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CORTE: Apesar das pressões, BB mantém reestruturação administrativa

Desligamentos e reengenharia de atendimento são medidas centrais

CORREIO BRAZILIENSE

13 de Fevereiro de 2021 às 10:28

Atualizada em : 13 de Fevereiro de 2021 às 11:20

Foto: Divulgação

 

O presidente do Banco do Brasil, André Brandão, ainda não foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro para esclarecer os impactos do plano de reestruturação da instituição financeira — medida que quase custou a sua demissão no início do ano. Ontem, no entanto, o executivo com larga experiência no setor privado disse que o impasse com o Palácio do Planalto não passou de um “problema de comunicação”. Por isso, garantiu que as medidas de corte de gastos estão mantidas e podem até ser ampliadas, com o fechamento de agências no exterior.
 
 
“Não conversei diretamente com o presidente Jair Bolsonaro, mas entendo que ele entendeu e pretendo, com mais calma, explicar o processo de eficiência assim que a agenda dele permitir”, admitiu Brandão, na primeira declaração pública após o impasse sobre o plano de reestruturação do BB lançado em janeiro.
 
A remodelação do BB prevê o fechamento de 361 unidades de atendimento, sendo 112 agências, 7 escritórios e 242 postos de atendimento, além do desligamento voluntário de 5 mil funcionários. O plano irritou Bolsonaro em janeiro, depois que parlamentares se queixaram da desativação de agências em suas bases eleitorais. O presidente pediu a demissão de Brandão, em reação semelhante à que teve quando ameaçou dar um "cartão vermelho" a Waldery Rodrigues, secretário especial do Ministério da Economia, no ano passado — Waldery continua dando expediente até hoje. Apesar da irritação do Planalto, contudo, André Brandão não só permaneceu no cargo, como já deu início ao plano de reestruturação, para tentar mostrar ao mercado que o BB não está sujeito a interferências políticas.
 
 
Segundo o BB, os clientes começaram a ser comunicados ontem das primeiras agências que serão fechadas, em março, pois a ideia de concluir a reestruturação ainda neste primeiro semestre está mantida. Brandão explicou que a reestruturação visa trazer mais eficiência e adequar o banco ao novo perfil do cliente financeiro, que está mais digital e busca um atendimento mais personalizado.
 
Ele reconheceu, no entanto, ter sido “razoável” a preocupação da classe política com o impacto da medida, já que o plano foi anunciado por meio de um fato relevante ao mercado. Por isso, demonstrou a intenção de “melhorar no aspecto de comunicação com ele [Bolsonaro] diretamente”, mas, também, com prefeitos, governadores e deputados, mostrando que a reestruturação não representa a saída do banco de nenhuma cidade do país. “Não estamos reduzindo ou desassistindo clientes, nem estamos saindo de cidades. Estamos em 4.883 municípios. Após esse movimento, continuaremos em 4.883 municípios”, esclareceu o presdente do BB.
 
 
Brandão explicou que os municípios visados pela reestruturação, com apenas uma agência do BB, vão ganhar um correspondente bancário ou uma agência menor em troca. E revelou que, ao mesmo tempo em que vai fechar 361 postos de atendimento considerados ineficientes, o BB vai abrir outros canais de relacionamento com o cliente, voltados para os consumidores digitais, para o agronegócio e para os clientes de perfil investidor. “Estamos crescendo. Temos 18,3 mil pontos de atendimento no Brasil. Após essa movimentação, a gente vai crescer para 18,4 mil pontos”, anunciou o executivo.
 
PDV e despesas
 
O Banco do Brasil ainda vai dispensar 7 mil colaboradores em pouco mais de um ano. A instituição registrou a adesão de 5,5 mil funcionários ao Plano de Desligamento Voluntário (PDV) lançado no início deste ano, além de 1,5 mil desligamentos e aposentadorias ao longo de 2020. Por isso, vai passar a contar com 86,1 mil colaboradores, ante os 93,1 mil contabilizados no início de 2020.
 
O impacto do PDV foi melhor que o esperado pelo BB, pois a ideia era alcançar 5 mil funcionários, e a adesão foi de 5.533 colaboradores. Por isso, a medida vai reduzir em R$ 780 milhões por ano as despesas correntes do BB, propiciando uma economia de R$ 2,9 bilhões até 2025 — R$ 200 milhões a mais que o projetado inicialmente, de R$ 2,7 bilhões de economia em cinco anos.
 
Ainda assim, Brandão não descarta a possibilidade de novos PDVs no futuro. Questionado pelo assunto por investidores, ontem, ao apresentar o resultado do banco em 2020, o executivo disse que, no momento, o BB “fez o que tinha que ser feito” e vai se dedicar à reciclagem da atual base de funcionários. Porém, indicou que novos PDVs podem ser avaliados no futuro, em caso de aumento do atendimento digital, que reduz a ida dos clientes às agências e é uma das prioridades do BB.
 
 
Corte de gastos
 
A reestruturação da rede de agências e o enxugamento do quadro de pessoal do BB fazem parte de um plano de eficiência que pretende cortar em 10% as despesas administrativas da instituição, hoje em torno de R$ 31 bilhões por ano. Para o banco, as medidas são necessárias para tornar o banco mais eficiente e rentável.
 
Por conta do perfil ainda conservador na geração de negócios e da grande quantidade de ativos que carrega, o Banco do Brasil tem registrado resultados mais modestos do que os concorrentes. No ano passado, por exemplo, o lucro líquido ajustado do BB caiu 22,2%, a R$ 13,88 bilhões, por conta do aumento de provisões decorrente da pandemia de covid-19. E o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (RSPL ou ROE), ficou em 12,1%, abaixo dos seus pares, que registraram um ROE entre 14% e 19%.
 
Para este ano, as previsões também são mais enxutas no BB. O banco projeta, por exemplo, um aumento de 1,5% nas receitas. Por isso, segundo analistas, precisa se modernizar e cortar gastos para poder colher resultados mais robustos no futuro. O mercado, no entanto, ainda tem dúvidas sobre o alcance do projeto de modernização do banco, por conta dos impasses políticos evidenciados neste ano por meio do mal-estar entre Brandão e Bolsonaro.
 
“O resultado do BB teve uma potência menor que o dos pares. Por isso, vai ser necessário avançar na reestruturação. O Brandão está focado nisso. Porém, o BB vai ter mais dificuldade de avançar com essas pautas de transformação digital que outros bancos por conta do risco político”, avaliou o analista da Ativa Investimentos Leo Monteiro.
 
 
Bancários e sindicalistas, no entanto, questionam os projetos, pois acreditam que o enxugamento do banco pode prejudicar o atendimento à população. “Os funcionários do BB compreendem e vestem a camisa da eficiência operacional, do retorno aos acionistas e de uma sólida governança. Mas uma empresa pública tem responsabilidade perante as carências do país”, ressaltou a Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb).
 
Recebíveis ficam para início de junho
 
O governo adiou novamente o início do processo de registro de recebíveis de cartões, que promete melhorar as condições de financiamento dos lojistas brasileiros. A medida entraria em vigor na próxima semana, mas vai ficar para 7 de junho. O registro de recebíveis permite que o lojista use as receitas que tem a receber por meio das vendas realizadas por cartão como garantia de operações de crédito. A indústria de cartões movimentou R$ 2 trilhões em 2020 e pretende transacionar mais R$ 2,38 trilhões em 2021, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões (Abecs). Segundo o BC, o adiamento foi necessário porque uma das três entidades registradoras de recebíveis do país ainda não está pronta para operar o programa.
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