TERRAS NA AMAZÔNIA: Instituto elabora estudo que culpa Estados pela não regularização

O relatório destaca “dez fatos essenciais sobre regularização fundiária na Amazônia Legal”.

TERRAS NA AMAZÔNIA: Instituto elabora estudo que culpa Estados pela não regularização

Foto: Divulgação

 

Estudo do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) lançado nesta quarta-feira (24/03) derruba mitos espalhados pelo governo Bolsonaro sobre regularização fundiária, apontada como solução mágica para o desmatamento, e revela que o principal entrave à medida vem dos Estados: eles são responsáveis por 60% da terra não destinada na Amazônia Legal.
 
Portanto, diferentemente do que afirma a atual gestão, o problema não seria resolvido com uma mudança na lei federal. Na verdade, isso acaba estimulando novas ocupações de terras públicas.
 
O trabalho é resultado de levantamento de dados federais e estaduais nos últimos cinco anos, que envolveu entrevistas com representantes dos institutos de terra e de outras instituições, além da revisão da legislação fundiária dos nove Estados da Amazônia.
 
 
O relatório destaca “dez fatos essenciais sobre regularização fundiária na Amazônia Legal”. E aponta como as leis e políticas fundiárias atuais acabam estimulando o desmatamento e a grilagem:
 
1 – Uma das principais constatações da análise é a de que quase um terço (28,5%) do território amazônico não possui informações públicas sobre destinação fundiária – se são áreas protegidas, devolutas, assenta­mentos ou imóveis privados. Entre 2013 e 2020, período em que o desma­tamento voltou a subir na Amazônia, 40% da perda de florestas ocorreu em áreas com indefinição fundiária.
 
2 – Os governos estaduais são os principais responsáveis pela área sem definição fundiária na Amazônia, mas falta pla­nejamento para controle e destinação desse território. Os pesquisadores estimam que os governos estaduais sejam responsáveis por decidir sobre o destino de 86,1 milhões de hectares, ou 17% da Amazônia Legal. Essa área corresponde a 60% das áreas não destinadas ou sem informação sobre destinação na região. Ou seja, cabe aos Estados resolver a maior parte do problema.
 
3 – Quase metade (43%) do território sem definição fundiária possui prio­ridade para conservação, mas os procedimentos atuais não ga­rantem a destinação do território para essa finalidade. De acordo com a Constituição, terras públicas necessá­rias para a proteção ambiental não podem ser privatizadas. Mas esse dado não é levado em consideração nos processos de regularização fundiária.
 
4 – A burocracia estatal envolve pelo menos 22 órgãos com atribuição para algum tipo de regularização fundiária na Amazônia.
 
5 – A desorganização das bases de dados fundiários e a bai­xa adoção de tecnologia dificultam a organização de um cadas­tro de terras único ou compartilhado.
 
6 – A maioria das leis estaduais incentiva a contínua inva­são de terras públicas. Isso ocorre porque poucas leis estaduais determinam a data limite em que um particular pode iniciar uma ocupa­ção para receber um título de terra. Mesmo aquelas que possuem um prazo acabam sendo alteradas para adiá-lo.
 
7 – Nenhum Estado proíbe a titulação de áreas desmatadas ilegalmente e a maioria não exige compromisso de recuperação de passivo antes da titulação.
 
8 – A população brasileira subsidia a privatização de terras na Amazônia, sem garantias de uso sustentável dos imóveis titulados. Em média, os governos estaduais cobram 15% do valor de merca­do para regularizar uma terra e o governo federal cobra 26%, considerando os valores usa­dos como base para o cálculo do preço final.
 
9 – Faltam transparência e controle social sobre a privatiza­ção do patrimônio público fundiário.
 
10 – Houve mudanças em sete leis fundiárias na Amazônia desde 2017 para facilitar a privatização de terras públicas.
 
Além de apontar os principais problemas, o estudo faz o que o governo não fez: indica recomendações para que as leis e práticas de regularização fundiária possam, de fato, contribuir para a redução do desmatamento.
 
Para a pesquisadora Brenda Brito, que coordena o trabalho, projetos de lei que tramitam no Congresso com apoio do governo para alterar a legislação fundiária vão na direção contrária: “As alterações propostas no PL 2.633/2020 e no PL 510/2021 podem reafirmar vários dos incentivos à grilagem que identificamos em nosso estudo, pois possuem brechas que podem permitir a titulação de terras públicas invadidas futuramente, não impedem a titulação de áreas recém-desmatadas e também afrouxam a cobrança de dívidas de quem já recebeu título e não pagou”.
 
Medidas apontadas no estudo como eficazes para o combate ao desmatamento, como a criação de Unidades de Conservação e o reconhecimento de territórios Indígenas e quilom­bolas, foram abandonadas pelo governo Bolsonaro.
 
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