Nesta data, há seis anos, a música brasileira perdia o letrista, poeta e cronista Aldir Blanc Mendes. Nascido no Estácio, Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 1946, era médico psiquiatra por formação. Em 1973 largou o consultório para viver de música e literatura. Mais conhecido como Aldir Blanc, o mestre morreu em 4 de maio de 2020, aos 73 anos, vítima da Covid-19.
Letrista talentoso, inspirado, Aldir Blanc era capaz de transformar qualquer ritmo em canção de sucesso, seja samba, samba-canção, balada romântic ou bolero. Blanc tirava do cotidiano os personagens de suas letras e crônicas, ora voltadas para a denúncia social, ora para contar histórias de casais em crise, marginais e marginalizados, sem esquecer a crítica mordaz a política, à sociedade, à hipocrisia dos poderosos, a e por aí vai.
O primeiro sucesso veio em 1970: "Amigo é Pra Essas Coisas", com Sílvio da Silva Jr., segundo lugar no Festival Universitário. Depois se juntou a Ivan Lins, Gonzaguinha e outros no Movimento Artístico Universitário, o MAU.
Foi com João Bosco que Aldir criou uma das duplas mais potentes da MPB. Em 1972, Elis Regina gravou "Bala com Bala", abrindo a porteira para receber as canções da dupla em primeira mão. Vieram clássicos como "O Mestre-Sala dos Mares", "Caça à Raposa", "Cabaré", "O Caçador de Esmeralda" e "O Bêbado e o Equilibrista", de 1979. Esta última virou hino da anistia política e da volta dos exilados. A parceria durou até 1982 e terminou sem brigas, segundo ambos. No começo dos anos 2000, a dupla voltaria a criar juntos.
Aldir não parou em João Bosco e emplacou fez várias parcerias lendárias. Compôs com Guinga (parceria que rendeu choros e canções sofisticadas a partir dos anos 90: Catavento e Girassol gravada por Leila Pinheiro e Exasperada com interpretação marcante de Mônica Salmaso); Mauricio Tapajós (Parceria forte nos anos 70, com pegada política: Querelas do Brasil, um debate sobre identidade nacional, hit com Elis e Amigo É Pra Essas Coisas gravada pelo MPB4 e outros artistas); Cristóvão Bastos (parceria mais lírica, com muitos sucessos na voz de Nana Caymmi, entre eles, Resposta ao Tempo); Moacyr Luz (a dupla que dominou o samba dos anos 90/2000: Saudades da Guanabara gravada por todo mundo no samba e Coração do Salgueiro, homenagem à escola de samba), entre outros.
Suas letras foram defendidas por vozes gigantes: Elis Regina foi a grande intérprete, mas também gravaram Aldir gente como Chico Buarque, Edu Lobo, Maria Bethânia, Simone, MPB-4, e o próprio João Bosco.
Blanc brilhou ainda como cronista de mão cheia. Publicou 11 livros. Entre eles: Rua dos Artistas e Arredores, Porta de Tinturaria, Vila Isabel, Inventário da Infância, Um Cara Bacana na 19ª. Escreveu sobre o subúrbio carioca, boemia, futebol e personagens do Rio com a mesma verve das letras.
Aldir Blanc transformou crônica de boteco em alta literatura musical. Deixou mais de 600 composições e um jeito único de retratar o Brasil: lírico e irônico, doce e ácido. A lei de auxílio emergencial à cultura, aprovada em 2020, leva seu nome: Lei Aldir Blanc.
Em homenagem ao letrista, o jornalista Luiz Fernando Vianna lançou a biografia Aldir Blanc pela Editora Casa da Palavra. O livro tem 352 páginas, reúne cerca de 450 composições e traz documentos e fotos que retratam a vida pessoal e profissional de Aldir.
Passa pela infância no Estácio, a formação em Medicina, a guinada para a música e as parcerias com João Bosco, Ivan Lins, Guinga, Moacyr Luz e outros nomes gravados por Elis Regina, Danilo Caymmi e grandes intérpretes da MPB.
A poesia cortante, urbana, com humor, malandragem e crítica social de Aldir Blanc, como ele, é eterna e será sempre lembrada, reverenciada e cantada por aqueles que apreciam, reconhecem e valorizam a legítima música brasileira de qualidade.