Essa é uma realidade mundial, quando as emoções e os costumes machistas são acentuados as mulheres são as primeiras que sofrem
De quatro em quatro anos assistimos o maior espetáculo esportivo do planeta. Mesmo quando a escalação do técnico não é aprovada, a nossa torcida pelo hexa é garantida. Mesmo depois de 28 anos sem ganhar a Copa do Mundo continuamos na expectativa do prêmio. Aqui decoramos a casa, a rua, reunimos os amigos, deixamos nossas mazelas de lado e se precisar até ofuscamos as Festas Juninas durante a torcida pelo título.
Porém, neste ano, mesmo com todo entusiasmo e esperança de alguma alegria, assistimos a seleção brasileira se despedir da competição nas oitavas de final. O desânimo é coletivo e nessas horas o campeonato que reúne além do futebol, cores, tradições, músicas, histórias e conexões entre diferentes nações, também vira pretexto para o aumento de casos de violência contra a mulher.
A paixão nacional tem gerado violência. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de violência doméstica e ameaças contra a mulher aumentam 25% em dias de jogo. As pesquisas apontam que devido ao aumento de frustração ou exaltação, somados ao consumo excessivo de álcool e a valores machistas, desencadeiam no crescimento das agressões contra elas. Os responsáveis na maioria são os companheiros e ex-companheiros das vítimas.
Essa é uma realidade mundial, quando as emoções e os costumes machistas são acentuados as mulheres são as primeiras que sofrem. Sejam elas repórteres, torcedoras, árbitras ou assistentes poderão ser alvos de agressões morais e físicas dentro dos estádios. Em casa não é diferente, quando as atenções estão voltadas para os jogadores, precisamos lembrar que as mulheres estão a situações de perigo.
É necessário lembrar que a cultura machista está presente nas torcidas, nas celebrações e em cada manifestação que transforma o esporte em um momento de conexão ou desafeto.
Para mudar essa realidade é preciso fortalecer a rede de proteção da mulher. As delegacias especializadas precisam ser 24h e os canais de denúncias e os serviços de acolhimento devem funcionar. Produzir campanhas de conscientização em estádios sobre o combate de violência contra a mulher, onde a predominância é masculina ajuda a contribuir para redução dos riscos.
Assim como ainda não desistimos do título assistindo todas as dificuldades em campo, também precisamos insistir em transformar costumes que vem nos matando. Antes dos gols, dos títulos e das comemorações deve existir uma compreensão do tema que é de saudade pública.
O jogo termina no estádio, mas para muitas mulheres o apito final representa ameaças e agressões. Nossa paixão nacional não pode ser violência. Não podemos ser coniventes com essa falta grave. Em casos de violência contra a mulher, denuncie.