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ARTIGO - Caçambada Cutuba invadiu Sala VIP - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

ARTIGO - Caçambada Cutuba invadiu Sala VIP - Por Antônio Serpa do Amaral Filho

Da Redação

14 de Janeiro de 2008 às 09:59

Foto: Divulgação

A caçambada cutuba invadiu a praia do Sala Vip. Explico: o fantasma do embate histórico entre Cutubas e Peles-Curtas, como se fosse uma fênix beradeira, ressurgiu das cinzas no programa Sala Vip, veiculado pela FM Vitória Régia sob a batuta do comunicador Leo Ladeia, trazendo à tona o maior atentado do terrorismo político destas paragens: a caçambada cutuba arremessada contra o povo que participava do comício dos partidários de Renato Clímaco Borralho de Medeiros. Sem querer querendo, os anos de chumbos que começariam dois anos depois, com o golpe de militar de 1964, têm como ponto de partida o método terrorista utilizado pelo cutubismo (partidários do Coronel Aluízio Pinheiro Ferreira) em terras de Rondônia. Muito antes do atentado do Rio Centro, da Guerrilha do Araguaia e da tortura e morte de Vladimir Werzog na cela do DOI-CODI, a intolerância já botavas suas unhas de fora aqui nas barrancas do rio Madeira, no embate entre Ênio Pinheiro e Renato Medeiros. Para falar em nome dos que têm sede de justiça – parentes dos mortos e feridos no atentado da caçamba, amigos e partidários do PSP -, Léo Ladeia entrevistou Zolar Xavier da Silveira, 54, ex-quadro do Partido Comunista Brasileiro-PCB, hoje militante petista e jornalista, residente no Estado do Rio de Janeiro há 38 anos, embora tenha nascido em Abunã, Rondônia. Filho de Dionísio Xavier da Silveira, o “Velho Dió”, farmacêutico, comunista, jornalista, e ex-vereador da primeira Câmara Municipal do Território Federal de Rondônia, pela ARENA - Aliança Renovadora Nacional, Zolar veio garimpar retalhos de um fato que até hoje causa mudez e constrangimento a muita gente, em Porto Velho. O ano era 1962 – conta Zolar Xavier. O maior cacique político regional, Coronel Aluízio Ferreira detinha o mandato de Deputado Federal – maior patente do poder político do então Território Federal, conquistado pela terceira vez, quatro anos antes, em 1958. O aluizismo está em alta, tem imensa sede de poder e comanda o processo político, administrativo e eleitoral à moda do velho coronelismo, ou seja, com mão de ferro. Do outro lado, perfila-se a oposição, que tinha na casa de Marise Castiel, no bairro Caiari, seu Quartel-Geral. A esquerda da direita, a UDN, democratas, socialistas, comunistas, perseguidos, desvalidos, indignados e sonhadores perfazem as hostes dos peles-curtas. O clima é tenso. Em nível nacional, o bruxo Golbery do Couto e Silva já trama a derrubada de Jango. Na província, a centro-direita de PTB/PSD e PTN vai ao ringue com a centro-esquerda de PSP e UDN. Estamos numa noite calorenta de 26 de setembro de 1962, na área suburbana onde funcionou a Rondasa, na avenida Lauro Sodré, no bairro do Olaria, quase defronte ao prostíbulo da simpática Delícia. Segundo apurou Zolar, cerca de 4 mil pessoas participam de um grande comício pele-curta. No palanque, Renato Medeiros, Carmênio da Taba do Cacique, Marise Castiel, Jaime Castiel, Anízio Gorayeb, e possivelmente Dionísio Xavier e Antônio Serpa do Amaral, ex-secretário do PSP. De repente, vindo a toda velocidade da cidade para o hoje aeroporto internacional, uma caçamba da prefeitura municipal, pilotada por um cidadão de nome Nilton, identificado pelo jornal Alto Madeira da época como funcionário municipal (José Saleh Moreb, cutuba, era o prefeito), avançou por sobre a multidão, atropelando todo mundo, estraçalhando corpos, quebrando ossos, vitimando indistintamente homens, mulheres, jovens e velhos, e criando um coletivo clima de terror jamais vistos por estes pagos. Estava acontecendo o maior atentado terrorista da história política de Rondônia. O caos tomou conta dos peles-curtas. Da tragédia emergiam choro, lágrimas, lamentos, gritos de dor e desespero, seguidos por pedidos de socorro. Havia um cheiro de morte no ar, em meio ao corre-corre geral. As vítimas chegavam aos montes no Hospital São José (hoje Policlínica da PM). Na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, pesquisou Zolar, tem edições do jornal Alto Madeira registrando o rastro de sangue deixado pelo terror: pelo menos três mortos oficiais e muitos feridos. No anúncio da missa de sétimo dia, publicado no mesmo Alto Madeira, o texto convida para o ato religioso em prol da alma daqueles que tragicamente desapareceram no comício de 1962. Consta, também, uma carta de Anízio Gorayeb, ex-vereador e jornalista, pedindo explicações sobre o atentado ao todo-poderoso Aluízio Ferreira. Luiz Lessa, antes de morrer, afirmou que o objetivo do atentado era matar o líder Renato Medeiros, que saiu ileso do episódio. Os peles-curtas encerraram a campanha com uma grande marcha pela Avenida Sete de Setembro, levando Renato Medeiros no ombro, e ganharam a eleição. Wadih Darwich foi nomeado governador. Mas a alegria durou pouco, porque, dois anos depois, artefatos mais mortíferos e convincentes que caçambas municipais, os tanques urutus do exército brasileiro, marchariam por sobre a democracia e encerrariam o mais acalorado, apaixonante e emocional embate da política guaporé: a peleja entre os cutubas e peles-curtas. O status quo verso a rapa do tacho. Arqueólogo da política local, o jornalista Zolar Xavier quer reconstituir caco a caco as peças dessa tenebrosa página histórica da civilização rondoniense, para que renasça das cinzas desse imbróglio dois elementos do contraditório: – o olhar e a voz dos peles-curtas, errantes cavaleiros que um dia sonharam proclamar em brado retumbante a República Socialista do Guaporé.
Direito ao esquecimento

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