Imagine crescer numa comunidade periférica de Porto Velho, onde o rap é a trilha sonora do dia a dia, o grafite colore os muros do bairro e a batalha de rima na praça é o único palco que você conhece. Durante anos, essa realidade foi ignorada pelo poder público. A partir de agora, ela tem nome, tem lei e tem proteção.
A Câmara Municipal de Porto Velho aprovou o Projeto de Lei nº 5022/2026, de autoria do Vereador Dr. Breno Mendes (AVANTE). A proposição institui a Política Municipal de Valorização da Cultura Hip-Hop em Porto Velho e será encaminhada ao Poder Executivo para apreciação. Se sancionada pelo Prefeito, o Hip-Hop deixará de ser visto como "coisa de periferia" e passará a ser reconhecido oficialmente como patrimônio cultural da cidade, com programas concretos, apoio do poder público e data oficial no calendário municipal.
Porto Velho não é apenas uma cidade onde o Hip-Hop chegou. É o berço do Hip-Hop da Floresta, um movimento que mistura a linguagem urbana do rap, do break e do grafite com a identidade amazônica e ribeirinha da nossa gente. Esse movimento conecta artistas, jovens e comunidades inteiras da região Norte há décadas, mas nunca havia recebido o reconhecimento que merecia. Com a aprovação do projeto, esse cenário começa a mudar.
O projeto autoriza a Prefeitura a levar o rap, o break, o grafite e a consciência social para dentro das escolas municipais. Não como curiosidade, mas como ferramenta de ensino. Jovens que hoje não se enxergam no que aprendem em sala de aula poderão, se a lei for sancionada, ver sua própria cultura sendo valorizada onde estudam. Menos evasão escolar, mais identidade, mais pertencimento.
Quem organiza batalhas de rima, saraus e slams sabe o quanto é difícil: sem apoio, sem estrutura, sem isenção de taxas, muitas vezes com perseguição em vez de incentivo. O projeto aprovado muda esse cenário. Os coletivos poderão se cadastrar junto à Prefeitura, receber apoio logístico, ter taxas reduzidas e ainda participar de editais de fomento cultural. A cultura de rua passa a ter quem olhe por ela.
O projeto também estabelece o dia 26 de maio como o Dia Municipal do Hip-Hop, com toda a semana anterior dedicada a shows, festivais, oficinas, feiras e atividades culturais em toda a cidade. Uma semana inteira celebrando o que Porto Velho tem de mais vivo e autêntico.
"O Hip-Hop sempre esteve aqui. Nas vielas, nas praças, nas escolas, nos muros, na boca dos nossos jovens. O que faltava era o poder público ter a coragem de olhar para isso e dizer: isso é cultura, isso é nossa história, isso merece proteção. É exatamente o que esse projeto faz. Não estamos inventando nada. Estamos, finalmente, reconhecendo o que a periferia de Porto Velho já sabia há muito tempo: o Hip-Hop não é problema. Nunca foi. É solução. E agora, aprovado pela Câmara, está a um passo de se tornar política pública." Vereador Dr. Breno Mendes | Fiscal do Povo
Essa aprovação não é só do vereador que assinou o projeto. Ela é de cada jovem que já se sentiu invisível. De cada MC que já foi mandado embora de um espaço público. De cada grafiteiro que teve sua arte chamada de vandalismo. De cada professor que tentou conectar o aluno à aula e não tinha como. De cada mãe da periferia que viu no Hip-Hop o que tirou o filho das drogas e da violência.
A Câmara Municipal de Porto Velho deu o passo. Agora o projeto segue para o Executivo.