O cinema contundente de Billy Wilder e o épico de David Lean

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Billy Wilder e David Lean são dois polos do cinema clássico. Wilder fazia obras urbanas, claustrofóbicas e cheias de ironia corrosiva. Lean partia para o grandioso, com paisagens infinitas e dilemas morais em escala épica. Temos aqui quatro exemplos dois noir de câmara + dois épicos de campo de batalha. Um disseca Hollywood e a alma humana num apartamento ou mansão. O outro usa desertos e selvas para falar de orgulho, guerra e loucura.
 
Vamos começar por Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950). Uma atriz veterana do cinema mudo planeja um retorno às telas. Gloria Swanson interpreta a inesquecível Norma Desmond. William Holden é Joe Gillis, um roteirista desempregado que está na "marca do pênalti". Tudo muda quando, ao fugir de cobradores, Gillis precisa esconder seu carro e o estaciona na garagem da mansão decadente de Desmond.
 
 
William Holden e Glória Swanson em cenas de O Crepúsculo dos Deuses
 
 
Ironia afiada, diálogos brilhantes, ótimas interpretações e a direção inspirada de Wilder garantiram três Oscars: Melhor Roteiro, Direção de Arte e Trilha Sonora. Certamente merecia também Melhor Filme e Melhor Diretor. Mas Hollywood é assim mesmo e não aprecia ser criticada ou ironizada.
 
Além de Swanson e Holden, o longa conta com a imperturbável presença de Erich von Stroheim como o mordomo Max, na verdade ex-marido e ex-diretor da atriz cuja carreira ele ajudou a construir. Nancy Olson completa o elenco principal, com participações especiais de lendas do cinema mudo: Buster Keaton, H.B. Warner, Cecil B. DeMille como ele mesmo e até a colunista de fofocas Hedda Hopper. Essa obra-prima tem roteiro de Billy Wilder, Charles Brackett e D.M. Marshman Jr.
 
Já Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), é um dos mais celebrados filmes noir da história do cinema. Mais uma obra-prima de Billy Wilder, no auge da criatividade para contar ótimas histórias.
 
 
Fred MacMurray e Bárbara Stanwyck no clássico noir Pacto de Sangue
 
 
Fred MacMurray é o mulherengo vendedor de seguros Walter Neff, que se envolve com a mulher fatal Phyllis Dietrichson, interpretada por Barbara Stanwyck. Edward G. Robinson como o impagável chefe de Neff, Barton Keyes, fecha o trio de personagens inesquecíveis.
 
Paixão, sensualidade, assassinato e traição marcam o enredo de "Pacto de Sangue". A narração em off, a belíssima fotografia em preto e branco de John F. Seitz, as performances do elenco principal e, claro, o roteiro e a brilhante direção do austríaco são alguns dos ingredientes que resultaram em mais uma obra-prima do cinema. Roteiro de Billy Wilder e Raymond Chandler, baseado no livro homônimo de James M. Cain.
 
Billy Wilder (1906-2002), nasceu Samuel Wilder em Sucha, na época parte do Império Austro-Húngaro, hoje Polônia. Começou como jornalista e roteirista em Berlim nos anos 1920. Judeu, fugiu do nazismo em 1933, passou por Paris e em 1934 chegou a Hollywood, onde se tornou um dos maiores diretor-roteiristas da história. Dominava comédia, drama e noir com igual maestria.
 
Wilder teve como principais parceiros de escrita Charles Brackett, com quem fez 13 filmes entre 1938-1950, e I.A.L. Diamond, com quem escreveu 12 comédias de 1957 a 1981. Ganhou seis Oscars: dois de Melhor Diretor, três de Melhor Roteiro e um de Melhor Filme.
 
Seguimos agora para dois épicos de David Lean. A Ponte do Rio Kwai, 1957 e Lawrence da Arábia, 1962, são excelentes clássicos da história do cinema, ambos dirigidos por David Lean, o mesmo de Doutor Jivago (1965), A Filha de Ryan (1970) e Passagem para a Índia (1984) — seu último filme.
 
