ARTIGO: Antes sabíamos quando plantar, quando mover, quando parir. Agora, nada avisa

Saúde reprodutiva, ancestralidade e resistência das mulheres indígenas na Amazônia diante das crises climática e institucional antes e depois da COP30

ARTIGO: Antes sabíamos quando plantar, quando mover, quando parir. Agora, nada avisa

Foto: Assessoria

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A floresta se tornou um território onde o tempo perdeu a precisão. Depois da COP30, que por semanas movimentou Belém e colocou a Amazônia sob os holofotes do mundo, o cotidiano dos povos indígenas continua marcado por mudanças que não entraram nos discursos oficiais. Se na COP a crise climática foi tema de painéis, negociações e promessas, nas aldeias o tema é mais visceral, e assume a forma de corpos que adoecem junto com o território.
 
Os relatos das mulheres indígenas da Amazônia  do Putumayo colombiano ao norte do Brasil  mostram realidades parecidas: as mudanças climáticas já estão interferindo de maneira profunda nas trajetórias de gestação, parto, pós-parto e na saúde mental e física. Não são previsões; são rotinas. Não são riscos futuros; são feridas presentes.
 
Contexto institucional e impactos amplos
 
Segundo Marinete Tukano, coordenadora-geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), que reúne lideranças femininas de diferentes povos da Amazônia legal, “os principais impactos das mudanças climáticas na saúde das mulheres indígenas estão relacionados à saúde mental, à soberania alimentar, às colheitas, à economia familiar, à violência, entre outros fatores”. Ela aponta ainda que a malária, a desnutrição, o aumento do risco de suicídio e o câncer têm crescido nas comunidades devido ao colapso climático.
 
Organizações como a Amazon Conservation Team (ACT), que atua há três décadas defendendo direitos territoriais e sociais das comunidades, também observam de perto essas transformações. A ACT desenvolve ações específicas voltadas à saúde da mulher indígena, oferecendo apoio durante a gestação, parto, pós-parto e no acompanhamento da saúde mental e física, além de fortalecer redes de cuidado que respeitam saberes tradicionais. Seu trabalho mostra que, para além das estatísticas e compromissos internacionais, existem vidas que carregam, no corpo, os efeitos das mudanças climáticas e da degradação ambiental.
 
Os impactos e as consequências de um clima adoecido 
 
“Hoje, tudo mudou com o clima. Antes sabíamos quando plantar, quando mover, quando parir. Agora nada avisa”, relata Sineida Viveros Garreta, especialista e transformadora de plantas do povo indígena Inga, de Putumayo/Colômbia. Fazendo uma costura ao relato de Sineida, Sandra Patiño Londoño, antropóloga e coordenadora da linha Comunidades y Bosques: Una Sola Salud da ACT-Colômbia, conta haver um “desequilíbrio do território” que repercute no corpo, na mente e nas emoções. “Quando elas dizem que ‘nada avisa’, é porque os calendários ecológicos e de saúde estão desarmonizados, não são precisos como no passado. E isso desorganiza toda a lógica do cuidado”. Para a antropóloga, essa compreensão é chave para entender a crise climática. 
 
A ideia de que o território perdeu o ritmo aparece também nas falas de Olga Macuxi, liderança indígena de Roraima. Ela descreve plantas que “não nascem mais no mês certo”, raízes que “queimam”, remédios que “demoram mais para fortalecer”. Durante o encontro Vozes que defendem a floresta: gênero, juventude e resistência indígena na Amazônia, evento paralelo à COP30 em Belém, ela empunhava pomadas, cicatrizantes e xaropes feitos com plantas da floresta. “Esse xarope de cupim aqui salvou a gente no tempo do Covid”, disse, segurando o frasco como quem segura uma memória coletiva de sobrevivência. “Nós precisamos preservar, porque a medicina da natureza está mudando. E isso mexe com tudo: com o corpo, com o espírito e com o trabalho das mulheres”.
 
E as transformações ambientais também chegaram nesse trabalho, aumentando o peso das tarefas das mulheres, pois são elas que caminham mais longe para buscar água quando o rio baixa; são elas que passam mais horas no campo, observando as mudanças no território, experimentando com a terra, buscando maneiras de tornar as plantas resistentes à seca e às inundações; são elas que cuidam dos doentes quando a malária e a dengue avançam para regiões onde antes as condições climáticas não permitiam sua transmissão, intensificando ainda mais a carga do trabalho e do cuidado com os outros.  
 
Sandra diz que, numa comunidade que visita com frequência, uma mulher lhe contou precisar, hoje, caminhar mais horas por dia do que no passado. “Não é só o esforço físico: é a carga emocional de saber que aquilo que ela fazia com tranquilidade agora virou corrida contra o tempo”. 
 
E é na saúde mental das mulheres indígenas que a crise climática tem seus efeitos invisíveis. Patiño fala do que chama de “perda do norte”. “O território era bússola, calendário e segurança. Quando ele muda de comportamento, as mulheres sentem que o mundo está desalinhado. Isso gera ansiedade, tristeza e sensação de impotência”, explica.
 
