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Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Por Selmo Vasconcellos

30 de Outubro de 2020 às 08:49

Foto: Divulgação

AFONSO  FELIX  DE  SOUSA – EM MÉMORIA

Afonso Félix de Sousa foi um poeta, cronista, jornalista e tradutor brasileiro. É um poeta da terceira fase do Modernismo brasileiro. (5 de julho de 1925 – Jaraguá, GO a 7 de setembro de 2002, Rio de Janeiro, RJ. Era casado com a escritora ASTRID CABRAL.

26.Março.1999 – M.L.C. Nº 413 - 1ª participação: “SONETO DO ESSENCIAL”

 

SONETO DO ESSENCIAL

 

A vida, a que não tens e tanto buscas,

terás, se te entregares à poesia;

se andares entre as pedras, as mais bruscas,

da escarpa a que te leva a rebeldia;

 

se deres mais ao sonho, com que ofuscas

as luzes da razão e o próprio dia,

o coração que pulsa, se o rebuscas,

no eterno... Ou pulas um deus que em ti havia?

 

Que pobre o teu sentir, se não te salvas

perdendo-te de vez nas terras alvas

que chamam da mais alta das estrelas.

 

Se o tanto te ajudar o engenho e arte,

ao impossível possas elevar-te

subindo em emoções, mas por vivê-las.

 

OFERENDA

 

Altíssimas estrelas,

guardai nosso destino

em ânforas de febre.

Ah, ser e estar na terra

e ter que ser e ter

que estar entre horizontes

preso a essas raízes,

qual se não nos bastara

colher no lodo flores

que sonham o alto e o orgulho

de altíssimas estrelas.

Não somos senão homens,

mas de nós algo sobe

em delírio e vertigem

e volta com centelhas

de sóis que jamais vemos.

E ser e estar na terra!

As emoções roubadas

vão fugindo com as nuvens

e há feras que mastigam

a beleza esmagada.

O espaço que nos sobra

é o que mais nos oprime.

E a infância? – Meigo arco-íris

partindo de meu peito

vai descer sobre as águas

de um rio que se forma

da lembrança de um rio.

De meu, que tenho a dar-vos?

No princípio era o verbo

e o verbo se fez carne

e a carne se fez caos

e o caos já se faz forma.

Ah, névoa enfim rendida!

Olhai, se vos perdestes

do farol da esperança –

olhai o cais da vida.

Eis o porto sonhado

que não é meu (é nosso)

e é quanto pode dar-vos

um bicho vil da terra

a refletir-se na alma

de altíssimas estrelas.

*****

ARS  ABSCONDITA

 

Vós que me ouvis, perdão se me atiça e deslumbra

o sol adormecido em carvão, na penumbra.

*****

50 ANOS

 

Prossegue o jogo

mas já de cartas marcadas

a ferro e fogo.

*****

MÁSCARAS

 

A vida nos põe no rosto

máscaras de gosto e desgosto

que o tempo afoga

em espelho sem nexo

e sem tamanho

onde fica o reflexo

do rosto de um estranho

que se interroga

*****

ESCRITO NA AREIA

 

De água somos. E pó. E choro. E riso.

E há um sol que arde em nós.

O sol aviva o chão, o chão que piso

E nós pisamos. Sós.

*****

AVE, MÚSICA

 

Só de ouvido colado

ao coração de Deus

pode-se ouvir linguagem

mais pura do que a música.

               *

E não seria a música

ecos do que se ouvia

antes que o espírito de Deus

boiasse sobre as águas?

               *

E não seria a música

a tradução possível

de secretas parábolas

de Deus aos homens?

*****

FOTOGRAFIA

 

Sob os cabelos o perfil sugere

sonho e distância.

Ela contempla

montanhas de amarguras que desabam.

Pedras vão-se afastando

e voam víboras

das brechas do destino.

Ela contempla

clareiras que se abrem.

Saltam praias à espera.

Sonho e distância.

 

 

 

Direito ao esquecimento

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