Era da idiotização - Por Sandra Santos

Era da idiotização - Por Sandra Santos

Foto: Divulgação

É bem provável que os anos 2000 sejam lembrados como a era da estupidez ou da idiotização.

E não falo apenas sobre comportamentos nas redes sociais, onde podemos observar quase que em tempo real, as nossas próprias idiotices e as dos outros. A busca incessante pela fama, “likes”, a super valorização e admiração por aqueles que teoricamente, não oferecem motivos plausíveis para tantos seguidores.

A idiotização está por toda parte, parece que se tornou um lema destes tempos em que vivemos: viva de forma idiota, seja estúpido ou morra, pelo menos socialmente falando.

Este comportamento também está na maneira como nos relacionamos com os outros. Buscamos conviver com pessoas que aparentemente são felizes, bem humoradas e perfeitas em diversos aspectos.  A vaidade toma conta de todos nós. Nas redes sociais a necessidade de termos razão se sobrepõe ao bom senso. Nietzsche disse que “ elogiamos ou criticamos de acordo com a maior oportunidade que o elogio ou a crítica oferecem para fazer brilhar a nossa capacidade de julgamento”.

Sentar e conversar seriamente com alguém sobre assuntos relevantes se torna a cada dia, sinônimo de chatice. Estamos vivendo uma época onde não buscamos  regar nossa alma com um pouco mais de poesia, de educação ou de gentilezas. Ao invés de tentarmos nos tornar  gentlemen, estamos cada vez mais aderindo ao estilo “jeglemen”. 

É preciso que se diga que todos temos cultura, ainda que ela seja considerada inculta no sentido de percepção de qualidade.  

É preciso também tentar entender o que caracteriza a idiotização. Segundo o dicionário é um processo de deformação ou má formação cultural de uma pessoa, em qualquer área levando-as a absorverem e adotarem comportamentos e hábitos idiotas reproduzindo-os de forma continuada.

No jornalismo existem dois tipos de noticias: a de interesse público - que são as notícias relevantes - e aquelas de interesse do público - que são as que o público quer consumir- e acreditem, nada dava mais ibope do que tragédia, sexo e violência. Porém, atualmente existe uma nova modalidade de noticia de interesse do público: o besteirol.  

É claro que em todas as outras épocas houve quem tivesse tais atitudes.

Lá nos anos 60, Nelson Rodrigues escreveu um artigo sobre este tema e disse, entre outras coisas que “O trágico da nossa época, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no
passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas.”

Pois bem! Lido este parágrafo e observando os dias atuais, o que mudou?

 

Vemos diariamente nas redes sociais, pessoas consideradas intelectualmente elevadas, estudadas, esclarecidas e inteligentes falando uma série de asneiras, tendo atitudes que não condizem com seu grau de intelectualidade ou pseudo intectualidade. Talvez seja muito mais idiota aquele que podendo ter uma compreensão maior das próprias atitudes, insiste nas asneiras em busca de fama, e através dela, o poder.

Muitos de nós somos fanáticos de alguma maneira, seja pela religião, esporte, política, etc. Mas existe aquele tipo de idiota que pratica o que chamo de “auto fanatismo”. É tão obcecado por suas próprias ideias que não se abre para o mundo, para novas perspectivas mesmo elas estando alí na frente dele, bastando apenas querer vê-las.

A bem da verdade, há também aqueles “auto fanáticos” que não são nada idiotas, ao contrário, são talentosos estrategistas com uma grande capacidade de persuasão, liderança e de controle das massas.

Todos sabemos o quanto Hitler era obcecado por suas próprias ideias. Na Alemanha, na Ilha de Rügen, Hitler construiu à beira mar um mega empreendimento chamado PRORA. Este empreendimento é formado por blocos com alguns andares, um ao lado do outro e em linha reta tem cerca de 1 km de extensão. Prora foi construída para propiciar férias muito econômicas aos cidadãos alemães, ao mesmo tempo que o Führer aproveitava para disseminar suas idéias. O resultado daquele “auto fanatismo”, a história conta.

Na era da idiotização, quanto mais idiotices se comete, mais famoso fica. Esta é a parte mais inacreditável. Mas porque isso acontece? Porque um vídeo tão idiota como o Carreta Furacão tem 5 milhões de visualizações?  Quando utilizamos a palavra idiota, é quase regra nos referirmos aos outros e, automaticamente nos excluirmos do contexto.

Mas será mesmo que podemos nos excluir?

Uma das coisas bacanas da internet é a democratização. Hoje todos têm oportunidades de criarem algo bom de acordo com suas próprias ideias, postar e esperar  - ou lutar- pelo resultado. Existem muitos vídeos com excelentes conteúdos dos mais variados temas. Mas, observem que são aqueles mais idiotas, mais sem sentido que chamam a atenção e presenteiam a pessoa com 15 minutos de fama.

É algo para pensar: porque consumimos este tipo de coisa? Qual a necessidade? É divertido? Se a questão é diversão talvez estejamos todos carentes de humoristas como Chico Anysio, Renato Aragão e tantos outros que realmente tinham graça. Infelizmente hoje o que temos são artistas que se acham engraçados, mas não são. Pelo menos não são para quem tem mais de 30 e conhece o trabalho dos verdadeiros humoristas do passado.

Se a questão é o prazer em ficar olhando e compartilhando fotos de cadáveres, corpos dilacerados em acidentes, já não é mais um caso grave de idiotice e estupidez, certamente é crueldade mesmo ou psicopatia “ level hard”.

 

Na música, em todas as épocas, sempre houve aquela turma que produzia música de gosto duvidoso.  No final dos anos 70 e durante os anos 80, muitos daqueles artistas considerados popularescos, bregas, cafonas e nos anos 90 denominados como “artistas trash” fizeram um grande sucesso. No entanto, nos anos 2000 aqueles artistas e suas letras começaram a serem valorizados por uma parcela da sociedade considerada mais intelectualizada.  Como isso aconteceu? As músicas e os artistas são os mesmos.. Talvez o que tenha acontecido é que, o que naquela época era considerado ruim por aquela parcela, foi provado que poderia ficar muito, mas muito pior. Os tempos atuais provam isso. 

Nos anos 2000, há uma  produção em série de músicas com letras monossilábicas, refrões repetitivos e isso acontece em nível alarmante.  A programação da maioria das rádios no Brasil inteiro, especialmente em cidades menores, são todas iguais e apelam para o mesmo ritmo. Existem sempre aqueles que culpam a mídia pela massificação da música de gosto duvidoso, porém com a internet,  os próprios artistas conseguem divulgar seus trabalhos e as rádios, muitas vezes, precisam tocar o que se tornou sucesso.  Afinal, as emissoras devem tocar o que o público quer ou o que ela considera adequado?

É impossível a vida sem música, mas se quisermos obter algum prazer de verdade, temos que recorrer ao passado. Os jovens atuais, quando mais velhos, não terão boas músicas para recordar. Sabe aquela que cantarolamos mesmo sem saber de cor a letra?  No futuro, estes jovens irão cantarolar refrões repetitivos ou monossilábicos. E quando isso acontecer, talvez seus filhos, não entenderão que aquelas são musicas da geração de seus pais e poderão pensar que eles têm, na verdade,  uma espécie de cacoete, uma doença adquirida nos anos 2000.

A má notícia é que, além de não percebemos que estamos vivendo e construindo a era da idiotização, ela não tem previsão para acabar.

 

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