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Há 49 Anos acontecia a Caçambada Cutuba - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Há 49 anos, numa calorenta noite de 26 de setembro de 1962, uma caçamba pertencente à prefeitura municipal de Porto Velho foi lançada contra os partidários do então candidato a deputado federal Renato Clímaco Borralho de Medeiros. Esse episódio ficou conh

Da Redação

19 de Julho de 2011 às 15:47

Foto: Divulgação

 
Há 49 anos, numa calorenta noite de 26 de setembro de 1962, uma caçamba pertencente à prefeitura municipal de Porto Velho foi lançada contra os partidários do então candidato a deputado federal Renato Clímaco Borralho de Medeiros. Esse episódio ficou conhecido como “Caçambada Cutuba”.
Médico, líder da coligação de centro-esquerda, presidente do Partido Social Progressista e comandante-em-chefe dos peles-curtas – grupo que fazia oposição cerrada ao maior cacique político de todos os tempos em Rondônia, o coronel Aluízio Pinheiro Ferreira – Renato encarnava naquele momento a esperança da gente simples, dos desvalidos, ferroviários, desempregados, empregados do comércio e dos que tinha se decepcionado com os mandos e desmandos do chamado “pessoal do Aluízio”, os cutubas, que por anos a fio detiveram a hegemonia política no território federal.
Segundo apurou o jornalista Zola Xavier da Silveira, produtor do documentário “A Caçambada Cutuba”, cerca de 5 mil pessoas participavam do comício renatista na noite da tragédia. Naquele ano, não se sabe bem por que, Aluízio se declarou afastado da política rondoniense, depois de ter vencido três eleições para a Câmara Federal. Todavia, como bom cacique que era, não se inscreveu na corrida eleitoral mas mandou representante: o também coronel Ênio dos Santos Pinheiro, que já houvera sido governador do Território Federal de Rondônia, em 1953, por indicação do mesmo padrinho que o apoiava em 1962. No confronto entre esses dois candidatos, aconteceu a Caçambada. Pesquisadores denunciam que o inquérito instaurado para apurar o caso foi empurrado com a barriga e concluído a meia-sola. A edição do jornal Alto Madeira da época, existente no acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, sugere que, em relação ao caso, havia censura à imprensa por parte do governo aluizista de plantão.
O certo é que até hoje algumas perguntas não querem calar: a Caçambada terá sido o maior atentado político da história de Rondônia? Quantas pessoas morreram, afinal? Foi Aluízio Ferreira que mandou jogar a caçamba contra o povo? Ele queria matar Renato Medeiros? Ou ele queria apenas intimidar seus adversários? Foi o baixo-clero do aluizismo quem mandou atacar os peles-curtas com uma caçamba? A vitória de Renato significaria o fim do aluizismo? Uma coligação de centro-esquerda provocava ira nas hostes conservadoras a ponto de justificar o ataque? Até hoje essas e outras perguntas esperam por respostas.
O fato é que quase defronte ao local da tragédia – na Rua Lauro Sodré, onde funcionou a empresa Rondasa - havia um bordel comandado por uma prostituta de nome Delícia. O local era mal iluminado e nas laterais da rua havia enormes valas que serviam de escoadouro para as chuvas que começam no final de setembro. No clima geral da disputa, os ânimos estavam exaltados.
