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La muerte - Aberto Ayala

COLUNA

03 de Março de 2020 às 15:43

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Observo o mar, o Sol, as nuvens, observo-me e eis que descubro coisas inúteis que habitam o meu ser. Meu Deus! Logo estarei num belíssimo jardim repleto de flores e borboletas, mas antes irei escrever um poema. Tenho que terminar o meu livro. Há anos não publico algo e vivo fumando, bebendo demais, sem equilíbrio. O homem atual está diferente, louco, viciado e cansado. As minhas lágrimas são sinceras! Por que não, queridinho? Nem venha com as suas palavras, elas são tão artificiais. Escrevo. Escrevo, escrevo, fumo, olho o relógio na parede. Já está perto da merenda? Oh! Escrevo, estou com muitas ideias, a inspiração é um dom absolutamente esplêndido! Leio o que escrevi, releio, leio alguma obra importante da literatura brasileira, amo José de Alencar, amo Senhora e a elegância ousada de Aurélia Camargo. Aceito que a poesia é universal, essencial e não sou perfeita, nem quero, jamais serei a MELHOR, escrevi algo que desejo passar, o que sei escrever. Isso é nobre! Levanto da cadeira e me olho no grande espelho que fica na sala. Quem sou eu? Quem é a mulher que no passado deixou um grande amor para se casar com um grande advogado? Ah! Ela é tão infeliz, chora bastante nas noites solitárias. Escreve para escapar da dor, quer voar, criar, sorrir, mas logo cai num abismo, grita, grita pelo nome dele, não enxerga nada, total escuridão, loucura, está perdida mesmo possuindo reconhecimento na sociedade, mesmo sendo bonita, perfumada, intelectualizada. Por que os que escrevem são melancólicos? Fica a pergunta no ar e o terror, o sufoco, fica o que é terrível, ela tenta pedir ajuda, clama por misericórdia, o sangue escorre pelo corpo dela, ouve-se um GRITO e depois um gemido. Oh! As luzes estão acesas. Oh! A cama...

 

Abre os expressivos olhos azuis. Beija um rapaz. Ela adora se envolver com homens mais novos. Tira a blusa dele, arranha sensualmente as costas dele, olha nos olhos daquele gostoso. Eu quero te dar prazer, safada! O marido fuma também, o que é traído. Ele é impotente. Pinta e encontrou na arte uma possibilidade de viver, respirar, sonhar, sorrir, amar. O pior é que ele sabe que a sua mulher é infiel, que ela vive sem medo, sem regra, que ela é da vida e a vida abraça aquele ser estranho, de certa forma até interessante para alguns, mas estranho. Respira, lava o rosto e se olha no espelho. De novo, de novo, de novo. Ela sempre se olha no espelho e percebe que o tempo passa, voa, corre, não espera. Nem as mais belas. É. O tempo é efêmero! Pega o livro Metamorfose. Grande Franz Kafka! Lê algumas partes da obra e depois a joga pela janela. Grita. Olha para os seus quadros na parede do escritório. Meu Deus! Ela está insana? Tudo comprova. Eu vou morrer. Nem Lispector, nem Beethoven, nem Tarsila. Eles não podem me salvar. Eu estou com calor. Não, não. E as rosas? A poesia. Ah! A alegria. Friedrich Schiller, eu preparei um café. Vamos passear pelas ruas de Paris, Friedrich? Vamos, querido? Chame os seus amigos. No. Yo no soy loca. Estoy bien. Silêncio. A poeta anda devagar. Nos olhos há tristeza. Eu vou morrer! As minhas esperanças acabaram. É verdade! Elas acabaram. Por que eu sou assim? Não. Eu amava eles. Os dois. Ninguém pode me julgar, merda. Fecha os seus olhos. Se joga do prédio com raiva e com mágoa. Morre.

 

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