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Momento Lítero Cultural - Por Selmo Vasconcellos

Por Selmo Vasconcellos

26 de Outubro de 2020 às 15:45

Atualizada em : 26 de Outubro de 2020 às 15:46

Foto: Divulgação

OLGA  SAVARY,  EM  MEMÓRIA

 

(21 de maio de 1933, Rio de Janeiro, RJ – 15 de maio de 2020, Teresópolis, RJ)

 

Foi poeta, como gostava de ser chamada, contista, romancista, crítica, tradutorae ensaísta. Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos, como Borges, Cortázar, Carlos Fuentes, Lorca, Neruda, Octavio Paz, Jorge Semprúne Mário Vargas Llosa, e também os mestres japonesesdo haicai, Bashô, Busone Issa.

 

1ª participação na página impressa Momento Lítero Cultural: nº115 - 22 de Outubro de 1993, com a tradução de duas poesias de Pablo Neruda

 

O Nome: Paz

 

Uma certa pomba coroa nossa fronte

a nos falar de um tempo pau-brasil,

dias e mais dias em que seu nome

é não o escrito mas o vivido

de ver a alegria do povo pelas ruas.

de clamar seu nome nas esquinas,

de ante murcha vê-la crescer em força

em novo cotidiano nas calçadas.

A beleza é sua cúmplice e o risco

é a noite, qual um dia, na avenida,

descerrar ventos e descobrir dunas

onde só asfalto havia. Seu nome, Paz,

é poesia: didática de escrever

não sobre a beleza inútil mas sobre

a solidária verdade comum a todo ser.

Então nos perturbarás, ainda que festa,

peso da terra que és em nossa mão

e embora a tenhamos para sempre

no desejo e no imaginário

sabemos que dia ela virá

temor por ser porto e navio

a ir embora, chegada e partida,

um sempre-nunca, incansável caça,

a começar de novo mal se acaba

e no pau vermelho a inscrevemos:

liberdade.

(página 276)

 

Amanhã

 

Se devoras teus sonhos

quando se ensaiam apenas

e secamente represas

essa linguagem de flores

e teu desejo de asas

que restam subterrâneas,

quem serás tu, depois

do Grande Sono, amanhã?

(página 44)

 

Nome

 

Não eram lírios ou lírios

caídos na areia, caídos

na areia roxa da noite

quase noite.

Não eram lírios, não eram

como tua sombra, eu sei,

mas eram muito mais lírios

que os lírios. Por isso

de lírios os chamarei

(página 59)

 

Desmistificação

 

Não sou um ser macio

como a água distraída

sem um som em que me apoie

na lâmina dos ventos

ou do vago rumor entre duas ondas;

não sou um ser gentil, dizia,

sou uma guerreira.

(página 110)

 

Ser

 

tal e qual

o fulgor da manhã,

toda folha, toda água,

tendo teus pássaros

um em cada ombro:

terei amado o que és

-  não o sonhado -,

ó mais que amor.

(página 236)

 

Nada Além

 

Toco teu corpo como a uma seda

com essa vontade de estar em volta

ao teu redor qual fosses um veleiro,

ee cerco inteiro de maio a janeiro,

eu a te seguir cardume de peixes.

 

Toco teu corpo como afago a água

com essa vontade de estar perto,

asa é a leveza do meu gesto,

casa onde te envolvo, pura labareda,

amor laçando todas tuas setas.

(página 335)

 

Direito ao esquecimento

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