Segundo a nota oficial da instituição, à qual o Painel Político teve acesso em primeira mão, a sequência dos fatos seria a seguinte:
Os recursos saíram de uma conta corrente da própria UNNESA em uma instituição bancária de Porto Velho;
O saque foi realizado pelo diretor financeiro da entidade, Mário Leonir Schwaab, que ocupa a função há mais de 15 anos;
Schwaab transportou pessoalmente os valores da agência bancária até a sede da UNNESA, onde o dinheiro seria utilizado para as operações da instituição;
Toda a movimentação foi registrada previamente pelo banco e pela contabilidade da UNNESA, em conformidade com a legislação federal.
A instituição enfatiza que a operação ocorreu "no âmbito privado da entidade, à luz do dia, com transparência e regularidade" e que os documentos foram entregues espontaneamente às autoridades após a abordagem policial.
"A movimentação foi registrada previamente pelo banco e pela contabilidade da UNNESA, em conformidade com a legisração federal e com os controles exigidos para esse tipo de operação", diz o documento oficial da instituição.
A versão da PF e o que está em xeque
A nota oficial da Polícia Federal, divulgada no dia 3 de agosto, informou que os valores em espécie eram transportados "sob escolta armada" e sacados sob "justificativa incompatível com o real destino dos recursos".
A reportagem do G1 Rondônia acrescentou que a operação foi conjunta e que o veículo interceptado contava com seguranças armados — elemento que, à primeira vista, reforçaria a suspeita de irregularidade.
Mas a documentação apresentada pela UNNESA coloca uma pergunta central sobre a mesa: se o dinheiro tinha origem bancária identificada, saqueador conhecido, destinatário declarado e registro contábil prévio, qual seria o elemento concreto que justificava transformar uma movimentação financeira privada em episódio policial de tamanha exposição?
Ter dinheiro em espécie não constitui crime por si só. O volume de recursos pode justificar questionamentos, mas não permite, isoladamente, concluir pela existência de ilícito. A PF tem competência e obrigação de investigar indícios de crimes de sua atribuição. O problema surge quando a repercussão da ação policial chega antes da comprovação da existência do próprio ilícito.
O risco do ano eleitoral
Rondônia está em pleno período eleitoral. O estado vive uma das disputas majoritárias mais acirradas do país, com quatro candidatos viáveis ao Governo e uma fragmentação partidária que torna cada notícia de impacto potencialmente decisiva para a formação da opinião pública.
Nesse contexto, operações ostensivas da Polícia Federal exigem cautela redobrada. Uma apreensão de R$ 2 milhões vira manchete em minutos. A posterior comprovação da regularidade, quando acontece, dificilmente recebe a mesma exposição.
"Se não existir outro elemento investigativo além da existência do dinheiro em espécie, a PF poderá ter produzido muito barulho para apreender um recurso que tinha dono identificado, origem bancária declarada, responsável pelo saque conhecido e que já estava exatamente onde, segundo a instituição, deveria estar: dentro da própria UNNESA."
A apresentação dos documentos pela UNNESA não impede a continuidade das investigações nem significa, por si só, que a Polícia Federal tenha reconhecido a regularidade da operação. A PF pode ter outros elementos sob sigilo que justifiquem a abordagem — informações de inteligência, denúncias anônimas, dados de monitoramento financeiro que ainda não foram tornados públicos. Mas, até o momento, o que se sabe é que a instituição apresentou uma versão documentada e detalhada da origem dos recursos que contradiz a narrativa inicial de "justificativa incompatível com o real destino".
O setor educacional e as operações policiais em ano eleitoral
A UNNESA é uma sociedade educacional com atuação consolidada em Rondônia. Mantém a Faculdade Metropolitana de Porto Velho e outras unidades de ensino superior no estado. Em 2020, a Ser Educacional (SEER3) adquiriu a UNESC (Sociedade Educacional de Rondônia), outra grande mantenedora do estado, por R$ 120 milhões — o que demonstra o valor econômico e a relevância do setor educacional privado na região.
A FIMCA (Faculdades Integradas de Rondônia), ligada à UNNESA, lidera o ranking de instituições de ensino superior privadas do estado e está entre as quatro melhores da Região Norte, segundo indicadores de qualidade do MEC/Inep.
O setor educacional privado em Rondônia, como em todo o Brasil, movimenta volumes expressivos de recursos — mensalidades, repasses do FIES, contratos com o poder público, investimentos em infraestrutura. A movimentação de dinheiro em espécie, embora cada vez menos comum no Brasil digital, ainda ocorre em operações de caixa de instituições que precisam pagar fornecedores, funcionários e despesas operacionais.
A questão que fica é se a PF tinha informações suficientes para justificar a abordagem antes de produzir a manchete — ou se a ação foi desencadeada por uma denúncia que, uma vez confrontada com a documentação da própria instituição, perdeu seu fundamento inicial.
O caso da UNNESA não está encerrado. A PF pode ter outros elementos que justifiquem a investigação — e a apresentação de documentos bancários não exclui a possibilidade de que outros ilícitos estejam sendo apurados. Mas a documentação entregue pela instituição altera substancialmente o cenário que foi apresentado à opinião pública no dia 3 de agosto.
Se a versão da UNNESA for confirmada integralmente pelas autoridades, a operação terá sido, no mínimo, um exemplo de como a velocidade da ação policial pode superar a profundidade da apuração — com consequências desproporcionais para a reputação de uma instituição que, segundo seus próprios registros, estava apenas movimentando recursos próprios de uma conta para a outra. E em ano eleitoral, esse tipo de "barrigada" não é apenas um erro operacional. É um risco institucional que afeta a credibilidade da própria PF e pode produzir efeitos políticos irreversíveis.
A pergunta que o caso deixa é simples: o que a PF sabia no dia 3 de agosto que justificava a apreensão, e quanto dessa informação foi efetivamente checada antes de o veículo ser interceptado e de R$ 2 milhões virarem manchete nacional? Se a resposta for "apenas que havia dinheiro em espécie sendo transportado", então a investigação pode ter começado pelo fim — e a explicação, se vier, será sempre uma nota de rodapé em uma história que já fez seu estrago.