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NOSTALGIA: ‘Crepúsculo’: com novo livro, a saga sobreviverá à era do cancelamento?

Autora Stephanie Meyer volta à trama vampiresca. Mas será que sua mocinha submissa e história que ecoa pedofilia passarão incólume pelos leitores?

Veja

06 de Maio de 2020 às 11:19

Atualizada em : 06 de Maio de 2020 às 11:21

Foto: Divulgação

A onda de nostalgia que inunda o entretenimento nestes tempos de pandemia começa, aos poucos a respingar na literatura. Nesta segunda-feira (4), a legião de fãs que, há uma década, viveu a adolescência inebriada pelo tórrido romance entre uma menina sem graça e um vampiro brilhante foi presenteada com a notícia de que a escritora americana Stephanie Meyer, autora da série literária Crepúsculo, lançará um spin-off da trilogia que arrecadou 3,3 bilhões de dólares no cinema.

 

Sol da Meia Noite (Midnight Sun, em tradução livre) nada mais é do que a história do primeiro livro narrada pelo atormentado Edward Cullen, o protagonista bonitão que disputa a atenção da estudante Bella Swan com um lobisomem igualmente bem-dotado.

 

A novidade foi recebida com alguma empolgação por parte dos antigos leitores no Twitter, mas, ao mesmo tempo, trouxe consigo um questionamento pertinente à época na qual Meyer decidiu levar adiante o projeto quase arruinado pelo vazamento de doze capítulos em 2015: será sua bem-sucedida saga adolescente capaz de sobreviver aos tribunais do cancelamento?

 

A recepção do público diante de um enredo escrito por um personagem nascido no amanhecer (com o perdão do trocadilho) do século XIX só será conhecida a partir de 4 de agosto, quando a obra estará à venda nos Estados Unidos.

 

“Por enquanto, uma coisa é certa: a autora está se arriscando ao escrutínio de leitores que, há dez anos, pensavam muito diferente”, alerta a professora Daniella Lhoret, mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Se, por um lado, não há nada de particularmente retrógrado no triângulo amoroso que movimenta a trama (a fórmula, afinal, continua por aí), por outro, tampouco há acenos pertinentes à crescente demanda por protagonistas femininas muito bem resolvidas, obrigada.

 

Na verdade, é quase senso comum que a jovem Bella é tudo, menos independente. Uma vez imersa no universo dos vampiros, a garota, vivida nas telonas por uma inexpressiva Kristen Stewart, abandona os amigos de colégio e devota o resto de sua vida ao parceiro imortal. Novamente, há que se pontuar as nuances: nada na história aponta para o não-consentimento da relação ou, tampouco, para a existência de qualquer pressão psicológica por parte do rapaz.

 

Ainda assim, mocinhas do século XXI já não aceitam de bom grado que uma fossa interminável e uma tentativa de suicídio motivada pela ausência do amante termine em uma reconciliação, como se nada tivesse acontecido. Adepta da saga Crepúsculo em sala de aula desde o lançamento dos primeiros livros, Daniella percebeu a mudança na reação das alunas de ensino médio à trama.

 

“As meninas de incomodam com a relação de profunda dependência da Bella com o namorado. Mesmo que ele não a obrigue a nada, a reação que tem quando Edward vai embora faz lembrar um relacionamento abusivo”, explica a especialista, para quem a relação quase “paternal” entre a estudante e um vampiro também pode fazer apitar alguns radares modernos.

 

 “Na prática, ele é um homem velho, com muitos anos de experiência e muito dinheiro, enquanto ela é a menina solitária que tem problemas com o pai e se refugia no relacionamento. Óbvio que ninguém leu pensando assim na época, mas pode ser uma questão agora”, avalia Daniella.

 

Vale lembrar também que, como qualquer universo fantástico infanto-juvenil, o mundo de Crepúsculo tem suas próprias idiossincrasias (a começar por um vampiro que brilha e, mesmo morto, é capaz de engravidar a mocinha), razoavelmente digeríveis à base de alguma suspensão de descrença – a capacidade de imergir na história sem levar em conta que, bem, criaturas mágicas não existem.

 

É de se questionar, contudo, se a ávida lupa pós-moderna há de deixar passar a súbita paixão do lobisomem Jacob pela filha recém-nascida do casal protagonista. Há quem jure que o moço seria um “protetor” – ao menos, enquanto a rebenta meio humana, meio vampira, for criança.

 

 Há quem jure que, desde cedo, o negócio tem ares de pedofilia. “Já achava esquisito desde a primeira vez que li. Há vários pontos na história que requerem um cuidado extra nestes tempos”, diz a ex-fã Juliana Duarte, do grupo Minas Nerds. Ressalte-se, por fim, alguns comportamentos tipicamente conservadores – ainda que não necessariamente nocivos – adotados pelas personagens: em pleno século XXI, não é todo dia que se depara com um romance no qual o rapaz zela pelo sexo só depois do casamento (um claro reflexo da criação mórmon de Meyer).

 

Desde que metade do novo livro apareceu na internet, ventila-se que a história contada pelo próprio Edward tem, justamente, o objetivo de diluir as acusações de sexismo feitas pelos que, lá nos anos 2010, já se debruçavam sobre o assunto.

 

Na prática, contudo, trata-se de uma forma de manter a história viva. Embora incerto, o futuro de Sol da Meia Noite pode ser vislumbrado à luz da versão adulta da saga Crepúsculo, bem mais polêmica que a inspiração infanto-juvenil e que também contou com um “spin-off” do lado masculino na tentativa de reaquecer o mercado: 50 Tons de Cinza, de E. L. James, deixou fãs à deriva com Grey – a que parece, o imã da saga está mesmo na reprodução (fiel ou não) do desejo feminino.

 

 E se, por um lado, James encarou o desafio de humanizar – ainda que sem muito sucesso comercial – um homem com desejos sexuais, digamos, incompreensíveis (para fazer jus à fala memorável), a Meyer cabe o obstáculo de conquistar as leitoras do século XXI com o retrato do pensamento de um jovem que escapou da morte em meio à pandemia de gripe espanhola. Os próximos meses dirão se o romântico vampiro cairá nas graças da geração coronavírus.

 

Autora: Maria Clara Vieira

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