ser condizente com seu quadro de saúde.
 
— Eu fiquei arrasada. Ele fez com que me sentisse como uma dependente de remédios — relatou a médica no vídeo com um aparelho de oxigênio em suas narinas e uma voz tensa. — Eu disse e mantenho que, se eu fosse branca, não teria passado por tudo isso.
 
Na mesma publicação, Moore enumerou uma série de terminologias médicas complexas e um conhecimento enredado de protocolos de tratamento que defendeu para si mesma diante da equipe médica. Seus constantes apelos e seu conhecimento acerca do tratamento contra a doença que já matou quase 330 mil americanos, no entanto, não foram suficientes.
 
A médica eventualmente recebeu alta. No último domingo, mais de duas semanas depois da publicação do vídeo, faleceu por complicações da Covid-19, segundo seu filho, Henry Muhammed. O caso de Moore causou revolta e reacendeu o apelo pelo fim do tratamento enviesado de pacientes negros que, conforme aponta um número expressivo de pesquisas, recebem frequentemente um tratamento inferior ao de brancos, principalmente em procedimentos que aliviam dores.
 
Um porta-voz da divisão de Saúde da Universidade de Indiana, responsável pelo hospital que atendeu Moore, disse por meio de um comunicado que não se pronunciaria sobre o caso em razão de leis de privacidade do paciente.
 
Uma mistura complexa de fatores socioeconômicos e de saúde fizeram com que a Covid-19 se tornasse particularmente devastadora para populações negras e latinas nos EUA. Pessoas negras morreram 3,6 vezes mais do que brancas, enquanto o índice é de 2,5 vezes entre latinos e também em comperação com brancos. Os números são de uma análise da Brookings Institution.
 
Dificuldades para respirar
 
A médica, nascida na Jamaica e criada no estado americano de Michigan, testou positivo para o novo coronavírus no último dia 29 e foi internada na sequência, segundo um um texto publicado no seu perfil do Facebook no dia 4. Nele, Moore diz que precisou implorar pela prescrição do remdesivir, uma droga antiviral usada experimentalmente nos EUA. Ela também relatou que seu médico rejeitou que ela estivesse com dificuldades de respirar.
 
Após uma tomografia, foram constatadas infiltrações no pulmão e o aumento de linfonodos. Opioides foram prescritos após o exame, mas, antes disso, Moore esperou por horas pelos medicamentos enquanto sentia fortes dores.
 
Segundo seu filho, de 19 anos, ela já havia enfrentado condutas racistas por parte de médicos durante anos. Em função de uma sarcoidose, doença inflamatória que afeta os pulmões, Moore era frequentemente tratada em hospitais.
 
— Ela precisava defender a si mesma em praticamente toda vez que ia ao hospital apenas para receber um tratamento básico e apropriado — relata Muhammed.
 
No Facebook, Moore relatou que conseguiu reportar o problema ao chefe das equipes medicas do hospital, que, por sua vez, prometeu um tratamento adequado e a realização de treinamentos com base na diversidade. Segundo ela, um novo médico assumiu seu caso e as dores foram melhor administradas
 
Apesar da relativa melhora, a médica ainda tinha a impressão de que o tratamento deixava a desejar e que a equipe médica se tornara menos responsiva. Moore recebeu alta mesmo sem se sentir pronta para voltar para casa, mas, em razão das dificuldades, preferia receber os cuidados da família, relatou Muhammed. Ao chegar em casa, reclamou de fadiga. O hospital acompanhou seu estado de saúde por telefone, mas, menos de 12 horas depois, ela voltou a ser internada em outro hospital com dificuldades de respirar e até mesmo de andar.
 
Nas redes sociais, ela relatou que o atendimento no novo hospital era mais sensível do que a instituição que lhe concedera alta pouco antes. Apesar da melhora no tratamento, seu estado de saúde se deteriorou rapidamente. Ela lutaria ao mesmo tempo contra uma pneumonia bacteriana e os efeitos da Covid-19.
 
Muhammed relata que, da útlima vez que se falaram, Moore tinha dificuldade em falar por conta da tosse constante. A médica foi intubada no dia 10 e, na última sexta-feira, já estava totalmente dependente de um ventilador para respirar. Doiis dias depois, Moore não resistiu e faleceu.
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