 
Alec Guinness é o protagonista deste inesquecível drama de guerra A Ponte do Rio Kwai, cujo elenco inclui William Holden e Jack Hawkins
 
 
Lean iniciou a carreira no cinema como editor e ascendeu à cadeira de diretor realizando produções como Desencanto (1945), Grandes Esperanças (1946) e Oliver Twist (1948), mas rapidamente criou gosto por filmes épicos, como os citados no primeiro parágrafo.
 
Estrelado por grandes atores, entre eles Alec Guinness — que ganhou o Oscar de Melhor Ator —, Jack Hawkins e William Holden, A Ponte do Rio Kwai é um drama de guerra cuja história se desenvolve em um campo de prisioneiros japonês, onde estão militares britânicos forçados a trabalhar na construção da ponte do título. No entanto, um grupo de espiões é enviado para explodir a construção.
 
O campo é comandado com mão de ferro pelo coronel Saito, antagonista do coronel inglês Nicholson, personagem de Guinness. Eles passam o longa inteiro em conflito motivado pela construção da ponte e as arraigadas disciplinas de ambos, que não abrem mão dos seus dogmas, arrogância e retidão militar cega.
 
Lawrence da Arábia, 1962, é ainda mais espetacular ao reunir atores do quilate de Peter O'Toole, Omar Sharif, Anthony Quinn, José Ferrer, Alec Guinness, Claude Rains, Jack Hawkins e Arthur Kennedy — que substituiu Edmond O'Brien após este sofrer um ataque cardíaco — David Lean sai das selvas asiáticas para o escaldante deserto da Arábia para filmar mais um grande épico.
 
 
Clássico absoluto de David Lean, Lawrence da Arábia tem em Peter O'Toole e Omar Sharif, sua força dramática. Ainda no elenco Anthony Quinn e José Ferrer
 
 
Enquanto A Ponte do Rio Kwai tem duração de 161 minutos, Lawrence da Arábia é ainda mais longo: 227 minutos na versão de cinema. Ambos foram premiados com sete Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Lean.
 
Estes são filmes de uma era que o cinema deixou para trás. Nos últimos 40 anos são poucos os diretores que se arriscaram realizando trabalhos na mesma linha: A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, Coração Valente (1995), de Mel Gibson, talvez Troia (2004), de Wolfgang Petersen, ou Gladiador (2000), de Ridley Scott, mereçam ser mencionados, mas sem que tenham alcançado o mesmo impacto, ainda que, com exceção de Troia, os outros três citados tenham sido premiados com o Oscar de Melhor Filme.
 
O escritor francês Pierre Boulle (1912-1994) é o autor do romance Le Pont de la rivière Kwaï, 1952. Baseou-se na própria experiência como prisioneiro de guerra dos japoneses na Segunda Guerra, forçado a trabalhar na Estrada de Ferro da Birmânia. Também escreveu La Planète des singes, 1963, que virou o filme clássico de 1968.
 
Boulle não escreveu o roteiro. Como não falava inglês, os roteiristas reais foram Carl Foreman e Michael Wilson. Mas os dois estavam na lista negra de Hollywood por suspeita de comunismo. Para o filme ser lançado, Boulle foi creditado sozinho e ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1958. Só em 1984 Foreman e Wilson receberam crédito póstumo.
 
O historiador, escritor, dramaturgo e roteirista britânico Robert Bolt (1924-1995) é o autor da adaptação para o cinema de Lawrence da Arábia, 1962. Pegou o tratamento inicial de Michael Wilson e reescreveu quase tudo, focando no conflito psicológico de T.E. Lawrence. Ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Bolt também roteirizou outro filme de Lean, Doutor Jivago, 1965, e ganhou outro Oscar.
 
Os blu-rays e edições em dvd dos quatro filmes estão recheados de excelente material extra, como documentários, entrevistas e muito mais. Sem dúvida um deleite para os cinéfilos.
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