O primeiro filme, “Sisu - Uma história de determinação”, de 2022, escrito e dirigido pelo diretor finlandês Jalmari Helander, foi uma das melhores surpresas quando foi lançado. Trazia o veterano ator Jorma Tommila no papel de uma lenda da Segunda Guerra, Aatami Korpi, conhecido como “imortal” e responsável pela morte de 200 soldados do Exército Vermelho russo, na famosa “Guerra de Inverno”. No final da guerra, na Carelia (região finlandesa anexada à União Soviética), esse veterano ex-soldado acaba descobrindo um grande veio de ouro e resolve seguir caminho até a cidade, porém encontra um grupo de nazistas liderados por um comandante cruel.
Esse confronto é a alma do filme, pois, além de brutal, é feito com uma urgência em que o filme de Helander já parte para o confronto sem deixar o espectador respirar, com sequências de ação inimagináveis e surpreendentes. O filme é uma espécie de John Wick da Segunda Guerra em modo bruto se é que isso é possível, mas é.
Pois é, o filme fez sucesso e era inevitável que não ganhasse uma continuação. Lançado no ano pas-sado, “Sisu: Estrada da Vingança” (2025) traz a mesma equipe, incluindo o diretor e roteirista Jalmari, que agora estraçalha com uma história que é um road movie cruel e de persistência, quando o perso-nagem Aatami, o “imortal”, consegue voltar para a sua antiga casa da família onde todos foram massacrados enquanto ele estava fora, lutando. Ainda com a dor da perda, ele desmonta a velha casa de madeira, retira toda a estrutura, coloca em um caminhão velho e resolve seguir caminho até outra parte da Finlândia que não pertença ao território russo , onde vai reconstruir a antiga moradia em um ambiente mais seguro e que homenageie a origem da sua família.
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E seguindo a mesma fórmula de ser direto na trama e com a ação recorrente de extrema violência, “Sisu” é quase um desenho animado em algumas cenas, já antológicas pela sua capacidade de tornar o impossível vibrante e inesperado. Duas sequências são inusitadas: a do ataque dos aviões russos Ilyushin Il-2 “Bark” e a do tanque de guerra que enfrenta soldados para chegar à fronteira. Nessa do tanque ocorre algo que contraria até a lei da gravidade. Só assistindo.
A novidade do filme está no elenco, com a presença do excelente ator Stephen Lang (ele faz o vilão militar nos filmes “Avatar”, de James Cameron), como o antagonista, um veterano oficial russo, Yea-gor Draganov, que é retirado da prisão na Sibéria pelo alto comando da KGB para cumprir uma mis-são, pois ele foi o responsável por Aatami ter se tornado um soldado praticamente invencível. A mis-são? Matar ou capturar vivo o velho “imortal” para ser conduzido até a prisão da Sibéria, da forma que for preciso, utilizando a força do exército russo para cumprir a tarefa. Sua recompensa é receber per-dão total pelos crimes de guerra cometidos e uma rica recompensa financeira.
Os dois filmes têm uma contextualização histórica real e que dá consistência narrativa para o que acontece nos confrontos dentro do território. Logo após o fim da guerra, a Finlândia foi obrigada a entregar o território da Carélia à então União Soviética, o que estava integrado ao tratado de paz.
A “Guerra de Inverno”, onde Aatami se tornou o mais sanguinário soldado finlandês da história, foi um conflito que ocorreu entre novembro de 1939 e março de 1940, contra o exército russo, que seguia ordens de Stalin, que queria recuar a fronteira finlandesa temendo uma invasão alemã a Leningrado (hoje São Petersburgo).
O filme então gira em torno de uma perseguição de gato e rato nas estradas que deve conduzir Aatami até a Finlândia. Porém, Draganov, acompanhado por membros do Exército Vermelho, quer impedir que o veterano soldado chegue até a sua terra, nem que para isso tenha que destruir o seu caminhão e a carga a pilha de madeira de sua antiga casa. Os meios para isso vêm por terra ou pelo ar. E Aata-mi, acompanhado de seu cachorrinho de estimação, utiliza todos os meios possíveis de tática de com-bate e confronto para escapar e seguir a sua trilha.
Vou evitar dar spoiler dessa perseguição brutal, pois há algumas revelações na vida do velho soldado que vão motivar ainda mais a sua “imortalidade”, como sobreviver a uma sequência de tortura que eu não via nada parecido desde o filme “Paixão de Cristo” (2004), do ator e diretor Mel Gibson, onde Jesus é espancado de forma explícita e cruel.
O filme tem um humor involuntário que pode causar risos nervosos pelo efeito da violência, que por vezes lembra desenho animado posso até citar clássicos como o do Coiote e o Papa-Léguas.
É um filme escapista muito, muito bem feito, com uma proposta de ação que mostra o talento do dire-tor finlandês Jalmari em construir ótimas sequências de combate seja no corpo a corpo ou em tiro-teios pirotécnicos , sem poupar sangue, corpos despedaçados e explosões. A sequência do trem é excelente, com o diretor citando que teve como inspiração filmes da franquia “Indiana Jones” e “Ja-mes Bond”, não esquecendo de citar o comediante clássico da era dos filmes mudos, o genial Buster Keaton.
Filmaço? Nem tanto, mas muito divertido para quem gosta do gênero ação. Com certeza um dos me-lhores de 2025.