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DESIGUALDADE: Negros são mais atingidos pelo analfabetismo e pelo saneamento inadequado

População negra tem menos acesso a educação, saneamento e energia, e apresenta as maiores taxas de homicídio, se comparada com a população branca, aponta novo Atlas do Desenvolvimento Humano

CORREIO BRAZILIENSE

30 de Setembro de 2020 às 10:25

Foto: Divulgação

 

CORREIO BRAZILIENSE - Negros são mais atingidos pelo analfabetismo, mais internados por doenças relacionadas ao saneamento inadequado e têm menor acesso à energia elétrica do que os brancos. Isso é o que mostra a quarta edição da plataforma Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, lançada, ontem, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em conjunto com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud Brasil) e a Fundação João Pinheiro.

 

O sistema abrange cerca de 360 indicadores socioeconômicos sobre desigualdade, renda, trabalho, saúde, educação, habitação, vulnerabilidade, meio ambiente, entre outros. Os dados são referentes a 17 mil localidades brasileiras, sendo 5.565 municípios, 24 regiões metropolitanas, 27 unidades federativas e mais de 10 mil unidades de desenvolvimento humano.

 

ilustração

 

Outra disparidade que os dados mostram é em relação a pessoas pobres e extremamente pobres quando desagregadas pela cor. Entre os brancos, o percentual de pobres era de 6,41%, em 2017, contra 15,8%, entre os negros. Analisando os extremamente pobres são 3,37%, para os brancos, e 8,02, para negros.
 
A quarta edição do Atlas também mostra que o Brasil registrou um aumento nos números referentes à pobreza entre os anos de 2016 e 2017. Neste período foi registrado aumento no percentual de vulneráveis, de 24,47% para 24,98%; de pobres, de 11,15% para 11,65%; e de extremamente pobres, de 5,15% para 5,97%. A unidade federativa com maior percentual de pessoas extremamente pobres foi o Maranhão, com 15,62%; e a UF com menor percentual foi Santa Catarina, com 1,54%.
 
Do total de brasileiros inseridos no Cadastro Único, 66,12% eram beneficiados pelo Bolsa Família em 2017. De acordo com registros do Ministério da Cidadania (Cadúnico — 2017), a diferença entre os grupos raciais beneficiados aumentou entre 2014 e 2017. No primeiro ano considerado, 61,05% eram brancos; 74,32%, negros. Já no último, os números registrados eram 55,73% e 70%, respectivamente.
 
Entre as constatações positivas, o levantamento mostra que entre 2013 e 2017 houve queda na mortalidade infantil, que passou de 13,39% para 12,38%; os números se mostram mais altos entre os meninos.
 
Racismo estrutural
 
No Distrito Federal, enquanto o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) dos brancos chega a 0,92; entre os negros, o número fica em 0,8. “A pesquisa é apenas um reflexo de todo conjunto de desigualdades regionais e sociais também. Então, a pesquisa é um retrato de uma questão estrutural”, pontua a professora do curso de Serviço Social do Centro Universitário IESB, Késia Araújo.
 
“É a questão do racismo estrutural, que, por sua vez, tem toda uma conotação de classes sociais. Infelizmente, ainda temos essa desigualdade decorrente desse racismo estrutural, então, temos todo esse segmento populacional que tem mais dificuldade de acesso às políticas públicas, que vive numa situação de maior vulnerabilidade social e econômica”, avalia.
 
Outro ponto que Késia destaca é sobre como esses fatores estão interligados e acabam gerando um ciclo. “Quanto mais a população for vulnerável do ponto de vista social e econômico, mais dificuldade ela tem de ter acesso a serviços sociais básicos, como saúde e educação. É um efeito cascata, as coisas estão muito atreladas”, explica a professora.
 
A plataforma
 
Através da nova plataforma, o público pode acessar os dados, filtrar os resultados e conferir os índices de mais de 17 mil localidades. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é avaliado a partir de três requisitos: educação, renda e longevidade.
 
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é uma adaptação metodológica do IDH ao nível municipal. Os dois índices utilizam as dimensões saúde, educação e renda. “O IDH é um índice composto por três dimensões, uma dimensão que trouxe a saúde, a dimensão que trouxe educação e uma outra dimensão que trouxe a renda.O IDHM agrega essas três e mede o desenvolvimento”, explica Betina Barbosa, Economista do Pnud responsável pelo Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil. Ela destaca inovações: a ferramenta é mais ágil e com mais recursos, como mapas e filtros, que podem ser sobrepostos aos mapas. “Então, você tem uma leitura mais dinâmica e mais ampla ao mesmo tempo”. E traz registros administrativos, “para dialogar com a agenda de desenvolvimento e botar os municípios nesse diálogo anualmente”, lista a economista.
 
Menor renda e infraestrutura
 
De acordo com o Atlas, também, o Distrito Federal teve o melhor resultado entre as unidades federativas, ficando em primeiro lugar tanto no ranking geral de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), quanto no de renda e de longevidade. Ao analisar os números registrados nos estados, outra realidade conhecida no Brasil vem à tona: a desigualdade regional.
 
Os piores resultados se concentram no Norte e Nordeste. Alagoas está em 26º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM); o Maranhão é o segundo pior, em 24º lugar no ranking, precedidos por Piauí e Pará. Juntos, esses quatro estados têm IDHM abaixo de 0,7. “Temos um histórico de uma falta de ação mais efetiva por parte do estado brasileiro no sentido de trazer à região Norte e à região Nordeste condições mais estruturadas e políticas públicas”, pontua Késia.
 
As disparidades vão desde a renda até infraestrutura, como é o caso do saneamento. Em 2017, a cobertura de esgotamento era baixa, 58,95%. A região Norte apresentava a menor cobertura, 11.79%; o Sudeste, com 82,64%, a maior. “Na região Norte e na região Nordeste, temos muitos municípios que, se não tivéssemos a previdência rural, o quadro seria muito mais periclitante”.
 
Direito ao esquecimento

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