‘SALGADEIRO DA FÉ’: Porto-velhense é impedido de trabalhar e relata sofrimento por falta de cirurgia no SUS

Douglas do Nascimento dispõe de três encaminhamentos para cirurgia eletiva desde 2025, mas continua com dores contínuas; na rede privada, procedimento por raspagem e aplicação de laser custa R$ 10 mil

‘SALGADEIRO DA FÉ’: Porto-velhense é impedido de trabalhar e relata sofrimento por falta de cirurgia no SUS

Foto: O Salgadeiro da Fé em visita à redação do Rondoniaovivo

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Douglas do Nascimento, 26, é conhecido como ‘Salgadeiro da Fé’ e está impossibilitado de realizar sua atividade de vendedor autônomo devido à falta de agendamento para um procedimento cirúrgico na rede pública de saúde de Rondônia. Há oito anos ele trabalhava vendendo pelas ruas de Porto Velho (RO), utilizando uma bicicleta cargueira.
 
Atualmente, ele passa os dias de repouso, com dores intensas na região íntima, além de episódios recorrentes de tontura e quedas na rua. Nascimento vive com sua mãe, Darcilene Araújo, e a renda da casa dependia integralmente de suas vendas, visto que ele não recebe benefícios governamentais ou previdenciários. Devido ao quadro clínico e ao estado de ansiedade, ele conta que não consegue ingerir alimentos sólidos, e se alimenta apenas de sopa - sofrendo frequentes vômitos.
 
De acordo com o salgadeiro, as lesões genitais surgiram após uma cirurgia de fimose, realizada em fevereiro de 2023 no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, unidade sob gestão do governo estadual. Nascimento aponta que o aparecimento das duas verrugas genitais ocorreu de forma subsequente a essa intervenção cirúrgica, sem histórico ou diagnóstico prévio. 
 
 
FOTO: Douglas tentou pedir ajuda do gabinete de uma deputada estadual, mas até o momento ainda não conseguiu a cirurgia / Rondoniaovivo
 
Diante do agravamento das lesões íntimas e da falta de resolução na rede de saúde, a mãe de Nascimento protocolou uma representação formal junto ao Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO) no ano de 2023. Conforme o relato da família, não houve manifestação ou resposta do órgão de controle sobre o caso nos últimos três anos.
 
A reportagem teve acesso à três guias de encaminhamento de risco cirúrgico emitidas pela rede municipal de saúde de Porto Velho, atestando a aptidão clínica para a cirurgia desde o ano de 2025. No entanto, Nascimento não obteve o agendamento do procedimento na regulação da rede estadual. Ao buscar atendimento no Centro de Especialidades Médicas (CEM) do Estado, ele relata que o médico urologista recusou seus documentos clínicos. 
 
"Ele pegou meu papel e jogou. Falou: 'Filho, eu não posso fazer nada por você'", declarou o trabalhador. Após o episódio, Nascimento relata ter pensado em cometer suicídio na unidade de saúde. Mais recentemente, em consulta realizada no dia 28 de julho de 2026 na Policlínica Oswaldo Cruz, o médico cirurgião-geral não assinou a liberação cirúrgica e determinou o retorno do paciente para a fila de espera do urologista estadual.
 
Nascimento afirma ter sido informado por servidores públicos que o agendamento não é liberado pela regulação estadual devido ao baixo custo financeiro do procedimento. "O médico do governo não quer liberar cirurgia para mim porque seria muito barato para eles fazer a cirurgia", declarou ele para Rondoniaovivo
 
Em consultas na rede privada de saúde, o orçamento apresentado para a cirurgia de raspagem e aplicação de laser na região afetada foi estabelecido em R$ 10.000,00. 
 
Como ajudar
 
Sem recursos financeiros próprios, o trabalhador realiza uma campanha pública de doações Pix pela chave de telefone (69) 9309-4032 para tentar custear a operação de forma particular
 
 
FOTO: O pai de Douglas conta que o trabalho do filho também tinha características comunitárias; ele doava salgados para quem não podia comprar / Rondoniaovivo
 
A redação do jornal entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e com a Secretaria de Estado de Comunicação (Secom-RO) para obter esclarecimentos técnicos sobre os critérios de regulação do procedimento do paciente e o fluxo de atendimento especializado em urologia. 
 
Procurada por Rondoniaovivo, a Assessoria de Comunicação do Ministério Público de Rondônia informou que realizou buscas nos arquivos físicos e digitais das Promotorias de Justiça da Saúde (municipal e estadual) e no sistema de registro anterior do órgão (sistema Parquet) relativo ao ano de 2023, mas não localizou nenhum procedimento ativo ou representação formalizada. A instituição levantou a hipótese de que os familiares tenham comparecido apenas para orientação verbal, sem registro de protocolo formal, mas ressaltou que a Promotoria da Saúde está à disposição da família para formalizar a reclamação de forma imediata e adotar as medidas necessárias.
 
O Ministério Público ressaltou que todas as guias do paciente constam no sistema sob o status de "demanda eletiva", sem prioridade de urgência ou emergência, sob a justificativa de que não há registro administrativo no SISREG de que o paciente encontre-se acamado.
 
A assessoria de comunicação do governo estadual informou que recebeu a demanda e está providenciando as informações, mas não encaminhou posicionamento formal até o fechamento desta reportagem. 
 
O espaço permanece aberto para manifestação.
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