Santa Teresinha e o milagre no seringal

Santa Teresinha e o milagre no seringal

Foto: Divulgação

 
 
 
Quando os padres assentaram o último tijolo da Igreja de Santa Teresinha, em Vila Murtinho, e colocaram o sino de bronze no alto da torre, o som retumbante produzido por aquela peça pesada de bronze ecoou pelos seringais, rios e igarapés de toda a região do Berço do Madeira, demarcando finalmente o sagrado na alma do seringueiro. 
 
 
Nos dias de missas ou eventos religiosos, o seringueiro e sua família deixavam a sua colocação, por mais distante que fosse de Vila Murtinho, e vinham receber a bênção do padre ou de quem o representasse durante as festivas homilias. As agruras e dificuldades no seringal tornavam a vida do seringueiro uma verdadeira epopeia.
 
 
 
Com a construção da igreja, o fardo diário da coleta do látex tornou-se mais ameno. Essa era a impressão que tomou conta da vida nos seringais. José de Arimateia chegou em Vila Murtinho com a esposa, Maria Cecília, grávida de seis meses. Vieram da região do Baixo Madeira, em Porto Velho, à procura de sorte melhor no seringal dos Clímaco. Eram bem jovens, mas já calejados pela dura realidade dos seringais na Amazônia. Pediram abrigo ao seringalista Sebastião João Clímaco.
 
 
Foram acolhidos em um dos barracões que dominavam a paisagem de Vila Murtinho, usados para armazenar as pélas de borracha e as sacas de castanhas, entre outros produtos, como as imensas tartarugas que vinham da região do Guaporé, destinadas a Porto Velho, onde eram consumidas como iguarias finas e requintadas pelos endinheirados do lugar. Neste local ficaram duas semanas, quando então surgiu uma vaga na Colocação do Limão e o proprietário os designou para lá.
 
 
O mateiro Chaguinha das Mercês foi o encarregado de levá-los àquela colocação, uma das mais atacadas pelos indígenas da tribo Pacaás Novos, em todo o seringal. O seringueiro anterior sumiu do local e nunca mais dele se teve notícias. Não se sabe se foram os índios ou as temíveis onçaspretas, grandes como as mulas do Sebastião João Clímaco. José de Arimateia se ajeitou com a esposa no pequeno tapiri de assoalho, às margens do igarapé, também denominado de Limão.
 
 
Não havia escolha: cortar seringa foi o único ofício que ele aprendeu com o pai nos seringais do Baixo Madeira. Aos poucos, a vida do casal foi se arrumando na lida ferrenha e incessante do seringal. Maria Cecília ficava boa parte do tempo sozinha no tapiri, enquanto o marido percorria as estradas de seringa retirando o látex das seringueiras ou cultivando o pequeno roçado às margens do igarapé. Sua barriga foi se avolumando e, mais algumas semanas, ela sentiria as dores do parto, para a felicidade do casal que esperava ansioso pela chegada do primeiro filho. Sua gravidez foi tranquila.
 
 
Apenas pequenos desconfortos provocados pela cama dura de paxiúba e náuseas quando sentia o cheiro da borracha sendo defumada pelo esposo. Nos dias finais da gravidez, José de Arimateia não se afastava muito do tapiri. Vigilante e mais ansioso que a esposa, ele estava capinando o roçado quando ouviu os primeiros gemidos da esposa, sinalizando que a criança viria ao mundo. José correu para o tapiri, onde encontrou a esposa deitada na cama, com os olhos vidrados na cobertura de palha do tapiri. Imóvel, as mãos tesas, agarradas nas lascas de paxiúba da cama, as vestes ensopadas de sangue e suor, tudo prenunciando um fatídico aborto. Os gemidos cada vez mais agudos da esposa provocavam assombros em José de Arimateia.
 
 
Atônito e assustado, não sabia o que fazer, além de segurar firme uma das mãos da esposa e limpar-lhe o rosto com a fronha do travesseiro. A noite já se avizinhava e José de Arimateia lembrou-se de acender as lamparinas, deixando o ambiente mais sufocante e sombrio ainda. A esposa se esvaindo em sangue, que escorria pelo assoalho e seguia pelo caminho, tingindo de vermelho as águas do igarapé.
 
 
Aflito e aturdido, mas com uma força e uma fé inabaláveis, o jovem homem lembrou-se da Santa de Vila Murtinho e implorou por um milagre. De joelhos e ao lado da cama da esposa, José de Arimateia pediu com todas as forças à Santa Teresinha. Neste instante, uma centelha divina, em forma de pássaro bateu asas de dentro do seringal, vindo pousar suavemente na janela do quarto do tapiri. O silêncio tomou conta do lugar.
 
A esposa, agora menos ofegante, tocou com os olhos a túnica amarronzada do pássaro e ouviu quando a criança chorou ao sair de suas entranhas. Trêmulo e imóvel, José de Arimateia também chorou e o choro de ambos ecoou por todo o seringal. Simultaneamente ao choro, o sino da Igreja de Santa Teresinha repicou repetidas vezes, sem que ninguém lhe tivesse puxado a corda.
 
 
Dias depois, montados no lombo da mula do seringalista, os pais e a criança entraram em Vila Murtinho e tomaram a direção da igreja. De joelhos e com a criança no colo, José de Arimateia entrou na igreja para agradecer o milagre de Santa Teresinha. O sino repicou mais uma vez e o pássaro amarronzado, que acompanhou a família durante todo o percurso, pousou silenciosamente num dos vitrais da igreja.
 
 
Autor: Simon O. dos Santos
 
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