De tempos em tempos, movido pelo hábito que herdei do meu saudoso pai, volto a folhear páginas bíblicas.
Entre a poesia de Salmos e as visões do Apocalipse, costumo me deter em um par de livros ausentes no cânone protestante, mas presentes nas edições católicas: os livros I e II de Macabeus.
Embora carregados de devoção, para quem olha com lentes políticas, esses textos são verdadeiros manuais de bastidores sobre disputas de poder, vassalagem e soberania.
Narram a resistência judaica durante uma transição de impérios. De um lado, a hegemonia helenística dos herdeiros de Alexandre, o Grande; do outro, a ascensão vertiginosa da República Romana, que logo engoliria todo o Mediterrâneo.
No meio desse choque de placas tectônicas geopolíticas, a Judeia virou campo de batalha cultural e institucional. Os generais gregos impuseram seus costumes, profanaram tradições e exigiram submissão total. A recusa significava a morte. Sob a liderança do sacerdote Matatias e de seus filhos — os Macabeus —, ergueu-se a resistência em nome da soberania de seu povo.
Mas a parte mais indigesta dessa história não era o opressor estrangeiro. Era a quinta-coluna doméstica.
Para manter privilégios, negócios e cargos, uma elite local colaboracionista não apenas aceitou as ordens de fora, como passou a perseguir os próprios patrícios que resistiam. O capítulo 7 de I Macabeus (versículos 5 a 11) registra a articulação do ambicioso Álcimo, que desejava ser Sumo Sacerdote a qualquer custo — mesmo que isso custasse a entrega de sua nação:
"Todos os traidores e os ímpios de Israel achegaram-se sob a chefia de Álcimo, que aspirava tornar-se Sumo Sacerdote. Acusaram o povo nestes termos: 'Judas e seus irmãos mataram todos os teus amigos e nos expulsaram de nosso país. Envia portanto, agora, um homem que possua tua confiança e que venha ver em que triste situação nos puseram... para castigar a eles e a todos os seus partidários'."
Ao reler esse trecho, é impossível não sentir um arrepio de déjà-vu. Troque os nomes bíblicos pelos do noticiário recente e a simetria torna-se incômoda.
Álcimo é o protótipo do líder desprovido de legitimidade popular, mas faminto pelo poder. Para atingir seu objetivo, faz o caminho da vassalagem: recorre à superpotência da época (o império no Norte) e chora no colo do imperador (Trump), alegando que "Judas" (Lula) e seus aliados perseguiram "seus amigos" e os obrigaram ao exílio — uma alusão transparente aos políticos e influenciadores condenados por atentarem contra as instituições brasileiras e que hoje buscam abrigo e lobby no exterior.
A resposta do império também segue o figurino ancestral. Mandam um interventor de "além do rio" — e que rio se encaixa melhor na nossa geografia política do que o Rio da Prata, palco de recentes alianças da extrema-direita sul-americana? Em simbiose com o Álcimo de turno, articulam represálias contra a nação: chantagens econômicas, ameaças de sanções, ataques furiosos à Suprema Corte e xingamentos direcionados aos magistrados que ousaram aplicar a Constituição.
O roteiro de Álcimo exigia que a população se ajoelhasse perante as tropas e o medo. Contudo, a Bíblia registra a postura firme do povo soberano perante a comitiva capciosa: "não lhes deram ouvidos". No fundo, a história demonstra que o poder imposto por chantagem externa nunca ganha o respeito do povo — e o usurpador jamais será reconhecido como legítimo Sumo Sacerdote.
Pode ser apenas uma enorme e irônica coincidência dos arquétipos humanos. A ganância, a traição política e o complexo de vira-lata perante imperadores estrangeiros são doenças antigas. Mas, ao fechar o livro, a dúvida persiste: estávamos apenas relendo o passado ou assistindo à encenação exata de uma profecia em pleno século XXI?
DANIEL PEREIRA. professor, advogado, ex-governador de Rondônia (2018) e admirador da história bíblica e das religiões.