Muito antes de o restaurante moderno chegar ao Brasil, o país já tinha seu próprio jeito de comer fora coletivo, ruidoso e profundamente ligado aos caminhos do interior. Eram as casas de pasto, estabelecimentos que marcaram o período colonial e serviam de abrigo e sustento para tropeiros e viajantes.
Sem cardápio, sem formalidades e guiadas quase sempre pelo cheiro que escapava das panelas, essas casas ofereciam refeições simples e fartas: carne frita na gordura, feijão borbulhando no fogão, café passado em chaleira de ferro. O nome, ao contrário do que muitos pensam, não vinha do pasto do gado, mas do verbo pastar alimentar-se.
Funcionavam como uma mistura de taberna, estalagem e sala de conversa. Ali, estranhos dividiam a mesa, compartilhavam arroz, feijão, farinha e histórias de estrada. Enquanto a França inventava o restaurante com menu e etiqueta, o Brasil moldava um modelo próprio de sociabilidade à mesa, marcado pelo improviso e pela generosidade.
Esses espaços foram o berço da comida brasileira tal como a conhecemos hoje. Com o tempo, deram origem a botequins, pensões e, mais tarde, aos restaurantes. Mas não desapareceram completamente: em muitas cidades do interior, ainda é possível encontrar letreiros anunciando “Casa de Pasto”, memória viva de uma tradição que resistiu à modernização.
A história desse costume é tema da dissertação “Das casas de pasto aos restaurantes: Os sabores da velha Curitiba (1890-1940)”, de Deborah Agulham Carvalho, que investiga como esses lugares ajudaram a moldar os hábitos alimentares do país. O estudo recupera a transformação das antigas casas de pasto em estabelecimentos mais próximos dos restaurantes atuais, sem perder de vista o papel afetivo desses primeiros espaços de comer fora.
Hoje, quando a gastronomia virou experiência e a mesa ganhou protagonismo, lembrar das casas de pasto é revisitar uma época em que comer fora era menos sobre escolha e mais sobre encontro.