Lori Farmer, de 8 anos; Michele Guse, de 9; e Doris Milner, de 10, na noite do primeiro dia, que estava chovendo bastante, foram atacadas durante a madrugada, quando dormiam em uma barraca de lona. Duas delas levaram pancadas na cabeça ainda na cama – morrendo instantaneamente – e a terceira foi despida, arrastada para a floresta, estuprada e enforcada, deixada amarrada a uma árvore.
Não é spoiler, o primeiro episódio já abre com essa informação e esse cenário tétrico, encontrado tanto pela monitora do acampamento quanto pela polícia, quando chegou ao local depois de acionada.
O primeiro episódio segue um padrão um pouco ortodoxo, no meu ponto de vista, ao colocar a atriz e cantora Kristin Chenoweth, que é apresentada como uma sobrevivente desse massacre ocorrido no acampamento na infância, como uma espécie de condutora narrativa do caso.
Principalmente quando ela retorna ao seu estado natal para reexaminar os fatos do crime, dividindo o seu depoimento com agentes da polícia e alguns jornalistas da época, dando um panorama da repercussão do assassinato em meio à comunidade e à imprensa.
Os familiares das meninas contam sobre o impacto da descoberta das mortes, os traumas e como um crime ocorrido há mais de 40 anos ainda deixou mazelas sobre todos os envolvidos, principalmente quando se buscou o culpado.
O problema que eu tive com a condução, em grande parte da minissérie, estar com Kristin é o fato de a diretora – Remmy Weber – utilizar uma linha visual de videoclipe com a cantora; imagens com filtro blasé, em um tom quase sépia, muito uso de câmera lenta – quando ela caminha em meio a estradas de chão e na floresta –, fica uma definição estética de filme publicitário, como se integrasse o escopo de marketing da artista, quase vítima.
Nos dois primeiros episódios, Kristin toma conta de boa parte da narrativa de depoimentos – repetindo as passagens da sua participação no caso e como isso a traumatizou. O fato é: ela era criança e estava na lista de meninas que foram para o acampamento em 1977, só que adoeceu no dia da partida e a sua mãe não permitiu. Dois dias depois, ela soube das mortes e isso a chocou, assim como a sua família.
Ao retornar à cidade, além de ela lembrar alguns fatos sobre o caso, vai reencontrar pessoas que vivenciaram aqueles dias sombrios, conversar com a mãe de uma das vítimas e buscar cumprir uma dívida que a persegue depois de ter se tornado famosa e premiada. Aí não vou contar do que se trata, mas se resume à sequência final do último episódio.
No primeiro episódio, entre as entrevistas importantes, está a de um fotógrafo e jornalista, que ajudou a polícia tirando fotos das cenas do crime – a barraca invadida e o local onde foi encontrada a terceira vítima. E resume bem o quadro violento que encontrou e como foi difícil fazer os registros fotográficos, tendo a percepção do quanto aquelas meninas foram mortas de forma brutal. No ódio.
Outra entrevista reveladora é a do então xerife do condado de Mayes, Mike Reed, que herdou o caso para dar uma solução definitiva 45 anos depois, quando conseguiu utilizar o material recolhido pela perícia técnica na aplicação de exames detalhados com as novas tecnologias de extração de DNA, gerando perfis parciais do assassino.
Os dois primeiros episódios se estendem muito em depoimentos que repetem e circulam em torno da investigação e da passagem de Kristin pela cidade, o que inclui um registro de perfil do seu trabalho no teatro. Até no final mostrar que, com alguns objetos encontrados próximos à barraca, como uma lanterna deixada pelo suspeito e uma fina corda, os policiais fazem uma revista na floresta e encontram uma caverna onde o suspeito permaneceu um tempo. No local, encontram algumas fotografias reveladas que descobrem ter sido produzidas numa prisão por um homem condenado a 300 anos, que se encontra foragido.
No terceiro episódio, um dos investigadores, de origem indígena, ao saber que a polícia já tem um forte suspeito, pede para que não seja um índio americano, por causa de a região ser um local de maioria de descendentes de Cherokees.
Não vou estender mais para não tirar a surpresa da revelação e de como o caso ainda agonizou por quase dois anos após os assassinatos das escoteiras, sob pressão das famílias, comunidade e agentes policiais que estiveram à frente da investigação. No entanto, vão seguir algumas reviravoltas incomuns e até mesmo um julgamento controverso que impacta a todos, levando o caso oficialmente a continuar sem um culpado definitivo reconhecido pela Justiça.
Por isso, amostras de sêmen e cabelo coletadas dos corpos das vítimas pelos peritos, quando foram para análise em 1989, já tinham ainda parcialmente um culpado, mas só depois, com o extraordinário avanço da ciência forense, com o processo de exames de DNA, se chegou à confirmação categórica do assassino. Que vai causar um final polêmico e até óbvio.
Assista. Com um pouco de paciência, é possível passar por Kristin, a cantora, que domina os dois primeiros episódios. Essa minissérie poderia ser resolvida em um longa de duas horas e até mesmo somente com dois episódios.
O que ajuda muito é sentir como os parentes ainda estão passando por um processo de aceitação de algo tão traumático e como a mãe da menina que mais sofreu, sendo abusada, passou por preconceito dentro da própria família.