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Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Por Selmo Vasconcellos

09 de Novembro de 2020 às 11:06

Foto: Divulgação

ASTRID CABRAL

Astrid Cabral Felix de Souza (Manaus, AM, 25 de setembro de 1936). Poetisa e contista. Viúva do poeta Afonso Félix de Souza.

 

RITUAL

 

Todas as tardes

rego as plantas da casa.

peço perdão às arvores

pelo papel em que planto

palavras de pedra

regadas de pranto.

 

O ANJO BOM

 

Entre montanhas de roupas

e colinas-pilhas de louça

afogava-se nas águas

de pias, tanques, baldes,

e mágoas represadas.

E perseguia a poeira

e a fome num desvelo

que era novelo sem fim

desenrolando-lhe os dias.

Onipresente, mas tão muda

que se fazia invisível,

era o anjo bom do lar

- exilada sem asas –

no chão do seu inferno.

 

PERFIL

 

Dona de casa

dona de nada

escrava de lavras

à terra amarrada.

Mãe de família

mãe de alegrias

entre lutos e sustos.

Jaqueira imensa

cheia de frutos.

Poetas nas horas vagas?

Poeta nas horas plenas

embora raras...

o mais, não vale a pena.

 

FEBRE

 

Tanta a febre de deter o instante

e sempre os rios a correrem

(enchente ou vazante)

 

A INÚTIL LUTA

 

A ginástica diária

a cirurgia plástica

a peruca de luxo

a máscara cosmética

o último grito da moda.

Contudo com ressaibo sabe:

para o estrago interior

não há remédio nem remendo.

A juventude? Exilada

em antigos retratos

recordações já trôpegas.

O coração? Ameaçado

não de paixão, mas de taxa

do colesterol em alta.

 

PONTO DE CRUZ

 

 

Lá fui eu ao armazém

comprar açúcar e mel.

Voltei com um quilo de sal

na boca o gosto do desgosto

lágrimas no rosto embutidas.

No balcão ao pedir vinho

vinagre me foi servido,

queria um maço de fogos

chuvas de prata e estrelas

para comemorar à noite

porém só havia velas

com que imitar o dia.

Lá fui eu ao armarinho

(tangida por que ventos

por que pérfidas sereias?)

comprar um dedal de amor.

Voltei com este coração

são sebastião de alfinetes.

O peito? retrós entaniçado

por mil linhas de aflição

euzinha toda por dentro

que nem pano em bastidor:

bico de agulha finoferoz

sobe-desce-sobe bordando

minha vida em ponto de cruz.

Direito ao esquecimento

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