O getulismo, que dera combustível ao cutubismo e regionalmente consolidara o poder nas mãos de Aluízio Ferreira por muitos anos, perdera força ainda em 1954 com o suicídio do caudilho de São Borjas, Getúlio Vargas. Por outro lado, o carisma de Renato Medeiro empolgava as massas, criava um clima de muita euforia junto aos segmentos de baixa renda e motivava a participação das multidões nos comícios. Além disso, aumentava o tom das vozes críticas ao aluizismo e os setores de esquerda –comunistas, socialistas e idealistas- engrossam as fileiras da tropa partidária de Renato e passam a sonhar com um governo progressista e comprometido com a justiça social; um governo que estivesse sintonizado com os ideais do presidente João Goulart.
Os sonhos forjados ao longo da campanha eleitoral geravam um mar de emoções e deixavam as relações entre cutubas e peles-curtas cada vez mais tensas. Os discursos, ferinos e agressivos, foram utilizados por ambas as correntes políticas como armas letais.
Aluízio Ferreira, pressentindo que os tempos eram outros, apostava todas as suas fichas na eleição do preposto Ênio Pinheiro, para manter Rondônia sob o jugo do coronelismo. Renato Medeiro, vendo emergir o clamor das massas por mudança e sentindo crescer vertiginosamente do anti-aluizismo, investia com grande entusiasmo na sua campanha. A cidade parecia uma panela de pressão pronta para explodir.
Havia um cheiro de violência no ar. O aluizismo parece disposto a endurecer e o renatismo não aceitava ceder um milímetro sequer. As tropas estão prontas para o embate. Faltava um cavaleiro do apocalipse pilotando uma carruagem de fogo, e ele aparece. Não é bem um cavaleiro, mas um simples motorista, pobre, trabalhador, pai de família e mal remunerado. Também não há carruagem de fogo, mas um veículo basculante da prefeitura.
O prefeito naquele momento era o cutuba de primeira grandeza José Salé Morebe. Há quem diga que ele teria confessado em leito de morte ter sido o mandante do atentado. O fato é que um motorista da prefeitura, pilotando um veículo da municipalidade e trafegando na rua Lauro Sodré, do centro para o aeroporto, espalhou morte, dor e aflição entre as pessoas que estavam no comício do candidato Renato Medeiro, que escapara ileso da tragédia.
Pelo menos duas pessoas morreram na hora. Outras teriam ido a óbito no Hospital São José, hoje policlínica da Polícia Militar, para onde acorreu quase toda cidade em busca de notícias de parente, amigos e conhecidos. Entre choros e lágrimas, a Caçambada Cutuba se impunha, naquele momento, como uma sangrenta página histórica na vida dos Guaporés. Seria a caçambada resultado do método militaresco utilizado por Aluízio Ferreira durante seu reinado? Um Coronel queria emplacar novamente outro Coronel a qualquer preço?
Renato Medeiro ganhou a eleição e foi empossado Deputado Federal. Por ironia do destino dois anos depois, em 1964, esses coronéis karipunas bateriam continência para generais de quatro estrelas, que não usavam caçambas para intimidar o povo, usavam tanques de guerra, brucutus, bazucas, metralhadoras e fuzis automáticos, pau-de-arara, espancamento e afogamento. Utilizavam, também, um outro instrumento: o Ato Institucional, com o qual cassaram o mandato do líder Renato Medeiros. Era o fim do mais passional embate da política rondoniense, a peleja medonha e apaixonada entre Cutubas e Peles-Curtas. Por favor, dêem os historiadores uma explicação plausível para o fato, porque, no Cemitério dos Inocentes, os mortos da Caçambada Cutuba todos os dias se perguntam: Por quê???
Documentos comprovam:
MOTORISTA DA CAÇAMBADA CUTUBA
PEDIU PRA MORRER COM TIRO NA CABEÇA
Por Antônio Serpa do Amaral Filho
 
