Rondônia vive dias de fúria e cancelas. O motivo é o mais humano dos sentimentos: o bolso. Ninguém gosta de pagar pedágio, assim como ninguém gosta de brócolis ou de fins de tarde de domingo, mas o pedágio tem a desvantagem adicional de exigir dinheiro vivo.
Minha experiência de mundo é modesta, mas rodando da Bolívia aos Estados Unidos, descobri uma verdade universal: onde há asfalto, há alguém querendo cobrar para você passar por ele. No Paraná, o Alvaro Dias plantou a semente há trinta anos; o Requião prometeu arrancar a planta, ganhou a eleição e, como costuma acontecer na política, esqueceu onde guardou a enxada.
Agora, a BR-364 virou o ringue da vez. Nas redes sociais — esse território onde a memória é curta e a convicção é longa — trava-se um duelo de paternidades. Os bolsonaristas, com a ingenuidade de quem acaba de acordar de um sono profundo, juram que a "patacoada" é obra do Lula. Os lulistas, por sua vez, apontam o dedo para o Capitão com a presteza de quem não quer a conta no seu cartão.
Recentemente, a Aprosoja conseguiu uma liminar. Suspenderam a cobrança, alegando que a empresa esqueceu de cumprir o contrato antes de abrir a gaveta do caixa. É um alento, mas um alento com prazo de validade. No Direito, assim como na culinária, se você corrigir o sal, o prato volta para a mesa. Se a empresa cumprir o edital, as cancelas baixam de novo.
O fato, nua e cruamente, é que esse imbróglio nasceu em 2017. Naquela época, entre o adeus de Dilma e o "fica" de Temer, circulava nos corredores um jovem técnico chamado Tarcísio de Freitas. Tarcísio, que já batia cartão no DNIT desde os tempos do Lula, atravessou governos como quem atravessa uma rua com o sinal verde.
Bolsonaro, ao assumir, olhou para Tarcísio e viu um prodígio. Entregou-lhe as chaves do ministério e uma série de projetos que já estavam na prateleira, pegando poeira. Foi assim com o aterro da ponte do Rio Madeira. A culpa pela demora? Dizem que foi da Dilma. Mas quem estava lá, no setor técnico, calculando o concreto? O onipresente Tarcísio.
Pois bem, agora descobrimos que o pedágio da BR-364 também tem DNA. Foi batido o martelo na Bolsa de Valores sob as bênçãos de Tarcísio e as ordens do chefe anterior. As praças de cobrança, os valores e as regras de trinta anos de concessão não brotaram por geração espontânea no governo atual; estavam todos lá, datilografados e assinados na gestão passada.
O ex-deputado Ernandes Amorim tem feito um desafio público: quem apontar uma obra de origem genuína do governo Bolsonaro em Rondônia ganha um carro de presente.
Ora, creio que acabo de encontrar o chassi. A gênese do pedágio é clara, o pai da criança tem nome e sobrenome, e o projeto tem o selo de Brasília, versão 2019-2022. Amorim, pode ir mandando polir a lataria e conferir o óleo. Estou passando aí para buscar o meu mimo. Pelo caminho, se a liminar cair, eu pago o pedágio.
Daniel Pereira: ex-governador de Rondônia (2018).