No último domingo (15) muitos brasileiros que acompanharam a cerimônia do Oscar estavam com uma grande expectativa de que o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça, com o ator Wagner Moura, fosse premiado pelo menos em uma categoria das suas quatro indicações, a de “filme interna-cional”, um feito conseguido ano passado pelo ótimo “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles Jr., no entanto, no meio do caminho tinha um filme norueguês, que acabou vencendo.
Esse filme é “Valor Sentimental” (Affeksjonsverdi/2025), do diretor Joachin Trier, que já havia rece-bido um prêmio de melhor filme internacional no Bafta a premiação britânica -, há duas semanas e no ano passado recebeu o grande prêmio no Festival de Cannes. Um filme muito bem conceituado pela crítica e considerado um dos melhores lançados no ano passado.
Essa é primeira vez que um filme da Noruega ganha um Oscar de melhor filme internacional. “Valor Sentimental” tinha recebido indicações também nas categorias de melhor filme, direção, montagem, roteiro original, atriz (para a ótima Renate Reinsve), ator coadjuvante (Stellan Skarsgard, em sua me-lhor atuação da carreira) e atriz coadjuvante para Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lillea-as.
E vou escrever um segredo, mesmo considerando ”O Agente Secreto” um ótimo filme, tecnicamente bem realizado e com uma proposta de memória e resgate do imaginário recifense, “Valor Sentimental” tem uma pegada melhor e que condiz mais com os interesses artísticos e, até, relacionado ao cinema como transparece na estrutura do seu escopo, atendendo os interesses da academia de cinema do Oscar.
Então, premiar o filme norueguês foi injusto em vista da proposta mais ousada de “O Agente Secreto”?
Não.
“Valor Sentimental” é um dos mais belos e instigantes filmes que eu já assisti nesse início de ano e é um drama familiar onde o cinema é a chave que impulsiona e vira, num exercício de metalinguagem brilhante na sua parte final, com uma resolução inesperada e muito sastisfatória.
Se não, vejamos, o filme mostra de forma emocionante o relacionamento conturbado entre um pai, Gustav (Stellan Skarsgard), um veterano diretor de cinema, e suas duas filhas, Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lellea-as). A relação entre eles foi quebrada, deixando feridas abertas, quan-do, ele, que tinha um relacionamento intenso com as filhas quando pequenas e a mãe dela, logo que se separou, as abandonou na adolescência, deixando uma lacuna pela falta de afeto e sem ter acompa-nhado o amadurecimento precoce das meninas.
Já adultas, Nora se tornou uma requisitada e famosa atriz de teatro e Agnes uma pesquisadora de his-tória. Anos depois, Gustav retorna no velório da mãe delas, dizendo precisar da casa que era dele e foi deixada para a mãe, pois vai fazer um filme no local, contando uma parte traumática da sua vida, um projeto pessoal e importante para a sua carreira. Gustav pede a Nora que fique com o papel principal da trama, porém, ela recusa a oferta, pois não consegue manter uma relação íntegra com o pai.
Sem opção, Gustav acaba optando por uma jovem atriz norte americana em ascensão de Hollywood, Rachel Kemp (Elle Fanning), que se encanta com a oportunidade de viver uma personagem dramática em uma trama familiar.
Com essa linha dramática, vamos compreendendo que o problema não é tão simples na vida dessa família, que tem uma teia de emoções contidas, por muitas vezes o silêncio é quebrado por sussurros, olhares temerosos ou ainda gestos ímpetos que apenas amenizam o conflito.
O diretor Joaquim Trier tem uma maneira sensível de contar essa história com um olhar acadêmico, mas propositamente afetuoso ao estabelecer que um homem convicto, como Gustav, pode estar bus-cando uma redenção, um perdão, às filhas - principalmente Nora, pela ausência tão sentida. Alguns diálogos são precisos ao deixar claro os traumas que ele perpetuou nesses anos.
Algumas sequências são entremeadas por cortes secos - mudança de uma cena para outra - ou o silên-cio.
Quando a atriz Rachel, na leitura do roteiro, imersa àquela família, percebe que a sua personagem no filme tem uma busca emocional que ela não consegue entregar para Gustav, sente que o segredo está na personificação de referência à Nora, a filha mais velha. Ela então entra em um processo emocional de não saber mais se tem a capacidade de seguir na produção, sem decepcionar o velho diretor.
Ao dedicar espaço e tempo à todos os personagens envoltos nessa trama, Trier intensifica a emoção em planos sequências extraordinários de revelação - como o reflexo que vai mostrando um espelho de personalidade entre Gustav e Nora. O uso da trilha sonora, a iluminação, os gestos e inflexões tão bem pontuadas do ator Stellan amalgama no cerne dos sentimentos que estão prestes a explodir para trazer uma resolução não tão fácil, mas que pode surpreender.
O uso da metalinguagem no caso é um achado delicioso, complementa sem pudor uma trama difícil, mas que vai fluindo numa naturalidade espantosa a partir de um ótimo roteiro - escrito pelo diretor e o seu parceiro habitual, Eskil Vogt -. O cinema, a linguagem visual que permite arroubos de pura emo-ção até em um drama familiar visceral.
Chegar até o final de “O Valor Sentimental” e descobrir que um filme sensível, que tem a exposição dramática de seus personagens revelados como pílulas que douram nos conflitos, traz uma satisfação de prazer ao assistir o quanto essa produção é esmerada e tem um valor cinematográfico esplêndido.
Não tão convencional assim, mas emocionante. É um primor assistir e ter a certeza, de que apesar de tudo o Oscar de melhor filme internacional foi justo esse ano e foi entregue em boas mãos.