Copa do Mundo 2026: A vingança dos 'macaquitos' - por Daniel Pereira

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Apagaram-se os refletores e dobraram-se as bandeiras da Copa de 2026. Chegou aquela hora inevitável em que a humanidade tenta fazer o balanço entre a bola que rolou e o absurdo que sobrou ao redor dela.
 
A decisão de inchar o torneio com mais países acabou se mostrando uma boa ideia — ao menos para a estatística e para a poesia.
 
Permitiu, por exemplo, a estreia da seleção de Cabo Verde. Um punhado de ilhas perdidas no Atlântico que, contra todos os prognósticos da geopolítica futebolística, não perdeu para ninguém. Empatou com três gigantes — Espanha, Uruguai e Argentina — e ainda nos presenteou com um dos gols mais bonitos da competição.
 
Cabo Verde merecia um troféu de honra pelo simples fato de que um país com menos de meio milhão de habitantes fez bonito no maior palco do planeta.
 
É o equivalente a Porto Velho montar uma seleção no final de semana e sair encarando a elite do futebol mundial.
 
Se dentro das quatro linhas o espetáculo funcionou, fora delas a civilização, como de costume, tropeçou na própria incompetência.
Veja-se o caso do Irã.
 
Por caprichos do diplomatismo moderno, a coitada da seleção iraniana teve que se hospedar no México para jogar nos Estados Unidos, numa rotina insana de "bate e volta" a cada partida.
 
Mesmo sob o assédio logístico, o Irã não perdeu um único jogo.
 
Donald Trump e sua entourage provaram, mais uma vez, que a arte da hospitalidade não é o forte da casa. Desde que o mundo é mundo — ou pelo menos desde a Grécia Antiga —, a tradição manda esquecer as picuinhas políticas durante os jogos. Mas o Senhor da Guerra local claramente não lê os manuais de história. Nem os de bons modos.
 
E então chegamos ao comportamento de certos competidores.
 
A Argentina, dentro de campo, é impecável. Na arquibancada, um horror. Uma parcela substancial de seus torcedores insiste em praticar um racismo quase institucionalizado. Para eles, nós, os latino-americanos da periferia do mundo e os africanos, somos todos "macaquitos".
 
Uma tentativa de ofensa que tropeça na própria ignorância. Ninguém escolhe onde nasce, em qual berço chora ou a quantidade de melanina que carrega na pele.
 
O acaso é o único soberano. Não há diferença biológica ou moral entre quem nasce na corte britânica e quem vem ao mundo em uma favela sul-americana ou num vilarejo africano.
 
Aliás, a própria seleção argentina chama a atenção por sua branquitude imaculada. Não há um jogador negro, não há um indígena.
 
O contraste é gritante quando se olha para as nações da Europa — aquele berço ilustre que los hermanos tanto veneram. As seleções do Velho Continente estão cheias de talentos de DNA africano.
 
Alemanha, Inglaterra, Espanha, Suíça, Bélgica... Todos entenderam que o futebol moderno fala com sotaque global.
 
A Argentina jogou muita bola, é verdade. Mas perdeu a oportunidade de mostrar ao mundo algo além de sua arrogância e de sua crise econômica endêmica — aquela que se arrasta há cinco décadas e que fez até Messi soltar frases que causaram urticária nas costeletas de Javier Milei.
 
Se o racismo platino foi exacerbado, a resposta do destino veio na mesma moeda. Parecia até capricho do Criador — aquele mesmo cujo Filho nasceu no Oriente Médio, com a pele bem distante do padrão de quem não aguenta trinta minutos de sol.
 
As lições foram pedagógicas. Os racistas da terra do tango tiveram que engolir a cantoria dos pretos que eles tanto hostilizam. Viram Madonna entrar em campo ladeada por Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho.
 
E tiveram que aceitar, contrariados, a reafirmação de um dogma universal: o maior jogador de todos os tempos não é Messi, muito menos Maradona. É o retinto Pelé.
 
Em campo, a profusão de peles cor de ébano causou tal tonteira nos preconceituosos que eles mal viram a cor da bola — talvez por ela ser mais preta do que branca.
 
Se na arquibancada a festa foi negra, no gramado não foi diferente. Mbappé consolidou-se como o maior artilheiro das Copas (o que talvez explique certas lágrimas de Messi). O jovem Lamine Yamal infernizou a vida de quanto zagueiro apareceu pela frente.
 
E o técnico De la Fuente ainda tinha o talento de Nico Williams para servir de amuleto e desmanchar a empáfia de quem acredita que ter a maioria da população branca faz de alguém um ser superior.
 
A lição, de novo, foi dura. Quem sabe na próxima Copa os nossos vizinhos não resolvem buscar na periferia de Buenos Aires ou mesmo na patagônia alguns daqueles "macaquitos" para o seu time? Se não ganharem no campo, ao menos mostram ao mundo que até o racismo pode, finalmente, ser superado pela bola.
 
Daniel Pereira: Advogado, professor e antirracista — seja por convicção cristã, seja por reconhecer nos negros o segredo da arte do bom futebol.
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