o então deputado federal Renato Medeiros com o presidente João Goulart
Decorridos 49 anos de profundo silêncio em torno da Caçambada Cutuba, documentos revelam, hoje, que o motorista da caçamba, Wilson, arrependido do gesto bárbaro, pediu pra morrer: “Cumpadre, eu fui mandado, você me dê um tiro na cabeça que eu o perdôo”, teria dito, na cadeia, o suposto autor do terrorismo político ao seu compadre e testemunha Ladislau Nunes de Araújo, guarda territorial ouvido no dia 27 de setembro de 1962, pelo juiz Joel de Moura Quaresma, no Processo Criminal nº 3672, instaurado pela Justiça Federal do território para apurar judicialmente o dramático fato social. A fonte é fidedigna: cópias de autos conseguidas pelo jornalista Zola Xavier junto ao Centro de Documentação Histórica do TJ/RO.
O atentado que ceifou a vida de muitos correligionários da Frente Popular de esquerda chocou toda a provinciana Porto Velho de antanho e ocorrera um dia antes, numa calorenta noite de 26 de setembro de 1962, na rua Lauro Sodré, quase chegando na rua Abunã, próximo ao cabaré da Delícia, quando um veículo tipo caçamba, chapa branca, pertencente à prefeitura municipal de Porto Velho, que estava vindo do comício dos cutubas, no bairro do Areal, foi lançado contra os partidários do então candidato a deputado federal Renato Clímaco Borralho de Medeiros, presidente do Partido Social Progressista e líder dos Peles-Curtas, que disputava a vaga parlamentar com o coronel Ênio dos Santos Pinheiro, que já houvera sido governador do Território Federal de Rondônia em 1953, por indicação do mesmo padrinho que o apoiava em 1962: o também coronel Aluízio Pinheiro Ferreira, chefe dos Cutubas (partidários do aluizismo) e maior liderança da história política de Rondônia. O prefeito da época era o cutuba sangue puro José Saléh Morheb. Os mais velhos dizem que muita gente morreu, mas não se tem até hoje a contabilidade desses mortos.
Com certa dose de ironia a atormentar a amnésia dos guaporés, está escrito em latim na capa do que restou dos registros penais do episódio da Caçambada Cutuba que o processo criminal é do tipo Ad Perpetuam Rei Menoriam, isto é, para a perpétua memória do fato. Se assim deseja o Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia e a deusa Thêmis, que usa venda nos olhos, mas não é doida varrida, vale registrar para os anais da história que foi o advogado Fouad Darwich Zacharias o causídico que arrolou e requereu a inquirição dos guardas territoriais José Faustino de Oliveira, José Rodrigues Maciel e Ladislau Nunes de Araújo, como testemunhas. Era a reação Pele-Curta ao atentado.
Às dez da manhã do dia 27, no Fórum Ruy Barbosa, a postos o escrivão Durval Gadelha, o Dr. Hélio Fonseca, Promotor Público Substituto, o Dr. Fouad Darwich e o juiz Joel Quaresma de Moura, as três testemunhas foram ouvidas pela justiça. Revelou o depoente Ladislau “que diversas vezes repetiu o preso ao depoente que havia sido mandado e pediu que lhe desse um tiro na cabeça”; “que perguntou-lhe mais o depoente se estava embriagado ao que o preso em questão lhe disse que não, que estava bom”; “que esclarece o depoente que fez essas perguntas ao preso enquanto estava trancando a cela”. Na versão do guarda José Maciel, depois de introduzi-lo na cela, o guarda Ladislau lhe perguntou: “Cumpadre porque é que você fez isso?” “Que respondeu ele numa expressão equivalente ao sentido de dizer que estava desgraçado” Para uma quarta testemunha a depor no processo, o senhor João Marques Vasconcelos, também da Guarda Territorial, o diálogo dele com o motorista da caçamba teria sido o seguinte: “Compadre, você que é chefe de família, como é que foi meter-se numa enrascada dessa?” Então o preso respondeu “aproximadamente com essas palavras: fui mandado para distribuir o pessoal do comício e ao chegar próximo do lugar do comício, quando vi a massa procurei estacionar o carro mas o freio enganchou no acelerador e quanto mais pisava no freio, mais acelerava o carro”. Não há nos documentos pesquisados nem a peça de interrogatório do motorista da caçamba nem a sentença, condenando ou absolvendo o réu. A justiça rondoniense deve saber explicar o porquê.
Para os que acham que a Caçambada Cutuba é um delírio inventado ao sabor do revanchismo histórico, a voz da perpétua memória do fato fala mais alto nos dizeres que um serventuário da justiça deixou escrito na folha de rosto do documento conseguido por Zola Xavier, o Caçador de Alfarrábios da Biblioteca Nacional:
“Obs: O sr. Wilson de Tal, motorista da Prefeitura Municipal de Porto Velho, investiu com o caminhão contra o povo num comício político. Segundo testemunhas, o criminoso alega ter sido a mando de alguém”.
Saber quem deu a sinistra ordem ao humilde motorista da prefeitura continua sendo um segredo insondável, incrustado na região subcutânea da página histórica sentimentalmente mais eloqüente da política regional: o apaixonado embate entre as belicosas nações dos Cutubas e Peles-Curtas. 
Direito ao esquecimento

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