Da advocacia à produção artesanal, empreendedora encontrou na gastronomia uma nova profissão e hoje planeja ampliar a produção sem abrir mão do trabalho artesanal
A gastronomia de Vilhena também é formada por pequenos empreendedores que transformam habilidades e paixões pessoais em fonte de renda. Muitos começam de forma artesanal, produzindo em casa e trabalhando sob encomenda, até perceberem que aquilo que era inicialmente uma atividade paralela pode se transformar em um negócio.
A trajetória de Stael Rocha é um exemplo desse movimento. Formada em Direito e com quase dez anos de atuação na área, ela encontrou na cozinha uma nova possibilidade profissional. A paixão por cozinhar, que sempre esteve presente em sua vida, ganhou força durante a pandemia, quando precisou se reinventar.
A experiência de morar durante cinco anos em Caruaru, em Pernambuco, também teve influência direta na escolha do produto que se tornaria seu carro-chefe: o bolo de rolo.
“Como morei em Caruaru/PE por cinco anos, conheci algumas iguarias e, entre elas, o bolo de rolo”, conta.
O início, porém, esteve longe de ser simples. Durante cerca de dois meses, Stael realizou testes até conseguir chegar ao resultado que considerava adequado para comercialização. Foram receitas descartadas, equipamentos adquiridos e tentativas até alcançar o padrão desejado.
Depois, buscou um curso específico sobre bolo de rolo e passou a aperfeiçoar a técnica. A ideia era apresentar em Vilhena uma tradição gastronômica pernambucana que, segundo ela, ainda era pouco conhecida na região.
A partir da boa aceitação, o produto ganhou novas versões. Além do tradicional bolo de rolo de goiabada, Stael passou a desenvolver outros sabores e produtos derivados, como ovos de Páscoa, bolos em camadas e sobremesas.
Com o tempo, a cozinha ganhou ainda mais espaço. Aos sábados, ela também passou a preparar pratos salgados, tendo o yakisoba como carro-chefe.
Quando o negócio deixou de ser apenas um plano B
A mudança mais significativa aconteceu quando a procura pelos produtos começou a representar uma fonte de renda maior do que sua atividade profissional naquele momento.
Foi quando Stael decidiu apostar integralmente na gastronomia.
“Não é fácil ser empreendedora, os desafios são enormes”, afirma.
A experiência revela uma realidade comum entre pequenos negócios gastronômicos: transformar uma habilidade em empresa exige muito mais do que saber cozinhar.
É preciso administrar compras, estoque, desperdício, produção, agenda de encomendas, custos, equipamentos, divulgação e relacionamento com os clientes.
A precificação, por exemplo, é um dos principais desafios. Para quem trabalha de forma artesanal, cada produto envolve ingredientes, embalagens, tempo de produção, energia, equipamentos e mão de obra.
Stael conta que utiliza ferramentas de organização, como planilhas, para calcular os custos e evitar desperdícios.
Redes sociais viraram vitrine
Outro fator importante para os empreendedores individuais é a divulgação. No início, o trabalho de Stael cresceu principalmente por indicação de clientes.
Com o avanço das redes sociais, porém, o alcance aumentou significativamente.
Segundo ela, atualmente cerca de 80% dos pedidos chegam por meio dessas plataformas. A divulgação não fica restrita a Vilhena e já possibilitou atender clientes de outras regiões de Rondônia, inclusive para festas de casamento e aniversários.
A apresentação dos produtos também faz parte da estratégia.
Para Stael, qualidade e estética precisam caminhar juntas. A experiência começa antes mesmo de o cliente experimentar o produto, desde a embalagem e os detalhes visuais até a apresentação final.
Personalização exige planejamento
Outro segmento desenvolvido por Stael são os doces personalizados. Nesse caso, a produção começa muito antes da cozinha.
Ela procura entender o perfil do cliente, a proposta do evento, as características de uma empresa ou o objetivo da encomenda. A partir dessas informações, desenvolve os produtos e busca referências para chegar ao resultado desejado.
A proposta é transformar cada encomenda em algo único, inclusive com o uso de frutas desidratadas, que, segundo ela, acrescentam sabor, beleza e delicadeza às produções.
Esse modelo de trabalho mostra outro desafio dos pequenos empreendedores: quanto mais personalizado o produto, maior é a necessidade de planejamento e controle da produção.
Crescer sem perder o artesanal
Mesmo diante das dificuldades, Stael pretende continuar crescendo, mas sem abandonar a característica artesanal que marcou o início de sua trajetória.
Entre os planos estão ampliar a produção, contratar e qualificar pessoas, distribuir produtos em pontos de revenda e, futuramente, até mesmo abrir um espaço físico.
A história também mostra uma característica presente em boa parte dos empreendedores individuais da gastronomia: o negócio nasce pequeno, muitas vezes dentro da própria casa, e cresce conforme a procura e a capacidade de organização.
Para Stael, os desafios fazem parte do processo.
“Empreender não é fácil, existem desafios e estes existem para serem superados, um a um.”
Em uma cidade que vem ampliando seu roteiro gastronômico, histórias como a dela ajudam a mostrar que a gastronomia de Vilhena não é formada apenas por restaurantes e grandes estabelecimentos. Ela também é construída por pessoas que começaram com uma receita, uma cozinha e a disposição de transformar uma paixão em profissão.
E, para esses empreendedores, crescer significa encontrar o equilíbrio entre manter a qualidade artesanal e, ao mesmo tempo, criar estrutura suficiente para transformar um trabalho individual em um negócio sustentável.