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ECONOMIA VERDE: Farinheira é beneficiada com recurso do crédito de carbono

Grupos familiares nas comunidades da Reserva Extrativista Rio Cautário, em Costa Marques, onde o extrativismo é a grande alavanca para o projeto de crédito carbono dar certo, produzem com o melhor da terra

GOVERNO DE RO

14 de Outubro de 2020 às 14:32

Atualizada em : 14 de Outubro de 2020 às 14:45

Foto: Divulgação

Grupos familiares nas comunidades da Reserva Extrativista Rio Cautário, em Costa Marques, onde o extrativismo é a grande alavanca para o projeto de crédito carbono dar certo, produzem com o melhor da terra. São 26 famílias que vivem em atividades diversas nessa região, especialmente com a colheita da castanha, do látex, e o plantio de feijão, milho e frutas.
 
O Governo de Rondônia acompanha o início da execução do Projeto REDD+ da Resex Rio Cautário, onde algumas famílias já recebem bolsa mensal de R$ 1 mil como estímulo, a partir de contrato do Governo de Rondônia com uma empresa de investimentos e proteção ambiental para a obtenção de créditos de carbono.
 
Extrativistas e indígenas mantêm a floresta em pé há décadas. Na Comunidade Laranjal, Maria Silva Costa, 53 anos, consolida um trabalho que já dura 21 anos. Ninguém a chama pelo nome, mas por dona Bahia. A qualquer hora que o visitante bater à porta do barracão, ela está presente. Pouco descansa, mexe a massa com as mãos e movimenta dois fornos artesanais num ritmo incessante que lhe garante a produção diária.
 
Se a produção não para é sinal de que a freguesia vai buscar pessoalmente, ou então, nos mercados de Costa Marques e Pimenteiras do Oeste a sua cobiçada farinha d’água. Com a venda do quilo a R$ 5, a saca de 60 quilos a R$ 300, a farinha de goma a R$ 7, entra renda todo mês. Geralmente, pedidos extras ultrapassam 20 sacos. Tudo tem mercado nessas cidades e as vendas podem ser ampliadas com a disposição da logística de transporte até Guajará-Mirim, a 217 quilômetros.
 
Nascida e criada no interior de Guajará-Mirim, no antigo Seringal Branco, Bahia se casou ainda jovem com Juscelino Costa, 56, servidor da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do distrito de São Domingos do Guaporé.
 
“Meu pai, José Valter (tem 87 anos), e minha mãe Bernadete (73) cortaram seringa mais de 30 anos lá no Branco”, lembra Bahia.
 
Juscelino prosseguiu com o trabalho sanitário, e Maria nunca deixou de fazer farinha. E a rotina da família incorpora cuidado com os animais da Resex, considerando-se a presença estatutária e frequente de macacos que sobem nos mamoeiros e saem carregando frutos maduros. “Fazer o quê? A gente ri, algumas vezes espanta, mas eles (os bichos) levam a parte deles; eu já precisei entregar mamão ao PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e não tinha”.
 
O incômodo não fica só nos macacos que também saltam nos galhos da embaúba. Catetos atacam roças de mandioca e milho; anta, ararita e veado invadem a lavoura de feijão e mandioca; e passarinhos bicam as bananeiras.
 
“A produção de cada roça é revertida ao grupo familiar nessa comunidade, da mesma forma como o preparo da terra, a colheita e o beneficiamento aconteçam de modo a permitir a agregação social”, explica o coordenador da Resex, agrônomo e extensionista Celso Franco Damaceno.
 
No entanto, ela é a matriarca e dá a todos o seu quinhão financeiro pela ajuda na lida diária. Compra roupas, remédios e gêneros alimentícios para a família. O ritual do preparo, por simples que possa parecer, tem ritmo industrial.
 
No rústico barracão de madeira, dona Bahia amassa mandioca da variedade paxiubão, em companhia da cunhada Laudiceia Rodrigues Pereira, 29. Menos de meia hora depois, ela despeja tudo na forma, enquanto o filho Valter Silva Costa, 30, casado, esparrama a massa na forma quente. Minutos depois, Valter vai para outro forno e ela começa a produzir mais farinha. O filho conta como trabalha, além da farinheira, no seringal. “De junho a novembro a gente entra na seringa, cada seringueiro pega quatro estradas. Estrada é o caminho por dentro da floresta por onde o seringueiro caminha para coletar o leite da seringueira”.
 
Com sabedoria, a farinheira revela: “O apuro (da farinha) tem que durar duas horas”, e acrescenta o conhecimento sobre a conservação ambiental: “Não tem um palmo desmatado em nosso terreno; nunca tiramos mais do que carne e peixe”.
 
Roças com abóbora, cana, mamão, maxixe, pepino, e quiabo mobilizam a família de dona Bahia, com três filhos e uma criança adotiva. “Esses 30 anos passarão, por isso eu tenho que organizar a casa (de farinha) para que esses moços (filhos e netos) se garantam”, refere-se à bolsa mensal de R$ 1 mil, que será repassada durante três décadas e começou a ser paga no mês de setembro por uma empresa de investimentos dedicada à proteção e à recuperação de florestas nativas.
 
Batalhadora, a farinheira faz a carpa manual no roçado de mandioca e nos dias de entrega das encomendas a torragem leva o dia todo. Na torragem, depois de passar pela peneiração, a massa é colocada no forno para a retirada da umidade. Bahia mexe constantemente com um rodo, pelo forneiro (farinheiro).
 
“Quando eu paro, chamo eles para capinar; na seringa, carrego as bolas do coalho”, ela relata. Da tigela, recolhido, o látex pode ser defumado ou coalhado.
 
Também procura não perder os subprodutos da mandioca. A 20 metros dos fornos, coloca a casca em baldes, às vezes misturada com milho, e os suínos comparecem pontualmente para a engorda diária. “Pode ter só essa casca, eles não deixam sobrar nada”, diz.
 
Dona Bahia e a cunhada Laudiceia, com as mãos na massa, na Comunidade Laranjal
 
Produz também o consagrado molho tucupi, sumo amarelo extraído da raiz da mandioca quando descascada, ralada e espremida. Depois de extraído, o caldo ‘descansa’ para que o amido (goma) se separe do líquido. Inicialmente venenoso devido à presença do ácido cianídrico, o líquido é cozido (processo que elimina o veneno) e fermentado de três a cinco dias para, então, ser usado como molho na culinária.
 
Dona Bahia separa o amido, também chamado polvilho, do líquido e lavado e decantado em diversas águas. Depois de ficar seco, ele é esquentado no forno, formando grânulos; é a tapioca. “Vamos usar bem esse dinheiro (bolsa mensal) para melhorar esta casa e daí, aumentar as vendas, se Deus quiser; aqui, farinha nunca foi dureza, todos aprendem a fabricar”, diz confiante no futuro.
Direito ao esquecimento

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