Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Foto: Divulgação

 

HELVIO LIMA – Uberlândia, MG. Nosso colaborador

 

Histórias da minha vida

 

Vida em retrospectiva

 

Adélia chegou assustada do escritório, com aquele cheiro forte de queimado na casa da José Andraus. Pus fogo nos desenhos, queimei praticamente todas as pinturas, fruto de oito anos de trabalho. Aos poucos meses de vida nova, preocupado com as obrigações do presente e a incerteza do futuro, achava que aquela obsessão pela arte não me levaria a lugar algum e definitivamente precisava parar. Então pus fogo nas artes que guardava sem saber para quê. Nessa altura dos acontecimentos, tinha já realizado três exposições individuais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, onde estudara, participado em algumas exposições coletivas e recebido um prêmio no Salão de artes promovido pelo Conservatório de Música e júri de professores da Faculdade de Artes. Mas, eu me lembrara do que o meu pai sempre dizia: -precisa saber matemática, trabalhar no Banco do Brasil ou fazer medicina. Isto aí que você mexe é um “zero à esquerda”, pode te levar à boemia e extrema pobreza! Dependendo do grau cultural das famílias simples tudo o que um pai não gostaria de ter era um filho artista ou poeta... Em aritmética sempre fui fraco, então adeus Banco do Brasil e medicina nunca foi minha vocação. Tinha que arrematar de vez com esta história e encontrar o meu próprio caminho.

Adélia ficou muito brava quando chegou em casa e sentiu aquele fedor de queimado. -Isto não se faz, porque você fez esta loucura? Eu disse a ela minhas razões. Ela não concordou com nenhuma delas e buscou incentivar-me a começar tudo de novo e descobrir os verdadeiros significados da arte em minha vida. Se às vezes dou razão ao meu pai em algumas partes quando os empecilhos de superfície se multiplicam muito facilmente no caminho noutras tantas esqueço completamente porque o sonho é mais.

E a recaída chegou logo. Nos meses seguintes, comecei a pintar feito louco. Chegava do trabalho, enveredava noites afora no meio das tintas à óleo, os pastéis e os guaches. Eu queria refazer tudo, lembrar-me daqueles trabalhos aos quais mais me apegara, mas não conseguira reproduzi-los novamente. Num passeio a São Paulo, vira no MASP, uma exposição de expressionistas alemães com os quais o meu trabalho incinerado poderia ter alguma identidade. Fiquei pesaroso de ter destruído um bom pedaço de mim. Fazer tudo de novo, impossível, não consegui!

A vida continuou feliz entre o trabalho necessário à sobrevivência e o caminhar pelas artes. A partir do final da década de setenta a busca de uma temática, a pesquisa em torno de minhas próprias origens, a série Operários/Campônios, a minha história em desenhos e pinturas, a homenagem aos meus pais operários.

Aí o destino entrou novamente em cena para mostrar-me a necessidade da criatividade, a importância da arte. Numa manhã de março de 1981, eu não trabalhava aos sábados e o telefone tocou. Era dona Lourdes Saraiva, uma colecionadora e marchand das artes que, naquela época, estimulava minha carreira. -Helvio, você tem quadros lá na vidraçaria que pegou fogo esta noite? Eu que nem sabia desse incêndio, atônito, acordei para a tragédia e disse: -Tenho quase uma exposição inteira lá para ser emoldurada para a exposição que se iniciará na semana que vem na Galeria Paulo Carrara, 27 obras em desenhos e pinturas... Ela disse: -Corre lá, meu filho, quem sabe se salvou alguma coisa sua do incêndio!!! Mas, decepção, o prédio fumegava... Apenas dois desenhos emoldurados com vidro , que ficaram encostados na porta da entrada, sobreviveram.

Uma semana depois a exposição aconteceu com sucesso. Reuni algumas telas e desenhos que restaram desta série Operários/Campônios, fruto de uma pesquisa desenvolvida ao longo de três anos. Neste ano de 1981 fui escolhido para representar Uberlândia em Belo Horizonte, com quinze obras da série Operários, na Coletiva Artistas Mineiros, no Palácio das Artes. Uma obra desta série recebeu o 1º Prêmio em salão no Estado do Paraná e outra em Salão de Artes nos Estados Unidos.

A década de oitenta foi muito importante para a difusão da minha obra em Uberlândia, outras cidades brasileiras e pequena incursão pelo exterior. Participei em inúmeros salões de arte, sendo classificado ou premiado em vários deles, no Brasil e fora dele.

Eu digo a todos com firmeza, lutar e acreditar é preciso. E eu continuo na luta. Taurino, teimoso, do dia de São Jorge, apesar dos mares tenebrosos nos quais navegamos no Brasil e no mundo. Já não amanheço e anoitece no atelier, só de vez em quando, e não tenho nenhuma intenção de destruir minha obra porque isto não me levaria a lugar algum. A ternura que eu sinto pela arte é cada vez maior. Sou grato às pessoas maravilhosas que desde sempre tem me estimulado a seguir em frente. Oportunidade que a vida nos concede a arte é o meu bem maior, um presente que Deus me enviou.

 

Helvio Lima . 2017

 

Direito ao esquecimento

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