Algumas mulheres se emocionam quando falam disso, não porque expressam sofrimento abertamente, muitas culturas não fazem isso, mas porque as mudanças climáticas perturbam aquilo que sustentava a vida cotidiana. “Quando o rio adoece, a gente adoece junto”, sintetiza Olga.  
 
Essas alterações no ritmo da floresta, no aumento das cargas de trabalho e na saúde mental também interferem na saúde reprodutiva e na cura física das mulheres. Segundo Lirian Ribeiro Monteiro, ponto focal de Medicinas e Mulheres Indígenas da ACT-Brasil, “o aumento de temperatura está associado ao risco de partos prematuros, a contaminação dos rios agrava problemas gastrointestinais e de pele. O ar seco intensifica crises respiratórias. O desmatamento ameaça plantas que são essenciais à prevenção e à cura. Tudo isso incide primeiro sobre as mulheres e sobre as gestantes”. 
 
Sandra descreve o mesmo cenário na Colômbia. Em Putumayo, as chuvas imprevisíveis destroem roças inteiras; o calor prolongado queima sementes; o assoreamento dos rios prejudica a pesca. “E quando não tem alimento suficiente, isso se traduz em gestantes que não conseguem manter energia para um parto saudável”. 
 
Em algumas comunidades, as mulheres chegam à consulta com tonturas, fraqueza e dores de cabeça. “Elas dizem: ‘comi pouco para que meus filhos almoçassem. É uma frase que nos atravessa. Porque mostra o quanto a crise climática entrou dentro das casas. [...] a insegurança alimentar é um dos efeitos mais diretos da mudança climática. E quando a comida é pouca, quem se sacrifica primeiro é a mãe”, explica Sandra. 
 
Além da crise climática, a crise institucional 
 
Além do impacto do clima, as mulheres indígenas enfrentam uma crise que atravessa instituições, serviços e saberes. Em suas palavras, Sandra resume essa sobrecarga: “O corpo da mulher indígena é pressionado por múltiplas frentes: clima, trabalho, comida que falta, saúde que não chega, cultura desrespeitada nos hospitais”.
 
Relatos revelam um quadro preocupante de violências obstétricas e institucionais. Segundo Lirian, “o sistema oficial de saúde não está preparado para atender mulheres indígenas. Falta intérprete, respeito aos rituais, compreensão de que o parto não é apenas um procedimento biomédico.” Ela cita ainda episódios em que mulheres são levadas ao hospital contra sua vontade, obrigadas a assinar termos de responsabilidade, proibidas de ter suas parteiras ao lado, impedidas de se alimentar de acordo com suas tradições,
 
especialmente durante o resguardo, período em que alimentação, temperatura corporal e presença da família têm papel central.
“Em alguns hospitais, nem mesmo o pai da criança pode cumprir a couvade, o resguardo masculino. Ele também precisa de alimentação diferenciada, mas isso não é reconhecido. A cultura é vista como problema”, explica Lirian. Sandra menciona que, na Colômbia, ainda há mulheres indígenas sendo examinadas por médicos sem o devido consentimento, o que gera um fardo extra para a gestante, já que culturalmente isso é mal visto. “Para muitas culturas, isso é um choque profundo. Não é só incômodo. É violência simbólica. É trauma”. Lembrou que uma parteira mencionou o caso de uma de suas pacientes que, há vários anos, chorou porque lhe foi proibido entrar no hospital com ela. “A mulher disse: ‘Se ela não entrar, meu espírito fica fraco’. Era um pedido simples. Mas não foi atendido”. Felizmente, essa situação mudou nos últimos dois anos em Putumayo.
 
A presença das parteiras atravessa todas as entrevistas. Para as mulheres indígenas, essa mestra do nascimento é mais que uma profissional: é protetora, guardiã espiritual, ponte entre mundos. Sandra descreve seu papel: “Elas conhecem o território, reconhecem sinais de risco que não aparecem em exames, acompanham quando o hospital está longe, conduzem rezas, cantos, banhos, massagens. São elas que acalmam, traduzem, seguram a mão da gestante”. Lirian completa: “Sem parteiras, o sistema oficial de saúde não alcança as mulheres indígenas”. Em muitos hospitais brasileiros, as parteiras esperam do lado de fora da porta, mesmo quando a gestante suplica pela sua presença. “Isso é uma violência construída por um racismo institucional que desvaloriza saberes ancestrais”, exalta Ribeiro
Além das violências sofridas na hora do parto, as mulheres indígenas também se deparam com violações a seus direitos nos atendimentos clínicos gerais. Mônica Guajajara, do Povo Guajajara/Maranhão, denuncia que nos atendimentos médicos de alta e média complexidade as violências sofridas são graves, pois não há atendimento adaptado às suas culturas. 
 
