Se estivesse vivo, o mestre Dorival Caymmi completaria 112 anos neste 30 de abril de 2026. Uma data importante que não deveria passar em branco na mídia. Caymmi é e sempre será um manancial de canções deliciosas, delicadas, inspiradas e definitivas.
Caymmi é único e jamais haverá outro. Sendo insubstituível, como artista e pessoa, o mestre merece todas as menções, honrarias e homenagens. Ele, há muito tempo garantiu seu nome no rol dos grandes nomes da música brasileira, de todas as épocas.
Seja interpretando suas canções praieiras ou sambas-canção, cantigas de roda ou folclóricas, o mestre Dorival Caymmi sempre foi um artista carismático, com talento ímpar e um jeito de cantar e compor que não deixou herdeiros. Caymmi é um artista único, inimitável, inesquecível e imortal.
Mestre da concisão, inclusive na quantidade de composições que deixou como legado, apesar de pequena, sua obra é impecável. Por exemplo: "Quem Vem pra Beira do Mar", "Marina", "O Que É Que a Baiana Tem?", "Peguei um Ita no Norte", "Só Louco", "Nunca Mais", "Dora", "O Mar", "365 Igrejas", "João Valentão" e tantas outras fazem parte de seu rico cancioneiro. Mas para mim, "Saudade da Bahia", cantada em dueto com Tom Jobim, é a sua obra-prima. Houve uma vez Dorival Caymmi e nunca mais haverá outro igual.
DNA Caymmi
Quem nunca ouviu uma composição do inesquecível Dorival Caymmi? Pode até não ligar o criador à criação, mas sem dúvida conhece. Por exemplo, o tema de abertura da novela "Gabriela", com Sônia Braga, "Modinha para Gabriela", gravada por Gal Costa, é dele. Outro tema: o da Tia Anastácia, do Sítio do Picapau Amarelo, é composição do mestre Caymmi, cujo talento foi herdado pelos filhos: o compositor, arranjador, instrumentista e cantor Dori, o flautista e compositor Danilo e a intérprete Nana Caymmi. Isso sem falar na genitora, Stella Maris, que foi cantora antes de casar com Dorival.
O talento também está no DNA da neta Stella Caymmi, filha de Nana, jornalista, pesquisadora e autora de três livros sobre o avô. Primeiro a biografia "Dorival Caymmi: O Mar e o Tempo", uma obra definitiva sobre o compositor. Depois, com a mesma qualidade de pesquisa e texto, saiu o livro "Caymmi e a Bossa Nova". Por fim, mas não menos importante, "O Que É Que a Baiana Tem? Dorival Caymmi na Era do Rádio".
Stella, como podemos constatar ao ler seus livros, é a pessoa com mais cacife para contar a história do avô. Afinal, ela conviveu com o biografado, conhece tudo e mais um pouco sobre a carreira, a trajetória e as músicas do patriarca da família Caymmi. A autora, nos três livros, cobriu quase todas as fases e facetas do "Buda Nagô", como cantou outro baiano ilustre, Gilberto Gil.
É apenas questão de tempo para Stella nos brindar com mais um livro focado em Dorival ou, quem sabe, as biografias dos tios, cujas trajetórias são ricas como a do patriarca. Talvez, a biografia da sua mãe, Nana Caymmi, que tem história para mais de um livro. Talento faz parte do DNA desta família especial chamada Caymmi.
Quatro vezes Caymmi
Os sambas, as canções praieiras, as cantigas de roda, os sambas-canção, a voz inconfundível e o violão de Dorival Caymmi são motivos de emoção e enlevo. Quem vem para a beira do mar nunca esquece o samba dessa terra e nunca mais quer voltar. Seja Dora, Marina ou Anália, o canto do mar encanta o pescador protegido de Iemanjá, e seu maior bem não está apenas na terra, mas no mar.
Caymmi, ao cantar, encanta o vento, faz mudar o tempo e a jangada penteia as ondas como se fossem os longos cabelos de Mãe Iemanjá, cuja beleza se reflete na Lagoa do Abaeté. Caymmi, que saudade de você, do João Valentão, da rainha do frevo e do maracatu, dos barquinhos brancos, do dia 2 de fevereiro, das 365 igrejas. Mas acontece que ele era baiano, mas eu não sou. Caymmi, tão apaixonado pelo mar, que até casou com uma mulher que tinha Maris no nome: sua Stella, mãe de Nana, Dori e Danilo, todos herdeiros do talento do pai. Caymmi, o mar quando quebra na praia é bonito. Amigo de Jorge Amado, Carybé, Tom, Vinicius, Neruda, Mãe Menininha e tantos mais. Caymmi, que mora no céu chamado Maracangalha. Caymmi é eterno em suas canções.
Reverenciando o mestre
Que Dorival Caymmi é um dos mais inspirados compositores do mundo, isso não se discute. E quem diz o contrário é ruim da cabeça. Sua obra, tão rica, continua cativante e existem alguns bons livros sobre sua música, vida e carreira, além dos lançados pela neta coruja.
O cancioneiro do compositor também saiu em livro, hoje encontrado apenas em sebos. Isso sem mencionar a caixa com a discografia quase completa, antologias e os CDs gravados pelos filhos Dori, Nana e Danilo em tributo ao pai.
Dois ótimos exemplos são os CDs Dori Caymmi – Tome Conta de Meu Filho, que Eu Também Já Fui do Mar" e Nana Caymmi – "Quem Inventou o Amor". Ambos com repertório de Dorival e títulos tirados de trechos de duas de suas belas composições. A primeira é da canção praieira "Promessa de Pescador". O segundo, do samba-canção "Nem Eu".
Caymmi está eternizado pelas ondas do mar que banha o Olimpo dos deuses da música e da poesia. Caymmi é eterno porque suas canções serão sempre lembradas e cantadas, se não pelos fãs, pelos talentosos filhos que herdaram sua musicalidade, talento, sensibilidade e inspiração.
Quem ouve Dorival Caymmi nunca mais esquece
Dora, Marina, Adalgisa, Tia Anastácia, Quem Vem pra Beira do Mar, 365 Igrejas, Vatapá, Uma Viagem, O Bem do Mar, Saudade da Bahia, João Valentão, Nem Eu, Só Louco, Modinha para Gabriela, O Mar, São Salvador e tantas outras lindas canções fazem parte do rico repertório do mestre Dorival.
Caymmi compôs pouco mais de 100 canções. No entanto, com seu esmero e cuidado com a palavra e a melodia, fazem desta produção algo incomparável por toda sua beleza, seja nas canções praieiras, sambas, sambas-canção e motivos folclóricos.
O artista colocou sua alma e coração em cada uma de suas memoráveis composições, a maioria contidas na belíssima caixa "Caymmi: Amor e Mar", que traz 15 discos reunidos em sete CDs. Uma das pérolas, sem dúvida, é o LP em que Caymmi interpreta músicas de Ary Barroso e este toca ao piano as do baiano. Imperdível. Inesquecível.
Salve Caymmi, mestre eterno da música brasileira.