Dedicatória
À minha filha, Paulinha,
e a todos os pais e mães que aprenderam a conviver com a ausência de um filho.
Com respeito, carinho e esperança.
A casa ainda sabe o seu nome
Eu sei.
A casa não esqueceu.
Ela ainda reconhece o perfume que um dia percorreu os corredores, os passos apressados, as gargalhadas que enchiam os cômodos de vida, as lágrimas silenciosas que, sem alarde, tocaram o chão.
A casa viu tudo.
Viu os primeiros passos inseguros.
Ouviu as perguntas da infância.
Guardou segredos que jamais contou.
Acompanhou os dias de festa, as noites de preocupação, as manhãs de esperança e os pequenos acontecimentos que, sem que ninguém percebesse, construíram uma vida.
Nada disso desapareceu por completo.
Desde aquele dia, a casa nunca mais ouviu a mesma voz.
Ainda assim, continuou guardando cada lembrança como quem protege um tesouro.
As flores do jardim talvez tenham crescido.
As árvores estejam mais altas.
As paredes podem ter recebido outra pintura.
Os móveis talvez ocupem novos lugares.
O tempo fez o que sempre faz.
Mas a casa…
A casa permaneceu.
Os tênis esquecidos num canto.
Os chinelos gastos pelo uso.
Os livros na estante.
A porta do armário que ainda range do mesmo jeito.
Tudo parece conservar um eco quase imperceptível.
Não um eco de tristeza.
Um eco de amor.
Há silêncios que apenas uma casa conhece.
Ela reconhece o lugar preferido à mesa.
Sabe onde o sol costumava entrar pela janela.
Lembra o som dos passos.
O timbre daquela risada.
A pressa.
Os sonhos.
Os dias comuns que, sem que ninguém soubesse, eram extraordinários.
Porque ela viu.
Ela acompanhou.
Ela viveu.
E, quando alguém cruza a soleira com o coração apertado, a casa parece sussurrar, com a delicadeza de quem guarda um tesouro:
— Eis o seu filho.
Não aos olhos.
Mas à memória.
Não às mãos.
Mas ao amor.
Porque existem pessoas que deixam de ocupar um lugar na casa, mas jamais deixam de habitar aquilo que ajudaram a construir.
Talvez esse seja o maior segredo de um lar.
As paredes envelhecem.
Os móveis mudam.
As flores renascem a cada estação.
Mas o amor permanece.
E é por isso que a casa ainda sabe o seu nome.
Escrevi este texto em memória de minha filha, Paulinha, e como um gesto de gratidão a tantos pais e mães que, conhecendo essa mesma dor, me estenderam a mão quando eu mais precisei. Que estas palavras possam ser um abraço silencioso a cada um deles.
Sara Xavier
Julho de 2026