“A gente tem uma saúde diferenciada na atenção básica, mas, quando chega na média e alta complexidade, não tem essa diferenciação. É aí que morrem as nossas parentas. Seja pela espera, pela demora ou pela falta de acolhimento”. Ela cita casos de mulheres com câncer que morreram esperando. “Não tem intérprete. Não tem acompanhante. Não tem respeito. As mulheres ficam sozinhas”. 
 
Soluções, caminhos e futuros 
 
Diante dos desafios impostos pelo clima e pelas estruturas institucionais, mulheres indígenas, comunidades, movimentos, articulações e organizações parceiras mostram caminhos possíveis para fortalecer a saúde, a ancestralidade e a resistência das mulheres na Amazônia.
Como exemplo concreto, Lirian cita ações desenvolvidas pela ACT em parceria com as mulheres indígenas, como as oficinas de fortalecimento da alimentação ancestral do povo Yanomami (Brasil), da parceria com a UMIAB, e de cartilhas bilíngues criadas para escolas. “Isso fortalece a autonomia. É cuidado que nasce de dentro”, afirma.
 
Marinete, da UMIAB, também indica a importância do protagonismo das organizações de mulheres indígenas diante da crise: “na conjuntura atual, estamos buscando fortalecer as organizações regionais da Amazônia legal para que consigamos traçar estratégias em conjunto, buscamos parcerias e estar presentes em espaços de decisões e discussões climáticas”.
 
A liderança indígena também aponta que as soluções passam pelo fortalecimento múltiplo do que permeia o cotidiano das mulheres: “trabalhar a socioeconômica, a bioeconomia e programas de atenção contínua à saúde da mulher é fundamental para proteger as mulheres indígenas frente às mudanças climáticas”. Além disso, ressalta que a UMIAB pretende desenvolver projetos voltados à saúde da mulher, ressaltando que “a cultura e a história dos povos indígenas influenciam a forma como lidam com os efeitos do clima sobre a saúde, sobretudo no uso do manejo sustentável e das medicinas tradicionais”.
 
No campo da proteção da saúde das mulheres indígenas nos espaços institucionais, Sandra destaca os protocolos interculturais construídos na Colômbia, as rotas compartilhadas com hospitais, os espaços de decisão conjunta e a tradução do consentimento informado para línguas indígenas. Ressalta ainda que os protocolos devem reconhecer de fato a atuação das parteiras, e não apenas tolerá-la. No Hospital Fronterizo La Dorada, Sandra testemunhou mudanças reais: “Parteiras podem entrar, cantar, usar plantas, tocar na gestante. Elas são recebidas, não apenas permitidas”. Uma experiência, infelizmente, ainda rara, mas que aponta caminhos possíveis para a construção de políticas de saúde interculturais e efetivas. 
 
Ela reforça, assim como Marinete e Lirian, que qualquer política que queira responder à crise climática precisa incluir as mulheres indígenas como protagonistas, e não apenas como beneficiárias.
 
Sabedorias, sentidos e curas 
 
Lirian comenta ter aprendido com as parteiras que “o corpo é terra viva”, um território capaz de sentir, registrar e responder às mudanças do mundo ao redor. Já Sandra revela a compreensão do cuidado como resistência, um ato cotidiano que desafia um sistema de saúde ignorante dos saberes ancestrais e que subestima culturas inteiras. 
 
Olga lembra que as transformações climáticas não são apenas números ou previsões: são sinais sentidos na água, no ar, na terra e nos corpos das mulheres que nela vivem. “A floresta fala e, quando ela muda de tom, a gente precisa escutar”, afirma. 
 
O que ecoa na fala de todas elas é uma ideia central: as mulheres indígenas carregam o clima no corpo. Carregam a mudança na pele, no pulmão, na barriga, na roça, nas mãos que plantam, nas costas que transportam água, nos pés que caminham longas distâncias, na voz que insiste em ensinar as mais jovens a reconhecer a medicina ancestral mesmo quando a planta falta.
 
A saúde da mulher indígena é o ponto onde se cruzam múltiplas crises: ambiental, sanitária, social, espiritual e emocional. E se algo ficou claro após a COP30 é que nenhuma política climática faz sentido se ignorar essa geopolítica do cuidado. Depois dos discursos sobre a Amazônia como centro do mundo climático, permanece o que sempre esteve aqui: mulheres que sustentam a vida mesmo quando o clima desmorona, carregando o futuro no ventre e na memória.
 
Apesar das violências médicas, institucionais e ambientais, elas seguem vivendo segundo o calendário da floresta, mesmo quando a floresta já não consegue avisar a hora das coisas. Cada gesto de cuidado, cada reza, cada toque e cada presença das parteiras constitui resistência um elo que mantém viva a conexão entre corpo, espírito e território. É nesse espaço de sabedoria e persistência que se revela a força silenciosa, porém inquebrável, das mulheres indígenas da Amazônia.
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